sexta-feira, 29 de julho de 2011

17º Super Bock Super Rock @ Herdade do Cabeço da Flauta - Reportagem

Depois das “mini-férias” e da loucura do SBSR, que levou 90.000 pessoas à Herdade do Cabeço da Flauta, o MDC traz-vos a reportagem possível daquele que é, discutivelmente, o melhor cartaz de 2011. Aviso que nem todos os concertos têm cobertura aqui (escolhas tiveram de ser feitas), e dos escolhidos, apenas alguns têm uma análise mais detalhada (sendo esses aqueles de que mais gostei). Outra nota: nem todos os concertos têm setlist, porque não consegui encontrá-las a todas. Contudo, isso pode ser sujeito a alterações, quando possível.

Antes de começar com os concertos, vou só dedicar algumas palavras à polémica que tem surgido em torno do festival, no que diz respeito às condições do recinto e do campismo. Não, não era perfeito. Sim, havia situações ridículas (os lava-loiças, o “supermercado”, principalmente), e algumas menos boas (os palcos podiam estar melhor situados, não que eu me possa queixar). Mas o som não estava assim tão mau (em todos os concertos, esteve até bastante claro, com a sonoridade, a meu ver, a bater aos pontos o Pavilhão Atlântico), e o pó já era expectável. A Música no Coração podia ter-se portado muito melhor, é verdade, mas também não foi o inferno terceiro-mundista que muita gente está a tentar fazer passar que foi (sim, fórum da Blitz, estou a olhar para vocês), e não sou só eu a ter esta opinião; muita pessoas com quem meti conversa lá (de várias nacionalidades) queixaram-se, mas não consideravam que aquilo pudesse impedi-los de desfrutar do festival. Posto isto, falemos de música.

Dia 14

Palco Super Bock – Sean Riley & the Slowriders

Apesar de terem havido alguns problemas com a energia, o quintento coimbrense não deixou de fazer um bom show, abrindo muitíssimo bem o palco principal com o seu Folk Rock temperado com Blues que tanto lembra os Estados Unidos. “This Woman”, “Silver” (do mais recente disco, “It’s Been a Long Night”) ou a despedida com “Harry Rivers” foram momentos altos do grupo na sua passagem pelo Meco.


Palco Super Bock – The Walkmen

Do primeiro dia, este foi um dos meus concertos favoritos. A setlist era curta (nove canções, sem direito a encore), e apesar do ambiente de festival não ser o mais apropriado pare eles, a trupe de Hamilton Leithauser conseguiu, a meu ver, levantar o espírito de alguns dos presentes com a sua música paradoxalmente forte e delicada. Com uma escolha de músicas fortemente apoiada no seu mais recente disco (“Lisbon”, de 2010), abriram com “Woe is Me”, seguindo-a com canções tão belas como “Blue as Your Blood”, “Victory” ou”Thinking of a Dream I Had” (segundo Leithauser, a primeira música que o grupo compôs). Mas o momento forte do show foi mesmo o final, com a poderosa “The Rat”, que fez com que toda a gente na audiência sentisse uma injecção súbita de energia, com a bateria de Matt Berrick a soar mais poderosa do que nunca. Contudo, ficou a prova de que em recinto fechado a música dos The Walkmen soa muito melhor.

Setlist The Walkmen

1. Woe Is Me

2. In The New Year

3. Angela Surf City

4. Blue As Your Blood

5. Victory

6. Juveniles

7. Thinking Of A Dream I Had

8. We’ve Been Had

9. The Rat


Palco Super Bock – The Kooks

Mal Luke Pritchard e companhia entraram em palco, os gritos das vozes femininas ecoaram por todo o recinto. No entanto, também havia muito “senhor” a vê-los, e a cantar com eles êxitos como “Always Where I Need to Be”, “Ooh La”, “See the World” ou “Naïve”. Neste espectáculo a banda britânica também mostrou algumas canções do muito aguardado terceiro disco, entre elas a faixa que dá nome ao álbum, “Junk of the Heart”, e “The Saboteur”, bem recebidas pelo público português. Depois do belo show, cheio de interacção com a audiência, fica-se à espera do LP.


Palco Super Bock – Beirut

Chega a vez da banda de Zach Condon subir ao palco. Uma plateia já cansada com a agitação dos The Kooks assiste ao desfile da doce World Music do grupo norte-americano com um misto de apatia e expectativa pelo concerto seguinte dos headliners Arctic Monkeys. Contudo, com a ajuda de algumas palavras em português, sorrisos simpáticos e canções deliciosas como “Elephant Gun”, “After the World” ou “Santa Fe”, os Beirut trouxeram um ambiente bem agradável ao palco principal da Herdade do Cabeço da Flauta.

Setlist Beirut

1. A Sunday Smile

2. Elephant Gun

3. Postcards From Italy

4. The Gulag Orkestar

5. Scenic World

6. After the Curtain

7. Santa Fe

8. East Harlem

9. Nantes


Palco Super Bock – Arctic Monkeys

Faltam quinze minutos para a meia-noite e Alex Turner e companhia entram em palco, ao som de “You Sexy Thing”, o clássico R&B dos Hot Chocolate. Munidos dos seus instrumentos e de ume setlist de luxo, o grupo de Sheffield leva ao delírio todos os presentes com o seu Post-Punk Revival que ao vivo soa muito mais musculado do que nos discos. A “moshada” começa logo com a primeira canção, “Library Pictures” (canção do mais recente disco, “Suck It and See”), e a partir daí foi a loucura total, com a poeira a atingir níveis descomunais. “Brianstorm” chega a seguir, e estava visto que esta noite era para gastar as baterias até ao fim. “Don’t Sit Down ‘Cause I’ve Moved Your Chair” traz ares Stoner ao Meco, seguido de “Pretty Visitors”, “She’s Thunderstorms” e “Teddy Picker”, todas elas vibrantemente recebidas pela audiência. Consegue-se ver que Turner é moço tímido e pouco dado a conversas, mas compensa essa “frieza” com o carisma da música, que abunda. Aqui não há truques com luzes e cenários; há Rock ‘n’ Roll puro, duro e directo, como a gente gosta. “The View From the Afternoon” (a minha favorita, admito) e “I Bet You Look Good On the Dancefloor”, do primeiro disco (“Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not”, de 2006), são tocadas tal como no álbum, back to back. Para o fim do corpo principal, a já clássica “When The Sun Goes Down”, uma das mais participadas da noite. Contudo, após breve saída, o grupo voltaria para um encore de três canções: “Suck It and See”, “Fluorescent Adolescent” e “505”, encerrando assim o primeiro dia de espectáculos no palco principal. Apesar de ter estado muito preocupado em sobreviver ao show, digo-vos que esta banda não brinca em serviço, e apresentou aqui um espectáculo sólido e uma setlist de sonho.

Setlist Arctic Monkeys


1. Library Pictures

2. Brianstorm

3. This House Is A Circus

4. Still Take You Home

5. Don’t Sit Down ‘Cause I’ve Moved Your Chair

6. Pretty Visitors

7. She’s Thunderstorms

8. Teddy Picker

9. Crying Lightning

10. Brick by Brick

11. The Hellcat Spangled Shalalala

12. The View From The Afternoon

13. I Bet You Look Good On The Dancefloor

14. All My Own Stunts

15. If You Were There, Beware

16. Do Me A Favour

17. When The Sun Goes Down

Encore:

18. Suck It and See

19. Fluorescent Adolescent

20. 505


Dia 15

Palco EDP – L.A.

Passada a loucura do primeiro dia, onde o MDC se concentrou apenas no palco principal, no segundo dia de concertos decidi dar um salto ao palco secundário, motivado pelo concerto do cantautor B Fachada (já disse que sou fã?). Mas quem abriu o Palco EDP foi o grupo espanhol L.A., que trouxe ao Meco o seu Alternative Rock em inglês, a piscar o olho a uns Biffy Clyro mais levezinhos. Confesso, não conhecia nada da banda, e não fiquei a morrer de amores depois do show, mas digo que canções “Crystal Clear”, “Hands”, “Evening Love” ou a cover de “Wicked Game” (o hit de 1989 de Chris Isaak) não soaram nada mal. Uma hora bem passada, sem dúvida.


Palco EDP – B Fachada

Uma das minhas grandes expectativas para este festival, Fachada não desiludiu, e pela segunda vez consegui ver ao vivo este verdadeiro trovador dos tempos modernos. Abrindo com “Memórias de Paco Forcado, Vol. 1”, rapidamente o cantor descobre que a vasta audiência está aqui para o ver; “vocês sabem as letras todas”, disse o músico, num misto de gáudio e de admiração. Acompanhado da trupe do costume (Martim no baixo/contrabaixo, e Mariana na mini-bateria/bateria do Pocoyo), Fachada trouxe também ao Meco Francisca Cortesão, à semelhança do que aconteceu no Teatro Maria Matos. Assim, “Primeiro Dia” conseguiu soar ainda mais belo e terno. Seguiram-se as clássicas “Kit de Prestigitação” e “Beijinhos”, que levaram o público ao delírio. E apesar de problemas técnicos terem afligido a última parte do “tempo regulamentar” do concerto, B conseguiu com que “Estar À Espera Ou Procurar”, “Os Discos de Sérgio Godinho” e “Agosto” soassem maravilhosamente bem. Mas antes da despedida, ainda houve tempo para um pequeno encore, com duas canções; “Zé!”, a canção mais participada do show, e uma peça nova, que Fachada interpretou sozinho no teclado, e que deverá fazer parte do disco que Bernardo vai lançar ainda este ano. Nesta setlist, só ficou mesmo a faltar “Deus, Pátria e Família”, o épico de 20 minutos que B lançou a 6 de Junho deste ano. De resto, ficou um belo concerto, que apesar de curto, provou ser certeiro. Bravo, Fachada!

Setlist B Fachada

1. Memórias de Paco Forcado, Vol. 1

2. Questões de Moral

3. Conselhos de Avô

4. Primeiro Dia

5. Kit de Prestidigitação

6. Beijinhos

7. Tó-Zé

8. Estar À Espera ou Procurar

9. Os Discos de Sérgio Godinho

10. Agosto

Encore:

11. Zé!

12. [Música Nova]


Palco Super Bock – Portishead

Depois do final de B Fachada, iniciei uma migração para o palco principal, ainda estavam os The Gift a terminar a sua performance, para poder assistir ao concerto dos britânicos Portishead. Apesar dos cabeças de cartaz do dia serem os Arcade Fire, o grupo de Beth Gibbons também foi um dos pesos fortes do line-up do SBSR, e isso percebeu-se com a quantidade de pessoas que foram ver o show, e juntamente com a banda cantaram a plenos pulmões peças como “Machine Gun”, “Glory Box” ou “Roads”. Apesar de não estar muito familiarizado com o catálogo da banda, reconheço que o espectáculo foi agradável, e só não apreciei mais por dois motivos: o cansaço começava a instalar-se, e havia que recuperar baterias para a banda seguinte; e o ambiente não foi, a meu ver, o mais apropriado para este trio de Trip-Hop actuar. Mas tirando isso, posso dizer que foi um belo show.

Setlist Portishead

1. Silence

2. The Rip

3. Magic Doors

4. Machine Gun

5. Mysterons

6. Glory Box

7. Sour Times

8. Wandering Star

9. Roads

10. Over

11. Nylon Smile

12. We Carry On


Palco Super Bock – Arcade Fire

Eram, de longe, a banda mais aguardada da noite, e talvez de todo o festival. As expectativas estavam, por isso, bem elevadas. Mas tenho quase a certeza que ninguém ficou desiludido com o espectáculo que o grupo canadiano de Baroque Pop trouxe ao Meco. Win Butler e companhia deram aquele que é, para mim, o melhor concerto de 2011 até agora. Após um pequeno atraso de 15 minutos, começou o espectáculo: com um cenário que nos fazia sentir que estávamos a assistir a uma experiência cinematográfica, os Arcade Fire abriram com “Ready to Start”, do terceiro disco, “The Suburbs” (2010), sem dúvida a canção mais apropriada para começar um concerto. Depois, houve uma visita aos primeiros dois álbuns da banda, “Funeral” (2004) e “Neon Bible” (2007), com canções como “Keep the Car Running”, “Neighborhood #2 (Laïka)”, “No Cars Go” (uma das maiores explosões de energia por parte do público) e “Haiti” (ao vivo, esta canção é um desfile tropical de sons). Pouco depois, veio um dos meus momentos favoritos do concerto: o trio “The Suburbs”, ”The Suburbs (Continued)”, ”Month of May”, tocadas de forma perfeitamente encaixada, algo que a meu ver ultrapassou os limites do espectacular. A sintonia entre a banda e o público era visível, e Win Butler fez questão de sublinhar isso ao longo do concerto (com frases como “parece o primeiro concerto da tour” ou “Portugal devia ensinar às outras nações como ser um bom público). Para culminar o corpo principal da setlist, “We Used to Wait”, também de “The Suburbs”, e mais duas clássicas, “Neighborhood #3 (Power Out)” e “Rebellion (Lies)”. Após uma breve saída de palco, a banda volta, por aclamação popular, para um encore com uma das canções mais conhecidas da banda, “Wake Up”, e “Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)”, cantada e dançada (com o auxílio de umas fitas coloridas) por Régine Chassagne de forma irrepreensível, finalizando o concerto de forma esplendorosa. Arrisco-me a dizer que este deve ter sido dos melhores concertos que vi até hoje, tanto pela ligação que se sentiu entre a banda e o público como pela maravilhosa setlist que englobou muitas das minhas canções favoritas. Sem dúvida, um dos momentos mais inesquecíveis da minha vida.

Setlist Arcade Fire

1. Ready to Start

2. Keep the Car Running

3. Neighborhood #2 (Laika)

4. No Cars Go

5. Haïti

6. Rococo

7. Intervention

8. Crown of Love

9. Neighborhood #1 (Tunnels)

10. The Suburbs

11. The Suburbs (Continued)

12. Month of May

13. We Used to Wait

14. Neighborhood #3 (Power Out)

15. Rebellion (Lies)

Encore:

16. Wake Up

17. Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)

Palco EDP – Chromeo

Depois do autêntico clímax musical que foi o espectáculo dos Arcade Fire, decidi dar um pulo ao palco secundário, a meio do concerto do duo de Electrofunk canadiano Chromeo. Apesar de não conhecer muito da banda, aquilo que tinha ouvido deles chegava para saber que com eles a tocar, não dá para ficar quieto. Consegui, felizmente, apanhar os grandes hits deles: “Hot Mess”, “Night By Night” e “You’re So Gangsta”, e confesso que soube bem, depois de um dia cansativo, simplesmente relaxar e ouvir aquela música que tanto puxa o pé para a dança.


Dia 16

Palco Super Bock – X-Wife

Os portuenses X-Wife abriram o palco principal no último dia do certame, com o seu Alternative Rock polvilhado com pitadas de Electropunk. Com um disco novo na bagagem, “Infectious Affectional”, o quarto álbum (saído a 2 de Maio deste ano), o grupo interpretou uma setlist que se equilibrou entre algumas canções novas (“Keep on Dancing”, “I Live Abroad”) e êxitos passados (“On the Radio”, “Fireworks”). Apesar de o cansaço já ser evidente em todos os presentes (festival é coisa que cansa), João Vieira e companhia conseguiram trazer uma boa dose animação ao Meco naquele fim de tarde.

Palco Super Bock – Brandon Flowers

Confesso, não gostei de “Flamingo”, o álbum a solo de Brandon Flowers. Prefiro um milhão de vezes os The Killers, e não faço segredo disso. No entanto, ao vivo, Flowers consegue montar um espectáculo interessante. Não digo que tenha adorado, mas ao vivo as canções como “Crossfire” ou “Swallow It” conseguem soar mais “frescas”. No entanto, Brandon só conseguiu conquistar-me (e a muitos da audiência) com as canções da sua banda principal. “Read My Mind” e “Mr. Brightside” foram, sem dúvida, os pontos álbuns deste concerto.

Setlist Brandon Flowers

1. Crossfire

2. Magdalena

3. Bette Davis Eyes (cover de Kim Carnes)

4. Jilted Lovers & Broken Hearts

5. Read My Mind (cover dos The Killers)

6. Losing Touch (cover dos The Killers)

7. Was It Something I Said?

8. Swallow It

9. Playing With Fire

10. Only the Young

11. Mr. Brightside) (cover dos The Killers)


Palco Super Bock – Elbow

Relativamente desconhecidos em Portugal (onde tocaram pela segunda vez, depois de uma estreia em 2001 no Sudoeste), os britânicos Elbow tinham uma missão espinhosa: entusiasmar o público difícil com o seu Alternative Rock adocicado com toques orquestrais, tarefa ainda mais difícil quando vemos que quem toca a seguir é o norte-americano Slash. Contudo, a banda de Guy Garvey não foge ao desafio, e aposta numa setlist centrada nos dois discos mais recentes, “Seldom Seen Kid” (o muito aclamado quarto disco da banda, datado de 2008, que venceu o Mercury Prize desse mesmo ano) e “Build a Rocket Boys!” (o mais recente disco da banda, lançado a 7 de Março deste ano). Apesar de não estarem a jogar em casa, os Elbow conseguem, através do carisma do seu vocalista, criar uma ligação com parte do público, fazendo com que canções como “The Birds”, “Lippy Kids”, “Mirrorball” e “Grounds for Divorce” sejam relativamente bem recebidas pela audiência. Contudo, a actuação requeria mais envolvimento por parte do público, sendo apenas isso o ingrediente que faltou neste concerto. É esperar que venham a uma Aula Magna ou a um Coliseu para ter direito a mais.

Palco Super Bock – Slash

Vou ser sincero, não gosto de Slash. De Guns N’ Roses, fico-me por algumas canções, pois também não é banda que me puxe muito. No entanto, parti para este concerto com uma atitude positiva (contrastando com o rapaz do outro lado da grade, cujo ar de tédio era evidente). Infelizmente, o Hard Rock de Slash não foi capaz de me convencer, apesar de à minha volta grande parte do público delirar com o homem da cartola. Ainda assim, destaco três canções que salvaram este show de ser considerado por mim uma total desgraça: “Sweet Child O’ Mine” e “Paradise City” (dos Guns) e “Slither” (dos Velvet Revolver), guardadas para o fim, e que puseram fim ao meu tédio. Contudo, este foi o concerto de que menos gostei de todo o festival, quer pela música em si, quer pela atitude do guitarrista.

Setlist Slash

1. Ghost

2. Mean Bone

3. Sucker Train Blues (cover dos Velvet Revolver)

4. Nightrain (cover dos Guns N’ Roses)

5. Mr. Brownstone (cover dos Guns N’ Roses)

6. Back From Cali

7. Promise

8. Sweet Child O’ Mine (cover dos Guns N’ Roses)

9. Slither (cover dos Velvet Revolver)

10. Paradise City (cover dos Guns N’ Roses)


Palco Super Bock – The Strokes

Sou um “die-hard fan” dos The Strokes, admito-o. No entanto, apesar do meu “fanboy-ismo”, “Angles” não foi, para mim, um disco muito convincente, como devem saber se leram a minha review do LP. No entanto, isso não me tirou o entusiasmo de pensar que iria ver a banda de Julian Casablancas e companhia ao vivo no SBSR. Chegado o momento, foi ainda mais especial do que imaginei: “New York City Cops” (a minha segunda música preferida da banda) abriu aquilo que só consigo descrever como uma setlist simplesmente perfeita (só ficou a faltar a minha favorita, “Visiono of Division”, mas essa já eu sabia que eles não tocavam). Seguiram-se “Alone, Together” e “Reptilia” e estava visto que a noite ia ter mais “clássicos” do que canções do álbum novo, algo que deve ter deixado qualquer fã com um sorriso nos lábios. Seguiu-se a primeira “nova” da noite, “Machu Pichu”, uma das minhas preferidas de “Angles”, que conseguiu pôr muitos pés a bater no Meco. Seguiu-se um trio de canções retiradas de “Is This It”, a brilhante estreia de 2001: “Last Nite”, “The Modern Age” e “Is This It”, todas cantadas em alto e bom som pela audiência, que esteve todo o dia ansioso por ver os nova-iorquinos actuarem pela segunda vez em Portugal (a estreia da banda em solo nacional deu-se em 2006, no defunto festival Lisboa Soundz). Não há dúvidas; se os Arcade Fire eram o concerto mais esperado, os The Strokes não lhes ficavam muito atrás. “Under Cover of Darkness” começa a tocar, e nota-se logo que, do novo álbum, esta é a canção que mais segue o “cânone” dos três primeiros álbuns, pela reacção do público, mais vibrante do que nas outras “novas”. Mais à frente, “Someday” faz parecer que estamos em 2001 outra vez, e que o concerto a que estamos a assistir é o de uns jovens de vinte e poucos anos, a tocar aquela canção com a magia da primeira vez. Depois, problemas técnicos levam a banda a fazer um jam improvisado, segundo Casablancas, algo nunca feito ao vivo antes. Por falar em Casablancas, é de assinalar a boa-disposição do cantor, que me surpreendeu. Tendo conhecimento que ele costuma ser relativamente frio e distante nos concertos, no SBSR Julian estava particularmente falador, comentando acerca de tudo um pouco, desde os cartazes que os fãs traziam (que segundo ele, o distraiam) até à actuação anterior (dizendo que Slash é uma “fucking legend”). Também se deve ter em conta que na Herdade do Cabeço da Flauta, tivemos direito a uma performance quase perfeita por parte do vocalista (não é segredo que Casablancas costuma enganar-se nas letras e desafinar nas canções), com poucos enganos e uma voz quase ao nível de estúdio. Para acabar, mais três fantásticos clássicos: “Hard to Explain”, “Juicebox” e “Take It or Leave It”, a fechar um concerto fantástico. Depois disto, a banda sai abruptamente de palco, as luzes acendem-se e o sistema de som começa a tocar música. O desapontamento de muita gente pela falta de encore é evidente. Contudo, com ou sem encore, este show fechou o festival da melhor maneira, assoberbando quase toda a gente com a actuação enérgica da banda. Espero que para o ano, haja mais cartazes assim!

Setlist The Strokes

1. New York City Cops

2. Alone, Together

3. Reptilia

4. Machu Picchu

5. Last Nite

6. The Modern Age

7. Is This It

8. Under Cover of Darkness

9. What Ever Happened?

10. Life Is Simple In The Moonlight

11. Someday

12. You Only Live Once

13. You're So Right

14. Under Control

15. Gratisfaction

16. Hard to Explain

17. Juicebox

18. Take It Or Leave It

(Todas as fotos são da autoria do Música Dot Com, à excepção da primeira imagem de Elbow, das duas de Slash e da primeira dos The Strokes, que foram tiradas pelo fotógrafo Luis Martins, e que podem ser vistas aqui: http://www.facebook.com/media/set?set=a.169276383142948.42396.112908165446437. Agradecimento também à Joana Oliveira, a autora da segunda foto dos The Strokes)


quinta-feira, 7 de julho de 2011

Nine Types of Light

Com já dez anos de experiência no mundo da música, os TV on the Radio são um dos projectos mais interessantes desta última década. Saído da cena alternativa nova-iorquina, este grupo prima pela forma como experimenta em cada disco, fundindo géneros tão díspares como o Funk e Post-Punk. Depois do aclamado quarto disco, “Dear Science” (2008), chega-nos o quinto registo desta peculiar banda, “Nine Types of Light”, lançado a 11 de Abril deste ano. Hoje, o MDC traz-vos a reveiw do mais recente álbum desta banda.

Devo confessar aqui a minha admiração pelo grupo. A atitude experimental que levam desde o início da sua carreira, combinado com a inovação a cada disco que lançam é algo que louvo imenso. Apesar de se conseguir denotar que existe uma certa linha de continuidade ao longo da obra dos TV on the Radio, a verdade é que esta é uma banda que não se repete duas vezes. Digo também que apreciei muito o antecessor deste disco, “Dear Science”, uma obra de excepção, que me conquistou à primeira audição. Partindo disto, é de esperar que alguma expectativa se tenha acumulado quando se soube que os TV on the Radio se estavam a preparar para lançar o seu quinto disco de originais. E, apesar de não poder dizer que “Nine Types of Light” seja um mau LP, senti que as minhas expectativas foram defraudadas.

Como já se devia esperar, “Nine Types of Light” é uma ruptura com aquilo que nos foi dado em “Dear Science”, afinal de contas, estamos a falar dos TV on the Radio. Não uma ruptura completa, pois ainda se ouvem “ecos” do que o grupo fez no passado, mas existem grandes diferenças. A começar na sonoridade, que está (ainda) mais agarrada à Electronica (especialmente em canções como “Keep Your Heart” ou “No Future Shock”) e à Soul (“Forgotten” e “Will Do" são exemplos nítidos disto) do que nos discos anteriores. Também se pode dizer que “Nine Types of Light” mostra uns TV on the Radio menos “cerebrais” e mais acessíveis, com um disco com menos guitarras e menos experimentação. Apesar de não ter nada contra álbuns mais “fáceis de digerir”, confesso que a sonoridade mais “alternativa” dos TV on the Radio agradava-me mais. Não digo que esta faceta da banda seja má, mas apenas prefiro as fases anteriores. Assim, é normal que em alguns momentos, não tenha ficado muito agradado com o disco, devido a canções que realmente não me soaram bem. Apesar de também termos partes do LP bastante boas,a verdade é que, duma forma geral, este registo soou-me muito mediano.

Apontando as canções de que gostei menos, devo referir “You”, “Killer Crane” e “Forgotten”, músicas que não me agradaram nada. Estas contrastam com aquelas que são, na minha opinião, as peças que mais bem realizadas estão, “Second Song” (faixa que abre bem o disco), “Repetition” (que nos traz um ritmo bastante frenético) e a minha favorita, “No Future Shock” (o ritmo está carregado de energia e animação). As restantes canções não me soam mal, mas são bastante “medianas”, ficando a meio caminho de serem grandes peças.

Em suma, “Nine Types of Light” não é uma surpresa para quem conhece os TV on the Radio e sabe da tendência deles para mudar a cada registo novo. No entanto, para quem é fã da banda desde o primeiro disco (como eu), este álbum pode ficar a saber a pouco. Resumindo, este disco pareceu-me extremamente mediano para uma banda tão consistente como os TV on the Radio. Só me resta esperar que o próximo disco seja melhor que este “Nine Types of Light”.

Nota Final: 6,4/10

João Morais

terça-feira, 28 de junho de 2011

Suck It and See


Saídos da segunda vaga da “explosão” Post-Punk Revival que invadiu o panorama musical no início dos anos 00 (ganhando fama com uma estratégia de marketing fortemente apoiada na internet), os Arctic Monkeys conquistaram uma gigantesca legião de fãs com os seus dois primeiros discos, os fervilhantes e juvenis “Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not” (2006),e “Favourite Worst Nightmare” (2007). Em 2009, editaram “Humbug”, um disco mais lento e pesado, produzido por Josh Homme (Kyuss, Queens of the Stone Age, Eagles of Death Metal, Them Crooked Vultures), que mostrava uma mudança drástica de sonoridade, e que não foi tão bem recebido pela crítica nem pelos fãs. No início deste mês de Junho, a trupe de Alex Turner lançou o muito aguardado quarto disco de originais, “Suck It and See”. Será que os Arctic Monekys conseguiram voltar à sua antiga forma, ou será este quarto álbum um autêntico flop? O MDC vai tentar responder a estas perguntas hoje. Ora vejamos.

Quem leu a minha review de 2009 de “Humbug” sabe que fiquei um pouco de pé atrás com o terceiro álbum dos Monkeys. Devo confessar, esperava mais destes rapazes, especialmente depois de dois álbuns bastante bons. Não estou a dizer que “Humbug” é um mau registo, mas não passa da fasquia do bom, pois na maioria do disco, deu-me a parecer que estava a ouvir material inacabado. Pois bem, dois anos passaram, e as expectativas estavam bastante elevadas. E devo dizer, não foram defraudadas, ou pelo menos, não pela minha parte. Para mim, “Suck It and See” é um belíssimo disco, a meu ver melhor que “Humbug”.

Se não apreciaram o “amadurecimento” da sonoridade dos Monkeys presente em “Humbug”, devo avisar-vos: este “Suck It and See” não é um regresso às origens. No entanto, a verdade é que este quarto disco é certamente mais acessível que o seu antecessor, com canções mais “instantâneas” e pop. Contudo, é evidente que os Arctic Monkeys continuam a afastar-se da sonoridade dos seus dois primeiros álbuns, ficando cada vez mais imersos numa estética Psychadelic Rock revivalista, aproximando este LP de “Humbug”. Essa continuidade é especialmente notória em canções como “Don’t Sit Down ‘Cause I’ve Moved Your Chair” e “Library Pictures”, que mostram uns Arctic Monkeys mais “sujos” e pesados do que nunca, com a influência de Josh Homme a estar ainda bastante presente. No entanto, este disco também é rico em momentos mais delicados, com canções como “The Hellcat Spangled Shalalala” ou a faixa-título “Suck It and See” a mostrarem-nos um lado mais calmo e “leve”, que entram muito facilmente no ouvido, e que surpreendentemente convivem muito bem com as canções mais pesadas do disco, num contraste bastante bem feito. 


Também vale a pena salientar é a produção, a cargo de James Ford, que trabalha com a banda pela terceira vez, e que conseguiu dar uma sonoridade mais vintage ao álbum, com um feel mais vintage, resultado também da preferência da banda por gravar o disco “ao vivo” no estúdio, com pouco recurso a técnicas de looping ou de overdubs, algo que apreciei muito. No que toca às letras, tirando a ultra-simplista “Brick By Brick” todas as canções retêm o brilhantismo de Alex Turner no que ao uso da língua inglesa diz respeito. A maneira como ele escreve as canções, fazendo-nos imaginar certas imagens na nossa cabeça e utilizando habilmente os jogos de palavras, continua a ser um dos pontos fortes do quarteto de Sheffield.

Contudo, nem tudo me agradou neste “Suck It and See”. Algumas das faixas não me conseguiram cativar muito a atenção, talvez por soarem um pouco mais desinspiradas. Falo de músicas como “She’s Thunderstorms”, “All My Own Stunts” ou “Love Is a Laserquest”, peças que têm pouco que me “puxe”. No entanto, este disco está carregado de pérolas, como “The Hellcat Spangled Shalalala” (a doçura desta faixa conquistou-me), “Don’t Sit Down ‘Cause I’ve Moved Your Chair” (a “sujidade” Stoner faz desta uma canção extremamente pujante) ou a minha favorita, “That’s Where You’re Wrong” (música que fecha o disco de forma deliciosa). No geral, apesar de algumas falhas, este é um LP muito bom, bastante sólido e coeso, e que irá certamente agradar a muita gente.

Em suma, “Suck It and See” é um belo álbum, e só vem atestar a coragem dos Arctic Monekys em experimentar novas sonoridades, uma bravura pouco comum em bandas com uma carreira relativamente curta. Quando comparado com “Humbug”, “Suck It and See” pode não parecer tão “adulto”, mas é certamente mais sólido e consistente, e acerta nos sítios onde o outro errou. Este LP pode não soar aos álbuns que fizeram de mim fã dos Arctic Monkeys, mas é certamente um grande disco, e eu recomendo-o vivamente.

Nota Final: 8,4/10

João Morais

domingo, 26 de junho de 2011

Helplessness Blues

Em 2008, os Fleet Foxes surgiram com o seu LP de estreia, o homónimo “Fleet Foxes”, que com a sua mistura do Folk e Baroque Pop, conseguiram criar uma sonoridade acústica de fino recorte, que levou a que o registo fosse universalmente aclamado pela crítica, chegando a ser considerado o melhor disco de 2008 por algumas publicações de música. Em Maio deste ano, chegou às lojas “Helplessness Blues”, o muito aguardado segundo álbum da banda de Seattle. Hoje, o MDC vai analisar este disco, e tentar descobrir se o quinteto norte-americano conseguiu superar as expectativas com esta sua segunda obra. Comecemos, pois então.

Com um gigantesco hype, gerado por “Fleet Foxes”, o grupo liderado por Robin Pecknold não tinha uma tarefa fácil ao tentar suceder ao disco de estreia, a meu ver uma obra brilhante. Portanto, escusado será dizer, as expectativas estavam muitíssimo elevadas, desde o momento em que se soube que os Fleet Foxes iriam voltar a estúdio. Mas, a meu ver, não me parece que essa pressão tenha afectado o resultado final, pois a trupe de Seattle conseguiu, com “Helplessness Blues”, assinar um magnífico sucessor digno do seu primeiro disco.

À primeira audição, pode-se dizer que pouco mudou. É verdade que o som soa menos acessível (não terão aqui faixas tão “instantâneas” quanto “Your Protector” ou “Oliver James”), mas não existe nenhuma mudança drástica, com os Fleet Foxes a continuarem com o seu Baroque Folk, fortemente alavancado numa sonoridade acústica. No entanto, depois de ouvir algumas vezes o álbum, constatei que havia algo de novo na sonoridade, que lhe trazia uma nova dinâmica. Falo de uma certa influência oriental, que se sente especialmente em canções como “Bedouin Dress” ou “Sim Sala Bim”, que através da percussão ou de instrumentos específicos, conseguem fazer passar um novo feel ao LP, trazendo uma nova “frescura” ao som dos Fleet Foxes, sem o alterar de raiz. Devo confessar que esta “lufada de ar fresco” realmente agradou-me imenso, pois mostra uns Fleet Foxes que, querendo continuar na trilha da sua sonoridade original, não têm medo de lhe adicionar novos elementos. Nas letras, os Fleet Foxes mantiveram a sua “imagem de marca”, com uma lírica que me apelou à contemplação sobre as questões mais simples da vida, algo que me cativou imenso. Também há que louvar o trabalho de Phil Ek (que já havia trabalhado com a banda em “Fleet Foxes”), que fez em “Helplessness Blues” um brilhante trabalho de produção, fazendo com que a instrumentação neste disco, extremamente variada, conseguisse soar a algo belo, orgânico e delicado, apesar da avassaladora quantidade de instrumentos que está presente neste registo.

Quanto aos aspectos negativos deste “Helplessness Blues”, não há nada a que possa realmente apontar o dedo. Contudo, existem faixas que me cativaram menos que outras. Falo de “Battery Kinzie”, “The Cascades” e de “Blue Spotted Tail”, que apesar de não serem más, são as de que menos gostei no disco, talvez por lhes faltar algo de especial. Contudo, estas três são a excepção num disco que está carregado de canções belíssimas, com particular destaque para “Helplessness Blues” (a faixa-título, que carrega uma força enorme), “The Plains/Bitter Dancer” (uma canção cujas alterações de tempo a tornam numa peça extremamente hipnótica) e a minha favorita, “Sim Sala Bim” (uma música com uma carga muito introspectiva, e que se vai construindo até culminar num clímax poderoso).

Resumindo, “Helplessness Blues” é um brilhante disco, e que não vai deixar desapontado aqueles que gostaram de “Fleet Foxes”. Não vou estar a apontar qual dos dois é o meu favorito, pois apesar de partilharem um som muito semelhante, cada um dos registos têm as suas peculiaridades que fazem deles dois álbuns de excepção. No entanto, posso afirmar que os Fleet Foxes não poderiam ter desencantado melhor sucessor que este “Helplessness Blues”, LP que irá sem dúvida figurar em muitas listas de final de ano. Se irá estar no Top 10 do MDC? Veremos. Até lá, escutem este disco. Vão por mim, é mesmo muito bom.

Nota Final: 8,9/10

João Morais

sábado, 25 de junho de 2011

Blood Pressures

Em 2000, a dupla anglo-americana The Kills (composta pelo inglês Jamie Hince e pela norte-americana Alison Mosshart) surgiu, em plena explosão Garage Rock Revival, com uma sonoridade Punk Blues “suja”, directa, sem subtilezas e com muita atitude, que lhes valeu comparações com bandas como The White Stripes ou Black Keys. Em Abril deste ano chegou às lojas o quarto LP do duo, “Blood Pressures”, sucessor do aclamado “Midnight Boom” (2008). Hoje, o MDC traz-vos a review deste disco. Preparados?

Confesso que não sou um entendido em The Kills. Dos três discos que antecedem este “Blood Pressures”, apenas ouvi “Midnight Boom”, e devo dizer que foi uma experiência agradável. Por isso, quando comecei a ouvir este LP, tinha na ideia que o que viria aí seria um belo disco, digno de suceder a “Midnight Boom”. Contudo, a desilusão não podia ser maior. Não sendo “Blood Pressures” um disco terrível, certamente não passa da fasquia do mediano. Mas analisemos com mais pormenor.

Começo por dizer que não sou o maior fã da voz de Alison Mosshart. Em “Midnight Boom”, não posso dizer que tenha desgostado dos vocais, mas apenas porque a sonoridade no seu todo estava bastante cativante, e a voz inseria-se por completo nas músicas, e fazia passar uma certa crueza que aprecio muito. No entanto, isso falta em “Blood Pressures”. Neste LP, a maioria das músicas soa-me a pouco inspirada e a demasiado distante para eu poder sentir alguma ligação com o registo. É verdade que a distorção suja e a produção lo-fi que tanto apreciei no antecessor ainda lá estão, mas surgem como artifícios que, para mim, são pouco hábeis a tapar a falta de substância que infesta este disco. Apesar de alguns “pontos luminosos” estarem espalhados por “Blood Pressures”, a maioria das canções soa a filler, que facilmente teria sido descartado em discos anteriores. Não digo que não estejam aqui presentes algumas boas ideias, mas acabam por ser abafadas pela mediocridade que é geral no álbum.

Faixas há que soam extremamente bem ao ouvido, como “Future Starts Slow” (a canção que abre o disco e que tem uma potência enorme), “Satellite” (um ritmo “gingão” deliciosamente despreocupado) ou “Baby Says” (a minha canção favorita do disco, muito directa e abrasiva, ao bom estilo dos The Kills). No entanto, a maioria do disco soa a mediano, polvilhado com canções como “Heart Is a Beating Drum”, “Wild Charms” ou “The Last Goodbye”, que chegam a ser sofríveis de ouvir.

Em suma, se não são fãs de The Kills, dificilmente vos recomendo este disco. Apesar de algumas canções serem bastante boas, a maioria do disco soa a “enchimento”. Devo dizer que fiquei desapontado com a dupla Alison Mosshart/Jamie Hince, pois aqui mostraram-me uma faceta menos inspirada do que é costume. No entanto, fico à espera do próximo LP, com esperança que eles voltem cheios de força e atitude, algo que sempre apreciei neles.

Nota Final: 4,8/10

João Morais

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Belong

Em 2009 os The Pains of Being Pure at Heart “explodiram” na cena musical nova-iorquina, com o seu disco de estreia, o homónimo “The Pains of Being Pure at Heart”, álbum aclamado pela crítica, pela sua sonoridade reminiscente da Dream Pop e Shoegaze de bandas como os My Bloody Valentine ou os The Jesus and Mary Chain, misturada com uma atitude mais Alternative Rock digna de uns Sonic Youth ou, quiçá, de uns idos The Smashing Pumpkins. Passados dois anos, este quinteto lança o sucessor, “Belong”, produzido por Flood (pseudónimo de Mark Ellis), reconhecido pelo seu trabalho com artistas como os U2, Sigur Rós, Nine Inch Nails, entre muitos outros. Hoje, o MDC traz-vos a review deste segundo LP do grupo. Será que consegue continuar o bom trabalho iniciado em 2009? Veremos.

O segundo álbum, já se sabe, não é nada fácil de fazer, especialmente quando o primeiro tem a aclamação que “The Pains of Being Pure at Heart” teve. Ter um primeiro disco estrondoso cria sempre um gigantesco hype (palavra muito em voga aqui no blog, pelo que estou a ver), e é muito difícil cumprir tamanhas expectativas. Confesso que também partilhava a excitação que se sentia antes de sair este “Belong”. Não ouvi o disco de estreia logo quando saiu, por distracção, mas quando pude escutar, fiquei fã da banda, pela sonoridade que remete para um Alternative Rock dos anos 80/90 que tanto apreciei. E por isso, quando recebi a notícia de que estava para sair um novo disco do quinteto, o fã que há em mim ficou logo entusiasmado. E foi com alegria que constatei que, a meu ver, a banda de Kip Berman esteve à altura do hype que rodeou o LP, assinando aqui uma brilhante obra.

Quem ouviu o homónimo de 2009 sabe que a sonoridade do disco era rica em efeitos, distorção e “barulho” típico do Shoegaze, misturados com uma doce delicadeza vocal e lírica, combinação que remetia para imediatamente para “Loveless” (segundo disco dos My Bloody Valentine, de 1991). E apesar de esses elementos ainda estarem muito presentes neste “Belong”, podemos constatar que a produção está mais polida e cuidada, havendo menos espaço para loucuras de distorção. Apesar de eu ser fã de música “barulhenta” e “suja”, cheia de distorção, e bem abrasiva para os ouvidos, a verdade é que a produção de Flood consegue chegar a um ponto de equilíbrio que torna o disco acessível a uma maior audiência, sem perder a sua “pureza” Shoegaze. Isso é muito evidente em canções como “Heart in Your Heartbreak” ou “My Terrible Friend”, canções certamente mais Pop, mas com um toque de crueza reminiscente do primeiro disco que se recusa a desaparecer. Destaco, contudo, “The Body”, que é uma faixa mais electrónica (devido ao uso de sintetizadores), e que se move para uma zona mais New Wave, sendo a que salta mais ao ouvido pela diferença (não muito grande, mas notória). No entanto, não existe um corte directo com a sonoridade de “The Pains of Being Pure at Heart”, pois canções como “Heaven’s Gonna Happen Now” ou “Girl of 1,000 Dreams” conseguem ser tão ou mais “barulhentas” do que as que estão presentes no homónimo. Aprecio o facto de a banda ter conseguido reter o essencial da sua sonoridade, e que apesar de apresentar algumas diferenças, consegue soar familiar aos fãs. Nas letras, continuamos com belíssimas peças acerca de amor juvenil e pueril, desilusões amorosas e teen angst, mas nunca atingindo os níveis de miserabilidade ou de lamechice que desagradam. O som e as letras combinam para criar um disco primaveril e animado, e que agrada muito aos ouvidos.

Entre as músicas de que gostei mais contam-se “Belong” (a faixa-título que abre o disco, de forma bem pujante, repleta de distorção), “The Body” (aquele ”toque” aos New Order soa incrivelmente bem) ou a minha favorita, “Even In Dreams” (um brilhante faixa, com um refrão do outro mundo e com uma estrutura que nos conduz a um clímax musical tremendo; uma das melhores canções de 2011 até agora). No lado negativo, apenas “Anne With an E” me soou mais mediana, num álbum em que todas as outras canções não são nada menos do que esplêndidas.

Em tom de conclusão, “Belong” é um disco brilhante, com poucas falhas e que prevejo que consiga agradar tanto a fãs antigos como a novos ouvintes dos The Pains of Being Pure at Heart. A forma como consegue conciliar uma produção mais doce com o som mais antigo e abrasivo faz deste disco um marco na vida da banda, que será difícil de ultrapassa. Para mim, é o melhor álbum de 2011 até agora, e irá sem dúvida figurar nos tops de final de ano de muito boa gente (e muito provavelmente no do MDC). Um disco de excepção, sem dúvida. Agora desculpem-me, que vou ouvi-lo mais uma vez.

Nota Final: 9,3/10

João Morais

sábado, 18 de junho de 2011

Tomboy

Panda Bear (aka Noah Lennox) faz parte de um dos grupos experimentais mais falados dos últimos tempos, os Animal Collective. No entanto, Bear (tal como os outros membros da banda) não se limita só ao trabalho no colectivo, tendo também uma carreira a solo, onde, tal como nos Animal Collective, envereda pela via do Experimental Pop. O seu quarto disco, “Tomboy”, é a sua mais recente obra, e saiu a 12 de Abril deste ano, sendo o sucessor de “Person Pitch” (2007), uma obra vastamente aclamada pela crítica. Na review de hoje, vou analisar “Tomboy”, um disco que foi gravado em Lisboa (para quem não sabe, Lennox mora na capital tuga). Ora comecemos.

Começo por confessar que, dos trabalhos a solo dos membros dos Animal Collective, pouco conheço. Apesar de ser fã da banda, e de já ter algum conhecimento das obras deles enquanto grupo, dos trabalhos individuais, só “Person Pitch” me entrou nos ouvidos antes de fazer esta review. E devo dizer, o terceiro LP de Panda Bear foi um disco que me deixou (não utilizo este termo com muita frequência) assombrado pela genialidade do músico americano. Fiquei, portanto, com grandes expectativas para este disco, que foram ampliadas também pelo belíssimo disco de 2009 dos Animal Collective, “Merriweather Post Pavilion”, e pelo hype incrível que este disco teve desde que o primeiro single, “Tomboy”, foi lançado, em Julho do ano passado. Escusado será dizer, eu estava ansioso por poder ouvir este disco, e poder dizer de minha justiça. E, infelizmente, não tenho coisas boas para dizer acerca deste LP.

Começo por falar daquilo que menos me agradou neste disco. Para começar, o uso extensivo da repetição, que tornou a maioria das faixas aborrecidas. Não que eu tenha algo contra a repetição de ritmos, ou de loops de batidas, mas neste álbum, não é a isso que assistimos. O que vemos em “Tomboy” é, na maioria das canções, a uma repetição exaustiva de versos, ritmos, efeitos, batidas e sons no geral, que fez com que o disco me parecesse extremamente repetitivo e pouco apelativo. É certo que tanto “Person Pitch” como “Merriweather Post Pavilion” também tinham uma forte componente de looping e de repetição, no entanto, a diferença entre essas obras e este “Tomboy” é que, enquanto que nesses LPs tínhamos essa repetição a “servir” a canção, estabelecendo um ambiente ou marcando o ritmo, enquanto que outros sons se desenvolviam e variavam, aqui assistimos apenas a uma repetir quase enjoativo de todo o som na maioria das canções. Também não apreciei os efeitos de voz na maioria das músicas. Mais uma vez, estes não são novos na obra de Panda Bear, mas enquanto que nas obras anteriores esses efeitos traziam alguma “frescura” ao som, aqui retiram-lhe a graça, fazendo com que os vocais se tornem por vezes demasiado “espessos” para o meu gosto. Isso, aliado à sonoridade (a meu ver) demasiado homogénea, fez com que o disco fosse pouco proveitoso de ouvir no geral. Entre as canções que foram totalmente abomináveis para mim (e não estou a usar este termo de ânimo leve), contam-se a faixa de abertura “You Can Count On Me”, “Drone” e “Scheherazade”. No resto do disco, tirando alguns “pontos luminosos”, tudo soa a repetitivo e vazio.

Contudo, também existem aspectos positivos, a começar na atitude de Panda Bear. Eu admiro muito a postura de Bear, de não se querer repetir, reinventado-se a cada álbum que grava. Isso é certamente uma característica louvável, e que prezo muito. Estou certo que, apesar de o som não me agradar, ele soa desta maneira porque assim foi planeado por Noah Lennox. Mas falando da sonoridade, devo reconhecer que, neste álbum estão patentes algumas boas ideias. Não fosse a malfadada repetição incessante, e talvez “Last Night at the Jetty” ou “Slow Motion” pudessem ter sido boas músicas. Falando em boas músicas, existe neste disco um trio de faixas que realmente brilham, e contrastam com o resto do disco. Falo do primeiro single retirado do álbum, “Tomboy” (um som de sintetizador hipnotizante), “Alsatian Darn” (uma canção de uma leveza encantadora) e “Afterburner” (uma sonoridade muito tropical, e que varia na “pintura” que vai pintando com o som). Essas três canções são, para mim, bastante boas, mas infelizmente não conseguem puxar o disco para um outro patamar de qualidade, pois vêem-se “afogadas” pelas outras peças, a meu ver de muito menor qualidade.

Resumindo, fiquei bastante surpreendido de não ter gostado deste disco, pois tenho grande estima pelo trabalho de Panda Bear, tanto a solo como nos Animal Collective. Não creio que “Tomboy” seja um sucessor à altura de “Person Pitch”, pois no geral soa a algo muito repetitivo e que falha em ser cativante. No entanto, fico à espera que Panda Bear grave mais qualquer coisa, tanto em grupo como a solo, pois não é por um álbum menos bom que vou deixar de confiar nas suas capacidades enquanto músico. Fica um aviso: se não são fãs de Panda Bear/Animal Collective, esta não é a melhor maneira de se iniciarem na sua obra. Se ouvirem, estão por vossa conta e risco!

Nota Final: 4,0/10

(PS: fica aqui o aviso, o MDC tem uma nova poll, caso não tenham reparado. Se puderem/quiserem, façam favor de votar no festival -ou festivais- a que pretendem ir neste Verão. Ficaria muito agradecido)

João Morais