quarta-feira, 15 de junho de 2011

Wounded Rhymes

Em 2008, Lykke Li (como se pronuncia, não me perguntem) lançou o seu álbum de estreia, “Youth Novels”, apostando numa sonoridade Alternative Pop, jogando numa mescla entre o Folk e a Dream Pop. Passados três anos, esta jovem sueca lança o seu segundo longa-duração, “Wounded Rhymes”. Hoje, o MDC vai traz-vos a review deste disco. Vamos a isso.

Como já disse, Lykke Li é uma artista sueca, que lançou em finais de Fevereiro o seu segundo disco, “Wounded Rhymes”. Tendo ouvido recentemente o seu disco de estreia, para poder fazer esta review, devo dizer que existe uma clara evolução na sonoridade de Lykke Li. Se em “Youth Novels” havia apenas uma ténue influência do Folk na sua música, com a Dream Pop a ser mais notória (e alguns laivos, até, de Electropop em alguns momentos), em “Wounded Rhymes” Li toma uma direcção muito mais próxima do Folk (e em certos momentos até, próxima do Folk-Rock), com um disco muito mais analógico e com um feeling mais “orgânico”. E devo dizer que esta transição me agradou e muito. Confesso, não fiquei fã do seu primeiro LP, mas este segundo disco conquistou-me o coração. Mas falemos mais detalhadamente.

Um dos pontos positivos deste disco é a produção, a cargo de Björn Yttling (lembram-se dos Peter Björn & John, da “Young Folks”?), que eleva o disco a um patamar de grande qualidade. O tom escuro e frio do disco passa muito por essa produção, que não faz por polir em demasia o som (algo que aprecio num disco, como já repeti aqui inúmeras vezes). Isso faz com que as canções soem mais “naturais”, e dá um gostinho especial ao álbum. O que também ajuda à qualidade do disco é a voz de Lykke Li, bastante aprazível aos ouvidos, e que faz passar bem esse sentimento de melancolia que está bem presente em “Wounded Rhymes”. As letras também ajudam a dar um toque muito intimista ao disco. Quanto a canções em particular, dou particular destaque a “I Know Places” (uma faixa tão simples e sincera que é capaz de gelar os ossos), “Get Some” (o seu ritmo consegue pôr qualquer um a mexer), “Jerome” (a percussão nesta música traz-lhe uma força incrível) e à minha favorita do álbum, “Rich Kid Blues” (o mais próximo do Rock que encontramos neste disco, uma canção verdadeiramente viciante), se bem que na larga maioria, as canções conseguem ser cativantes e prender a atenção do ouvinte.

No entanto, o disco também tem alguns traços menos positivos. O principal prende-se ao facto de, após repetidas audições, ficar-se com a ideia de que o disco é demasiado uniforme. Não que isso me chateie muito, mas poderá tornar-se um problema para quem gosta de álbuns mais “variados”. Também devo referir as canções de que gostei menos no disco: “Unrequited Love”, “Sadness Is a Blessing” e a faixa que encerra o álbum, “Silent My Song”, que padecem do mal de me soarem demasiado aborrecidas. No entanto, apesar destas falhas, o disco não deixa de ser bastante bom.

Em suma, a evolução que Lykke Li fez de “Youth Novels” para este “Wounded Rhymes” é notória e, a meu ver, de louvar. Apesar de algumas características menos positivas, este disco prima pela solidez e coesão no seu todo, e mostra que Li é uma artista talentosa, que consegue assinar um belíssimo LP como este. Espero que Li continue a melhorar a cada registo, pois se há coisa que este “Wounded Rhymes” fez foi deixar-me com água na boca por mais.

Nota Final: 8,0/10

João Morais

terça-feira, 14 de junho de 2011

Hardcore Will Never Die, But You Will

Boa noite a todos. Hoje, o MDC traz-vos a review de mais um álbum. Desta vez, temos o sexto disco de originais dos escoceses Mogwai, “Hardcore Will Never Die, But You Will”, que chegou às lojas a 14 de Fevereiro deste ano (eu sei, estou um pouco atrasado nas reviews, mas isto aos poucos entra nos eixos). Qual será o veredicto deste registo? Vejamos.

Para quem não sabe, os Mogwai são um grupo escocês de Post-Rock, e que ao longo dos seus 16 anos de carreira conseguiu atingir uma posição de proeminência nesse estilo de música. Num género normalmente associado à melancolia e à tristeza, os Mogwai conseguiram introduzir alguma boa-disposição e ironia (vejam-se títulos de canções como “I’m Jim Morrison, I’m Dead” ou “Moses? I Amn’t”). Outra das características peculiares dos Mogwai dentro deste estilo é a forma como, de vez em quando, colocam vocais nas suas canções, algo pouco usual no Post-Rock, em que a tendência é a de peças instrumentais. Todas estas peculiaridades fizeram com que eu me interessasse por esta banda, devendo confessar que sou fã até certo ponto, conhecendo o grosso da sua obra. Isso provou ser útil para esta review, pois olhando para o antecessor deste LP, o disco de 2008 “The Hawk Is Howling”, consegue-se ver que as diferenças são notórias, tanto ao nível da postura com que o álbum é encarado, como ao da sonoridade.

Ao nível da postura, “The Hawk Is Howling” foi um álbum atípico na discografia da banda de Stuart Braithwaite, pela sua completa falta de vocais. “Hardcore Will Never Die” retoma essa “tradição” da banda, ao colocar vocais em algumas das peças (nomeadamente ”Mexican Grand Prix” e “George Square Thatcher Death Party”). Ao nível da sonoridade, as diferenças são ainda maiores. Se “The Hawk Is Howling” era rico em canções mais contemplativas, conduzidas pelo piano e que pintavam uma “paisagem” mais calma, “Hardcore Will Never Die (...)” leva-nos a uns Mogwai mais simples, abrasivos e directos. Apesar de ainda existirem algumas canções mais calmas (“Letters to the Metro” ou “Too Raging to Cheers”), a verdade é que neste LP encontramos muito mais potência na sonoridade do quinteto oriundo da Escócia. Confesso, esta mudança agrada-me bastante. Não querendo desdenhar de “The Hawk Is Howling”, a verdade é que este som mais cru e puro dos Mogwai soa melhor aos meus ouvidos. Também a vontade de mudar a cada disco, tentando manter a fórmula fresca, é algo que valorizo muito, e neste “Hardcore Will Never Die (...)” isso é muito bem conseguido.

Os aspectos mais positivos deste disco prendem-se mesmo a essa “crueza” no som, e da forte utilização de uma dinâmica Quiet-Loud-Quiet (popularizada pelos grandes Pixies, banda citada pelos Mogwai como uma das grandes influências), que faz com canções que comecem vagarosas rapidamente se tornem em poderosíssimas peças, com uma rapidez e energia inquietantes. Ao nível técnico, a banda também soa melhor que nunca, com especial destaque para a bateria de Martin Bulloch, que soa sempre forte e certeira por todo o registo.

Como pontos altos deste disco, devo destacar as canções “How to Be a Werewolf” (com um build-up fantástico, que leva a um clímax sonoro intenso), “San Pedro” (curta e certeira, consegue mostrar alternâncias no ritmo sem nunca perder o feeling de urgência que nos faz ficar à beira da cadeira) ou a minha favorita, “Rano Pano” (5 minutos e 17 segundos de pura beleza auditiva, com um riff “sujo” que me deu voltas à cabeça, e com subtis adições e subtracções no esquema sonoro, que me fizeram repetir esta faixa vezes e vezes sem conta), se bem que, no geral, o disco soa muito bem.

Contudo, também devo destacar os defeitos do disco. O principal problema, para mim, são os vocais, que achei bastante imperceptíveis (talvez seja de mim, ou talvez os efeitos pelos quais estes passaram realmente os tornaram indecifráveis em certos momentos). No que toca a canções, há duas que realmente podiam ter sido mais bem trabalhadas: “Death Rays” e “Letters to the Metro”, que achei bastante aborrecidas, e a meu ver desnecessárias neste disco. Contudo, são apenas pequenas falhas num disco que prima pela sua grande qualidade.

Resumindo, “Hardcore Will Never Die, But You Will” mostra uns Mogwai em topo de forma, e que não desejam repetir-se uma e outra vez. Conseguindo despir-se de tudo o que é acessório, os Mogwai fizeram um disco mais simples e directo, que chega aonde é preciso sem grandes artifícios. “Hardcore Will Never Die, But You Will” é, assim, um disco que recomendo vivamente, tanto a fãs como a quem não conhece minimamente a banda. Coloca-se, no entanto, a questão: o que virá a seguir?

Nota Final: 8,9/10

João Morais

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Collapse into Now

Com 14 álbuns de originais editados desde o início da banda, em 1980, os R.E.M. atingiram ao longo destes 31 anos de existência um estatuto de grande relevância no panorama musical mundial. Considerada uma das bandas mais importantes do Alternative Rock americano dos anos 80 (opinião que partilho), a formação proveniente de Athens, Georgia lançou em Março deste ano o seu 15º disco, “Collapse into Now”. Hoje, o MDC propõe uma análise desse mais recente LP da banda liderada por Michael Stipe. Vamos a isso?

Para começar, devo dizer que o antecessor deste “Collapse into Now”, ”Accelerate” (2008) foi um disco que conseguiu dar uma nova vida aos R.E.M., especialmente depois do flop de “Around the Sun” (2004). Por isso, as expectativas para este 15º de originais estavam bem elevadas. Contudo, a banda de Stipe não conseguiu, a meu ver, capitalizar esse “rejuvenescimento”. Enquanto que “Accelerate” ia numa direcção mais veloz, roqueira e abrasiva, este “Collapse into Now” soa disperso e difuso, com poucas faixas que consigam realmente criar uma ligação convincente com o ouvinte. Foi com tristeza que constatei que este álbum estava muito medíocre, pois considero-me fã da banda, e estava com esperanças que este novo fôlego se prolongasse aos próximos álbuns.

Em termos de sonoridade, “Collapse into Now” mantém o “selo R.E.M.”, com a banda a soar a si mesma. Contudo, a forma como esta sonoridade nos é entregue é, na maioria das vezes, pouco satisfatória. Faixas como “Discoverer” (faixa que abre o disco), “Oh My Heart” (que promete com a sua intro orquestral, mas que acaba por “descambar” numa balada acústica pouco inspirada) ou “Walk It Back” (mais uma balada, desta feita ao piano, muito repetitiva e nada emocionante) conseguiram desligar-me do álbum e querer mudar de música. Isso é aliado ao facto da maioria das canções soarem a filler, desprovidas de qualquer energia ou significado. Estou a falar de canções como “All the Best”, “It Happened Today” ou “Blue”, (faixa que encerra o disco de uma forma pouco sólida, indo buscar o riff da faixa de abertura, e que acaba por soar a um final forçado), que ajudam a fazer com que este “Collapse into Now” seja uma obra medíocre.

É certo que canções como “Überlin” (uma faixa slow tempo, que consegue transmitir um sentimento de melancolia), ”Alligator_Aviator_Autopilot_Antimatter” (um belo tema, muito enérgico e frenético) ou “Me, Marlon Brando, Marlon Brando and I” (mais uma faixa imersa numa completa melancolia, que impressiona pela sua simplicidade) têm uma grande aura, e conseguem mostrar que há “focos luminosos” no LP, mas de cada vez que essas faixas tentam criar embalo, esse momentum é cortado por faixas medíocres (e por vezes más), levando a que a obra, no seu todo, soe descoordenada, desorganizada e pouco aprazível ao ouvido.

Resumindo, “Collapse into Now” está longe de ser um bom disco. Não sendo inaudível, este 15º trabalho dos americanos R.E.M. soa a um flop tremendo, pois não só falhou em cativar-me, como foi incapaz de suceder de forma digna a “Accelerate”. Eu só espero (quase que rezo, apesar de ser ateu) que para a próxima Michael Stipe e companhia nos presenteiem com um álbum de grande nível, porque eu não estou com vontade de ouvir mais nenhum “Around the Sun”.

Nota Final: 4,3/10

João Morais

terça-feira, 31 de maio de 2011

Diabo Na Cruz/Linda Martini @ CCB

Olá a todos. Hoje, o MDC traz-vos a reportagem do último dia de concertos do CCBeat, a série de três concertos duplos ocorridos nos dias 19, 20 e 21 de Maio, no Centro Cultural de Belém. Na última sessão (que irei recordar nas seguintes linhas) actuaram duas proeminentes bandas da cena alternativa portuguesa: Diabo Na Cruz e Linda Martini.

Abrem-se as portas para o Grande Auditório do CCB. À medida que os fãs são encaminhados para os seus lugares, o álbum “Physical Graffiti”, dos Led Zeppelin toca como música de fundo. Apesar de não ter nada a ver com a sonoridade de nenhuma das bandas presentes, devo admitir que esta escolha musical é capaz de entusiasmar um morto.

Cerca das 21:00: levanta-se o pano, e vislumbramos o sexteto: Jorge Cruz na guitarra e na voz, B Fachada na viola braguesa e nos vocais de apoio (vocais esses que ao longo do show enfrentaram algumas adversidades técnicas), Bernardo Barata no baixo, João Pinheiro na bateria e João Gil no teclado, e um novo elemento, Manuel Pinheiro, na percussão. Estes seis artistas abriram a noite com o medley introdutório “Eito Fora/Macaco de Imitação”, retirado do EP “Combate” (que se juntou a “Vitou!”, álbum de estreia do grupo, datado de 2009). A partir daí, foi um festim de dança na plateia, com uma forte interacção entre o público e a banda (com direito a piadas sobre o bigode de Jorge Cruz, e histórias acerca de cassettes do Quim Barreiros).

Com uma setlist relativamente curta (o show durou cerca de 45 minutos), Belém teve direito a grandes faixas, como “Tão Lindo”, “Os Loucos Estão Certos”, “Casamento” (com coros cantados a plenos pulmões pela audiência), “Corridinho de Verão” (com especial participação dos elementos do sexo feminino presentes na plateia, a pedido da banda), e a música que findou o concerto, “Fecha A Loja”. Depois disto, sai a banda de palco (após grande confusão sonora causada por Fachada, na bateria, na viola e nos teclados), cai o pano e voltam as luzes. Um breve intervalo para recuperar o fôlego para o que vem a seguir.

Setlist Diabo Na Cruz

1. Eito Fora/Macaco de Imitação

2. Tão Lindo

3. Os Loucos Estão Certos

4. Combate com Batida

5. Lenga-Lenga

6. Bico De Um Prego

7. Casamento

8. Bom Tempo

9. D. Ligeirinha

10. Corridinho de Verão

11. Fecha a Loja

São sensivelmente dez horas da noite. O pano volta a subir, e em palco vemos uma configuração pouco usual: ao invés das posições standard (baterista atrás, guitarristas e baixista na frente), a banda está disposta em linha: da esquerda para a direita, estão André Henriques (guitarra e voz), Cláudia Guerreiro (baixo e vocais de apoio), Pedro Geraldes (guitarra e vocais de apoio) e Hélio Morais (bateria), todos no mesmo plano. Soam os primeiros “guinchos” do feedback, e o quarteto abre com “Nós os Outros”, seguido de “Mulher-a-Dias” e “Amigos Mortais”, as três do mais recente álbum, “Casa Ocupada” (2010).Logo nos primeiros acordes, já todo o CCB ignorava as cadeiras, e vemos uma maré de gente a encher as escadas. Hélio Morais queixa-se: diz que gostaria que o palco estivesse mais perto da plateia. Segue-se “Dá-me A Tua Melhor Faca”, do primeiro álbum (“Olhos de Mongol”, de 2006). O público está claramente ligado à banda, envolto numa rede de sedução criada pelas letras profundas, as vozes sentidas, as guitarras frias e a bateria forte e compassada. Podem não ter a interacção dos Diabo Na Cruz, mas compensam com o esforço que colocam em cada canção.

Começa “Amor Combate”, a faixa mais popular da banda (resultado do extensivo radioplay em estações como a Antena 3), e Belém está hipnotizada. Depois, “Juventude Sónica”, (título que mais parece piada dirigida a quem os critica por soarem aos seminais Sonic Youth) que leva o Grande Auditório ao rubro com a sua energia imparável. “Estuque” volta a trazer o hipnotismo mais melancólico, tão típico das canções dos Linda Martini. Para o fim, fica um medley “Belarmino/O Amor É Não Haver Polícia”, e o “encore fingido”(a banda não gosta de sair de palco para os encores, e preferiu fazer de conta que saiu e voltou a entrar “estilo ninja”, segundo Hélio Morais). “Cem Metros Sereia” terminou a noite, com o baterista a fazer um convite ao público para uma invasão de palco, prontamente aceite por grande parte da audiência. Perante isto, os seguranças ficaram meramente a olhar e a tentar estabelecer alguma ordem na simbiose que se criou em palco, entre músicos e ouvintes, com ambas as partes a gritar a plenos pulmões o refrão da canção que fechou o CCBeat deste ano.

Concluindo, foi com chave de ouro que este ciclo de shows duplos em Belém terminou. Com a mistura popular e roqueira dos Diabo Na Cruz e a explosão alternativa e apaixonada dos Linda Martini, aliado às óptimas condições acústicas do recinto, creio que não tenha havido alguém desiludido. Só se espera é que iniciativas como esta continuem a aparecer, para incentivar a cultura.

Setlist Linda Martini:

1. Nós os Outros

2. Mulher-a-Dias

3. Amigos Mortais

4. Dá-me A Ttua Melhor Faca

5. Quarto 210

6. Cronófago

7. Amor Combate

8. Juventude Sónica

9. Ameaça menor

10. Estuque

11. Elevador

12. Belarmino/O Amor É Não Haver Polícia

13. Lição de Vôo Nº1

14. Cem Metros Sereia

(Mais uma vez, não foi possível tirar fotografias, devido à falta de autorização prévia. Assim sendo, o MDC decidiu utilizar as fotos da autoria de Mariana Paramês, retiradas da reportagem do concerto, e que podem ser encontradas aqui: http://www.imagemdosom.com/index.php/component/k2/item/590-diabo-na-cruz-%20-linda-martini-%7C-centro-cultural-de-bel%C3%A9m)

João Morais

terça-feira, 24 de maio de 2011

Zonoscope

Bom dia a todos. Hoje, o MDC decidiu começar a trabalhar cedo, para vos trazer a análise de mais um álbum da colheita de Fevereiro (mês prolífero, tenho vindo a constatar): ”Zonoscope”, dos australianos Cut Copy. Esta banda entrou na cabeça e no coração de imensa gente com os certeiros singles “Hearts On Fire” e “Lights & Music”, canções extraídas do seu segundo álbum, “In Ghost Colours” (2008), disco muito bem conseguido. Será que este “Zonoscope” consegue manter a qualidade a que o segundo álbum nos habituou? Vejamos.

Para começar, digo desde já que não deve ter sido tarefa fácil criar um sucessor digno desse nome ao álbum de 2008, “In Ghost Colours”. Tanto o público como a crítica aclamaram este registo vivamente, e isso é sempre um factor de pressão, pois o desejo de um artista é sempre superar-se a cada obra que lança (ou pelo menos tenho em mente ser esse o pensamento geral dos artistas). Se a estreia, “Bright Like Neon Love” (2004), era algo fácil de superar, o mesmo já não se pode dizer de “In Ghost Colours”, devido à identidade musical que criou e que passou a definir os Cut Copy. A mistura de diversos géneros e sonoridades, desde o New Wave à Psychadelia dos anos 60, passando pela Synthpop, tudo misturado com uma atitude muito Indie Rock dos anos 00 fez com que o disco soasse, se não a inovador, pelo menos a muito fresco.

Contudo, se a tarefa parecia homérica, a verdade é que Dan Whitford e companhia conseguiram responder muito bem ao desafio, lançando um disco que mantém tudo o que caracteriza os Cut Copy, e juntando mais algumas influências para o “caldeirão”. Essas novas sonoridades não estão muito visíveis ao ouvido mais distraído, mas o ouvinte mais atento consegue denotar algum Worldbeat digno de David Byrne/Talking Heads (especialmente em canções como “Need You Now”, a faixa de abertura, ou em “Pharaohs & Pyramids”, uma das minhas canções favoritas do disco), e até alguma influência da música experimental de bandas como os Animal Collective (Dan Whitford é fã confesso do grupo americano, e isso pode explicar porque é que canções como “Where I’m Going” ou “This Is All We’ve Got” me fazem tanto lembrar o quarteto de Baltimore). Na penúltima faixa, os Cut Copy até encenam uma aproximação ao Acid House, através de “Corner of the Sky”, uma canção feita claramente a pensar nas pistas de dança. E para terminar "Zonoscope", os australianos reservaram-nos uma maravilhosa súmula de tudo o que faz este disco: “Sun God”, que mistura tudo o que acima foi referido, numa grandiosa canção de 15 minutos, que remata de uma bela forma um grande disco.

É verdade que também existem algumas imperfeições, mas são felizmente uma raridade. Tirando o facto de duas canções serem menos do meu agrado (“Need You Now” , que a meu ver não abre com energia suficiente, e “Strange Nostalgia for the Future”, que apesar de ser uma faixa de transição entre duas músicas, não me pareceu ali bem colocado), o disco está muito sólido, e consegue-se facilmente ouvi-lo várias vezes, que nunca perde a magia.

Resumindo, “Zonoscope” é um grande disco, que soa muito bem e, com a chegada do Verão, se adequa bem ao calor e ao ócio da época. Apesar de não ser tão imediato quanto o seu antecessor (não encontrarão aqui nenhuma “Lights & Music”), consegue cativar o ouvinte a ouvir cada vez com mais atenção, e isso é sempre uma grande qualidade. O terceiro disco de originais dos Cut Copy é, assim, um LP extremamente sólido e bem composto, e não me espantaria nada se o víssemos figurar em muitos tops de fim de ano. Será que vai fazer parte do Top 10 do MDC? Veremos!

Nota Final: 8,8/10

João Morais

sábado, 14 de maio de 2011

The King is Dead

Olá a todos. Após uma longa e cansativa semana, o MDC volta para vos trazer mais uma review. Na sessão de hoje, temos os americanos TheDecemberists, com o seu mais recente disco, “The King is Dead”, lançado em Fevereiro. Vejamos o que temos a dizer acerca do sexto LP da banda.

Vou começar por dizer que não sou, de todo, um especialista em The Decemberists. Contudo, conheço de forma razoável a sua obra, e estou à vontade para dizer que são, a meu ver, uma boa banda. Por isso, quando soube que “The King is Dead” estava para sair, fiquei logo com boas expectativas. Os The Decemberists sempre foram, no meu imaginário, uma daquelas bandas que não consegue lançar um mau álbum. No entanto, esta minha ideia ficou apagada quando o último segundo de “The King is Dead” passou. Este álbum, não sendo mau, fica muito aquém de ser bom.

O título do disco, “The King is Dead”, é um tributo aos The Smiths, e ao seu álbum “The Queen is Dead” (que celebra o 25º aniversário do seu lançamento em Junho deste ano), banda que os The Decemberists citam como uma das suas favoritas. No entanto, engane-se quem pensa que vai ouvir este disco e encontrar lá a banda de Morrissey, Marr e companhia lá “metida”. Este disco não tem rigorosamente nada a ver com o grupo britânico de Manchester. É, sim, um disco muito “campestre”, com sonoridades fortemente influenciadas pelo Country-Folk (como Neil Young, por exemplo), e por vezes dando “piscadelas de olho” aos R.E.M. E se este conjunto de influências muito me agrada, a verdade é que o disco acaba por não ser tão bom quanto promete. Analisemos, em detalhe.

O disco abre com “Don’t Carry It All”, uma faixa que mostra bem o plano geral do álbum, todo ele “pintado” com tons do Midwest americano. No entanto, este Midwest não é tão interessante quanto o de Neil Young ou de John Fogerty. Enquanto que estes artistas nos dão uma imagem misteriosa e interessante dos temas mais “campestres”, os The Decemberists não conseguiram fazer passar essa mensagem neste disco. Conseguiram, isso sim, pegar nele e fazer um álbum muito aborrecido, e que rapidamente perde o interesse após alguns segundo de audição. O “Oeste Selvagem” é decerto muito bonito, mas infelizmente, este disco não faz lhe jus. É certo que canções como “Calamity Song” (que “tresanda” a R.E.M., talvez por causa da participação de Peter Buck na faixa), “Dear Avery” (música que encerra o álbum duma forma calma e bem pensada) “Down By the Water”(uma canção com um poder enorme) trazem alegria e cor ao registo, contudo, a maioria do álbum é composta por músicas como “January Hymn” ou “All Arise!”, extremamente penosas, pois não conseguem surpreender ou emocionar. A meu ver, o disco deveria ter seguido o caminho de “This Is Why We Fight” (a minha faixa favorita), canção muito interessante pelo que traz ao álbum. Uma pena, realmente, este “flop” dos The Decemberists.

Resumindo, este álbum não é terrível, mas é uma “seca”. É certo que tem uns “pontos luminosos” lá espalhados (e que deveriam ter sido as “linhas mestras” do álbum), mas infelizmente o resto é extremamente chato e previsível. Aconselho este álbum apenas a verdadeiros fãs da banda, porque se querem pegar neles por aqui, o mais provável é não sentirem a curiosidade se ouvir o resto da obra do grupo (o que seria uma pena). Esperemos é que para a próxima, o grupo de Colin Meloy e companhia nos traga algo mais completo e interessante para nos dar ouvir.

Nota Final: 5,1/10

-O Música Dot Com deseja as melhoras a Jenny Conlee, que faz parte da banda, e a quem foi recentemente diagnosticado um cancro. Fica aqui uma mensagem de esperança e de força para a artista-

João Morais

terça-feira, 3 de maio de 2011

Wasting Light

Boa noite a todos. Eu sei que é pouco usual publicar posts com tão poucos dias de intervalo, mas devido ao elevado número de álbuns por analisar (e que se estão a acumular cada vez mais), decidi pôr mãos à obra. Hoje, falamos de um lançamento mais recente: “Wasting Light”, o sétimo álbum de originais dos americanos Foo Fighters. Depois de um tremido “Echoes, Patience, Silence & Grace” (2007), será que a banda de Dave Grohl conseguiu lançar um bom disco? Vejamos

Para começar, devo dizer que, para mim, os Foo Fighters sempre foram uma banda interessante. A forma como Dave Grohl gravou (praticamente) sozinho o primeiro álbum da banda, “Foo Fighters” (o homónimo de 1995), sempre me fez admirar, de certa forma, este senhor do Rock. De grande baterista (e aí, é largamente reconhecido como mestre) passou a bom vocalista e guitarrista. A transição podia ter sido pior, mas Grohl lá se aguentou. Depois, formou a banda propriamente dita, que apesar dos dramas internos, conseguiu manter estabilidade ao nível da sonoridade. Os Foo Fighters são uma banda consistente, isso ninguém questiona. Podem nunca ter feito um álbum estrondoso, mas sempre nos entregaram discos dignos. (Mesmo “Echos, Patience, Silence & Grace”, para mim o pior disco da banda, não é um mau álbum, mas sim um LP mais fraco) Agora, Grohl e cia. entregam-nos este “Wasting Light”, álbum produzido por Butch Vig (para quem não conhece, é “só” quem produziu “Nevermind”), feito “à maneira antiga”, na garagem de Dave Grohl, repudiando o digital e primando pelo analógico. Logo aí, “marcaram pontos” comigo. Apesar de não ter nada contra o digital, creio que há uma certa magia no analógico, que me transmite mais emoção ao ouvir (manias, eu sei). Mas ao ouvir o disco, devo confessar que fiquei espantado, pela positiva. Apesar de não esperar um álbum mau, o LP superou as minhas expectativas. Vejamos, em detalhe.

Desde já, uma coisa é ponto assente: confirma-se aquilo que se tem dito; “Wasting Light” é um disco mais pesado do que os seus antecessores. Pode não ser por muito, mas a verdade é que está patente uma força e uma energia que dão ao álbum um teor mais “pesadito”. Para isso, contribuem, sem dúvida, canções como “Rope” (sem dúvida a minha favorita do disco) e “White Limo” (nunca vimos Dave Grohl gritar assim), que “cheiram” um pouco a Queens of the Stone Age, pela intensidade e pela potência. Para esse “peso”, contribui também o cumprimento da promessa feita por Grohl: não há, de facto, nenhuma “balada lamechas” (algo que o frontman da banda garantiu, através do seu Twitter). O mais próximo que temos disso é mesmo “Dear Rosemary”, que consegue ser bastante poderosa. De resto, temos canções mais tipicamente “Foo Fighterianas”, como “Arlandria”, “These Days” ou “Miss the Misery”, que não inovam muito em relação ao que já é cânone nesta banda.

Cânone são, também, as letras de “Wasting Light”. Nota-se que houve um bom trabalho neste departamento, por parte de Grohl, se bem que muitas das canções acabam por recorrer a frases-chavão da cultura Pop anglo-saxónica (assistimos a versos como “What’s in it for me?” ou “We’re going nowhere fast”, lugares-comuns da língua inglesa). Isto torna as letras previsíveis, e se bem que isso não me incomoda muito, reconheço que possa haver gente que fique escandalizada com isto. No entanto, devo realçar um par de músicas que têm letras particularmente interessantes: “I Should Have Known” e “Walk”, as duas últimas faixas do disco. A primeira é, a meu ver, uma clara homenagem a Kurt Cobain (apesar de Dave Grohl não confirmar isto, é evidente que as letras referenciam a situação de Kurt; esta tese é reforçada pela participação nesta música de Krist Novoselic, o baixista dos Nirvana), enquanto que a segunda está brilhantemente colocada como contra-ponto, com uma letra que fala de “recomeçar depois de cair”. Isto foi, para mim, um belo encerramento para o álbum, com duas canções com letras particularmente boas, e que de certa forma se complementam.

Porém, nem tudo são “rosas” neste disco. Uma das maiores críticas que se pode fazer a este álbum é, sem dúvida, a falta de inovação. É verdade que disse que o álbum parece estar um pouco mais pesado do que os anteriores, mas isso deve-se, a meu ver, da (boa) produção de Butch Vig, que soube equilibrar bem a balança entre o “polido” e o “sujo”. No entanto, isso só vem “tapar” a questão da falta de originalidade. Sejamos honestos, apesar de ser um bom álbum, “Wasting Light” não quebra as barreiras daquilo que esperamos que seja um CD dos Foo Fighters. E se por um lado é bom manter a identidade sonora, a verdade é que há muito que Grohl e companhia não se aventuram por espaço desconhecido. Não tirando mérito ao álbum, este é um ponto que devo destacar: a falta de coragem da banda em experimentar.

Resumindo, “Wasting Light” é um álbum muito bom. Pode ter falhas, e alguns momentos menos bons ( “Back & Forth” ou “A Matter of Time”), mas é no geral um disco bastante sólido, e muito proveitoso de se ouvir. Não esperem, no entanto, mudanças radicais no som da banda. Mas a verdade é que “Wasting Light” é mais uma prova que os Foo Fighters são muito bons naquilo que fazem. E nós gostamos disso. Que venham mais!

Nota Final: 8,7/10

João Morais

sábado, 30 de abril de 2011

Yuck

Saudações. Hoje é Sexta-Feira, e o Música Dot Com traz-vos a review da semana. Desta vez, temos um disco de estreia: “Yuck”, álbum homónimo dos Yuck, é o álbum escolhido. Como não há tempo a perder, vejamos quem são estes novatos, e do que é que saiu das mentes deste grupo.

Os Yuck surgiram em 2009, em Londres (ou no deserto, em Israel, segundo afirmações dos próprios). A formação é composta por quatro artistas: Daniel Blumberg e Max Bloom, ambos ingleses, que se ocupam dos vocais e das guitarras, Mariko Doi, japonesa e baixista do grupo, e Johny Rogoff, americano e baterista. Estes quatro indivíduos juntaram-se e formaram esta particular banda, e é notório que os Yuck têm o coração Alternative Rock americano dos anos 80/90. Pavement (banda que, aliás, indicam como grande influência), Sonic Youth ou Dinosaur Jr são apenas alguns dos nomes que surgem mal ouvimos o disco deste grupo. Aliás, a própria capa deste disco tem um aspecto muito “DinosaurJr-Pavement-esco”, e isso despertou-me, mesmo antes de ouvir a música, muita curiosidade. Analisemos então, com mais detalhe, este “Yuck”.

A abertura do disco é feita com “Get Away”, uma grande canção, e que nos leva logo para um “ambiente” onde as camisas de flanela, as botas Doc Marten e as sapatilhas All-Star são abundantes, e essa sensação é transversal ao longo de todo o álbum. “Get Away” e “The Wall” estão recheadas de “teen angst” (dignas duns Sonic Youth), “Holing Out” e “Georgia” têm uma guitarra solo extremamente ácida (J Mascis dos Dinosaur Jr cobra direitos de autor) e “Suicide Policeman” e “Sunday” são mais calmas e contemplativas (lembrando um pouco os Pavement, que, de resto, estão sempre presentes, nos vocais dos vocalistas, que me fazem lembrar, e muito, Stephen Malkmus). Como podemos ver, está tudo aqui. No entanto, apesar das influências serem notórias, o que é espantoso nos Yuck é que conseguem trazer um elemento muito próprio, e misturar todos estes ícones dos anos 80 e 90 americanos com distorções dignas do Shoegaze (The Jesus and Mary Chain ou My Bloody Valentine podem ficar orgulhosos de “Rubber”), ou divagar, por vezes, para caminhos mais etéreos, tipicamente Post Rock, como em “Rose Gives a Lilly” (instrumental que balança entre Explosions in the Sky e Sonic Youth em momentos mais experimentais). Estes “casamentos” entre géneros e sub-géneros fazem com que os Yuck tenham criado uma belíssima obra, à qual eu rendo-me completamente.

Os momentos menos bons do disco são raros (“Shook Down” e “Suck” são, para mim, as duas faixas mais fracas, mas estão longe de ser más), e não pesam muito na hora de reflectir. “Yuck” é um LP sólido, coerente, e com uma sonoridade muito interessante, que, não sendo totalmente inovadora, consegue trazer alguma frescura quando a ouvimos. Um disco brilhante, a meu ver.

Em suma, devo dizer que recomendo veemente a toda a gente que escute este disco. Se forem fãs do Alternative Rock, vão conseguir, sem dúvida, encontrar as vossas bandas favoritas neste “Yuck”. Isso diz tudo acerca dos Yuck: podem não ter inventado a roda com este álbum, mas criaram, sem dúvida uma jante janota, que me agradou imenso. Esperemos que continuem assim, por muitos e bons anos!

Nota Final: 9,1/10

João Morais

domingo, 24 de abril de 2011

Let England Shake

Boa noite, e antes de mais, espero que tenham passado uma Feliz Páscoa. Após uma pequena pausa nas publicações (o MDC também precisa de férias), estamos de volta com uma review “fresquinha” dum álbum lançado em Fevereiro. Falo de “Let England Shake”, o oitavo disco de originais da britânica PJ Harvey. O que é que será que o Música Dot Com pensa deste LP?

Começo por dizer que a obra de Polly Jean, no geral, nunca foi alvo do meu interesse. Não por ter algo contra a senhora, mas nunca senti curiosidade em aventurar-me a ouvir alguma coisa dela. Por isso, quando decidi ouvir este “Let England Shake”, soube que iria ter de fazer algum “trabalho de casa”. E foi isso mesmo que fiz: ouvi algumas coisas da discografia de Harvey, para poder saber no que é que me ia meter, e o que descobri foi que este mais recente álbum de PJ é uma mudança radical em relação ao seu antecessor, “White Chalk” (2009). Enquanto que “White Chalk” é um álbum conduzido pelo piano, “Let England Shake” traz uma faceta mais ligada ao Folk Rock e à guitarra, se bem que não excluindo de todo o piano, relega-o para segundo plano.

No que toca à temática do álbum, esta é bastante clara: se atentarmos às letras, “Let England Shake” é uma ode à “Inglaterra Gloriosa” de outrora (não é por acaso que uma das canções se chama “Glorious Land”), e denota-se uma forte vertente interventiva por todo o disco, com uma crítica contundente às políticas recentes do Reino Unido no geral, e uma postura fortemente anti-Guerra em particular. Este álbum só vem reafirmar aquilo que há anos que é claro: no departamento do songwriting, Harvey é brilhante. No entanto, não é só de letras que se faz um álbum. Em “Let England Shake” é verdade que existem momentos onde a composição musical é muito boa, mas há outros onde a qualidade é, a meu ver, menor.

Se canções como “The Last Living Rose” (melhor canção do disco, sem dúvida) ou “The Words That Maketh” (uma secção de metais simplesmente primorosa) são espectaculares, outras há que são simplesmente medianas, como “Let England Shake” (a faixa-título que abre o disco) ou “All And Everyone” (apesar da promessa, não aquece nem arrefece), havendo ainda faixas que foram, para mim, um autêntico tormento, como é o caso de “The Glorious Land” ou “On Battleship Hill”, que apesar das grandes letras, musicalmente não me apelaram nada. Isto demonstra a grande falha de “Let England Shake”: a sua inconsistência, que acaba por matar o ritmo em certas ocasiões do disco.

Resumindo, “Let England Shake” é um álbum com momentos de génio (especialmente ao nível lírico), mas que falha na coerência, com momentos grandiosos a serem cortados por músicas menos boas. No entanto, creio que este álbum vai agradar todos os fãs de PJ Harvey, e aguçar o interesse de quem não a conheça muito bem (pelo menos a mim conseguiu despertar-me o interesse para ouvir mais do trabalho desta britânica). Espero é que, para a próxima, Polly Jean consiga fazer um álbum mais coeso. Mas até lá, vale a pena ouvir este “Let England Shake”.

Nota Final: 7,8/10

João Morais

sábado, 9 de abril de 2011

Different Gear, Still Speeding

Olá a todos. Para hoje, o MDC decidiu trazer-vos uma review dum álbum lançado no mês de Fevereiro. Falo-vos de “Different Gear, Still Speeding”, o álbum de “estreia” dos Beady Eye (os “ex-Oasis”, menos Noel Gallagher). Só o facto de a banda ser composta pelos antigos membros do grupo de Manchester, mas com a subtracção daquele que foi, sem dúvida, a figura-chave da subida ao estrelato do grupo (não podemos esquecer que Noel era o principal compositor e escritor de letras da banda) já causou grande expectativa. A dúvida era: será que Liam consegue mostrar ao mundo que não precisa do irmão para ter uma banda? Vejamos a resposta.

Começo por dizer que sou um fã confesso dos Oasis. É certo que tiveram os seus momentos menos bons, mas os dois primeiros álbuns (“Definitely Maybe”, de 1994 e “(What’s the Story) Morning Glory”, de 1995) não são nada menos do que brilhantes, e essenciais para perceber o que é que aconteceu na música, desde o nascimento (e queda) do Britpop à ascensão do Indie Rock (termo que uso com muitas reservas). Devo dizer que fiquei particularmente triste com o fim da banda. Eles tinham acabado de lançar um grande álbum (“Dig Out Your Soul”, 2008), que pôs fim à época de discos medianos que “atormentou” o grupo, e isso dava algum ânimo para o que viria a partir daí. No entanto, o facto de Liam ter preferido continuar com o grupo após o abandono do irmão não pode ser visto como uma grande surpresa: ele sempre tentou ser a figura proeminente da banda, e essa atitude vai nessa linha. Mas falando agora dos Beady Eye, e deste “Different Gear, Still Speeding”: devo dizer que este disco não é, de todo, a “bomba” que Liam anunciou. É óbvio que nunca se poderia esperar melhor do que o melhor dos Oasis (algo que Liam nos tentou vender, vezes e vezes sem conta), no entanto, a confiar nas palavras do frontman, esperava-se, pelo menos, melhor do que isto. Sejamos honestos: o álbum está muito mediano.

É óbvio que o disco tem boas música, diria até espectaculares, como “Four Letter Word” (música que abre o disco, e que faz lembrar os tempos áureos dos Oasis, com uma letra que parece referenciar o fim da “outra” banda: “Nothing ever lasts forever”), “Beatles & Stones” (que curiosamente, não soa nem a Beatles, nem a Rolling Stones, mas mais a The Who) ou “The Roller” (um “copy-paste” por parte dos Beady Eye de “Instant Karma”, de John Lennon, mas que é, de facto, uma música muito gira), mas infelizmente também tem músicas que me provocaram um tédio imenso. O exemplo mais claro desse aborrecimento está em canções como “Wind Up Dream” ou “Wigwam”, que me fizeram desesperar (e não estou a exagerar, juro). Pelo meio, o LP é polvilhado por músicas mais “medianas”, que não aquecem nem arrefecem, como “The Beat Goes On”(que tem claramente como inspiração “All The Young Dudes”, de David Bowie, mas falha em causar impacto) ou “Bring the Light” (para mim, aquele piano “estrangulou” por completo aquela que poderia ser uma grande canção). Mas o que é talvez o pior deste disco não é o número de canções boas ou más que tem: o seu maior defeito é a dificuldade que os Beady Eye tiveram, neste álbum, em estabelecer uma identidade musical que viva por si só. Neste “Different Gear, Still Speeding”, Liam e companhia soam a Oasis (nos bons e nos piores momentos), a Beatles, a Rolling Stones, a The Who, a Kinks, e a muitas outras coisas, mas não soam a Beady Eye, e isso é de lamentar.

Em suma, este disco tem grandes momentos, mas infelizmente também tem grandes falhas. Confesso que sinto alguma tristeza, porque realmente desejava que este álbum fosse um “passo em frente” para Liam, por quem sempre nutri muita simpatia (aquela atitude “Rock ‘N’ Roll” de quem diz tudo o que pensa sempre me causou fascínio). Mas espero que estes rapazes tenham tirado notas acerca do que fizeram de mal, e que para a próxima consigam realmente “brilhar” com um disco estrondoso. Ou isso, ou Liam pede desculpas a Noel e os Oasis voltam a reunir-se. Para mim, qualquer das duas opções está bem.

Nota Final: 6,0/10

João Morais