domingo, 18 de março de 2012

Curtas #1


Como forma de ir “esvaziando” a lista de álbuns por analisar, e para evitar chegar ao final do ano com uma tonelada de críticas por fazer (foram “só” 70 discos em 15 dias no ano passado), o conceito do Curtas “recauchuta-se” e adapta-se a uma nova realidade e a uma nova função: sem regularidade pré-definida, este segmento destinar-se-á a trazer, em cada edição, 5 reviews em ponto pequeno. Os critérios para a escolha dos álbuns apresentados no Curtas serão sempre subjectivos e extremamente autocráticos, pelo que não se sintam tristes/ofendidos se por acaso um dos vossos registos favoritos aparecer por aqui.

Old IdeasLeonard Cohen (31 Jan)
- Seis anos depois do lançamento de Dear Heather (2004) chega-nos Old Ideas, que vem interromper o longo interregno a que o veteraníssimo Leonard Cohen se submeteu no que toca à gravação de álbuns. Neste disco, o décimo segundo da sua longa carreira, assistimos a uma colecção de 10 canções, maioritariamente conduzidas pelo piano e pela voz arrastada e característica de Cohen, numa abordagem que não destoa muito daquilo que o canadiano tem vindo a criar nos últimos de disco, de fusão da Folk com a música Gospel (bastante notória nos já familiares coros femininos que ouvimos ao longo de Old Ideas). No entanto, devo confessar que este disco não me impressionou muito (admito que no que toca a Leonard Cohen sou um nostálgico). Inconsistente e por vezes monótono, este Old Ideas é, a meu ver, um registo feito sobretudo para os fãs mais acérrimos.
Pontos altos:
- Going Home
- Come Healing
- Different Sides
Nota Final: 6,5/10

Beautiful Things Anthony Green (17 Jan)
- Na sua segunda aventura a solo o vocalista dos norte-americanos Circa Survive traz-nos um disco que mantém a Pop-Rock demonstrada em Avalon (2008), numa abordagem que mistura Indie Rock com Folk e Country, levando a uma identidade musical bastante distinta e agradável ao ouvido. Contudo, este Beautiful Things herda do seu sucessor o “lado fraco” da moeda, ou seja, a excessiva dispersão musical e a inconstância do álbum a longo prazo. Ao experimentar de tudo um pouco, Anthony Green dedica pouco tempo a construir uma obra mais sólida e mais coesa, e isso acaba por determinar que Beautiful Things seja, tal como Avalon, uma obra bastante mediana.
Pontos altos:
- If I Don’t Sing
- Can’t Have it All at Once
- Blood Song
Nota Final: 6,0/10

The Lion’s Roar First Aid Kit (23 Jan)
- Vindas da Suécia, as irmãs Johanna e Klara Söderberg estrearam-se nos LP’s em 2010, com The Big Black & The Blue, um álbum que recebeu alguma atenção por parte da crítica. Agora, as manas trazem-nos o seu segundo registo, The Lion’s Roar, que mantém o nível do antecessor, e que se revela uma experiência bastante agradável para os fãs de Indie Folk e Baroque Pop. Com uma sonoridade que pode ser vista como uma mistura de influências que vai desde Joanna Newsom (sem a voz “especial) a Fleet Foxes, The Lion’s Roar consegue ser, durante os seus 42 minutos, delicado e bucólico o suficiente para derreter os corações mais empedernidos. É certo que tem alguns defeitos (especialmente a partir da segunda parte do disco), mas consegue ser um LP delicioso.
Pontos altos:
- The Lion’s Roar
- I Found a Way
- King of the World
Nota Final: 7,6/10

Reign of TerrorSleigh Bells (21 Fev)
- Reign of Terror é o nome do sucessor de Treats (2010), e francamente, o segundo LP do duo norte-americano Sleigh Bells não podia ter um título mais apropriado. Vindo na mesma linha que o disco de estreia da banda, Reign of Terror é rico em riffs monstruosos (a lembrar as grandes bandas de estádio dos anos 80), distorção ao máximo e vocais muito pouco apelativos por parte de Alexis Krauss. Tudo isto junta-se para formar um estilo que na minha cabeça tem o nome de Glam Noise, uma mistela de espírito de High School americana (cheerleaders e matulões do futebol americano incluídos) com cacofonia em estado bruto. Quando eu pensava que o disco da Lana Del Rey tinha sido o pior que tinha passado pelos ouvidos em 2012 (podem ler aqui a review de Born To Die), este Reign of Terror chegou para desfazer as minhas certezas.
Pontos altos:
- True Shred Guitar
- Demon
- D.O.A.
Nota Final: 2,1/10

The Slideshow EffectMemoryhouse (28 Fev)
- Disco de estreia deste duo canadiano formado por Evan Abeele e Denise Nouvion, este The Slideshow Effect chega-nos com uma sonoridade Indie Pop calma e doce, entrando de mansinho e fazendo lembrar Twin Sister ou, em alguns momentos, Beach House. No entanto, apesar de ter uma aura geralmente agradável e aprazível ao ouvido, The Slideshow Effect sofre, a meu ver, de uma bipolaridade gritante, que faz com que, em termos de qualidade, pareça uma autêntica montanha-russa, com todos os seus altos e baixos. Ainda assim, este LP dos Memoryhouse não deixa de ser uma boa estreia, com uns momentos bastante interessantes.
Pontos altos:
- The Kids Were Wrong
- Heirloom
- Walk with Me
Nota Final: 6,2/10

sábado, 17 de março de 2012

Visions

Com uma curta carreira, iniciada em 2010, a canadiana Grimes pode gabar-se de ser uma artista bastante prolífica, tendo lançado já dois LP’s em nome próprio (Geidi Primes e Halfaxa, ambos em 2010) e um Split EP (Darkbloon, de 2011) em colaboração com d’Eon. Recentemente, no passado dia 31 de Janeiro, Claire Boucher lançou Visions, o seu terceiro disco de originais, que será hoje analisado no Música Dot Com.

Confesso que apenas recentemente ouvi falar de Grimes, uma jovem que tem gerado algum hype por entre os círculos da internet que se dedicam à música independente (Olá, Pitchfork!). Depois de ter feito o meu trabalho de casa e de ter escutado as obras que antecederam este LP, fiquei bastante agradado com a Synthpop experimental fortemente influenciada pela Electronica que Grimes teve para oferecer nesses 3 registos. Contudo, confesso que nada me preparou para o “embate” com Visions, um álbum que me impressionou e deixou-me a pedir por mais.

Com uma Synthpop atmosférica e etérea, Visions apresenta-se, a meu ver, como o melhor LP de Grimes até à data, com uma sonoridade que joga num equilíbrio entre a continuidade dos discos anteriores e uma abordagem mais arrojada e inovadora. Com uma Electronica claustrofóbica que consegue evocar de forma bastante eficaz ambientes negros e frios, Visions tem a capacidade de demonstrar, simultaneamente, um toque de revivalismo dos anos 80 e uma postura de Pop futurista.

Ao nível dos vocais, Grimes traz o seu já característico registo (extremamente) agudo, com uma voz tão fina e frágil que chega a ser fantasmagoricamente inquietante, e que revela influências da K-Pop sul-coreana. Ao nível da lírica, Claire Boucher, nas letras que consegui perceber através da voz desvanecida da cantora, aborda primordialmente temas bastante abstractos e surrealistas, numa tentativa sólida de estabelecer um universo sórdido e noire exclusivo da artista. No que toca à produção, levada a cabo pela própria Grimes, assistimos a um tratamento do som que mistura eficazmente a polidez e a crueza, numa estética que captura a aura dos anos 80 de forma (quase) perfeita.

No entanto, apesar de toda a sua qualidade, Visions não consegue, a meu ver, ser uma obra totalmente imaculada, tendo alguns defeitos que minam o desempenho geral do disco. A encabeçar a lista está, sem dúvida, uma homogeneidade um bocado excessiva e que infelizmente torna o álbum um bocado repetitivo depois de algumas audições. É certo que a coerência temática do LP é bastante positiva, mas confesso que Visions só teria beneficiado de um bocadinho mais de variedade nos sons explorados.

Outro problema que encontrei em Visions foi a inconsistência, com uma disparidade algo pronunciada entre as melhores e as piores canções do disco, e que a meu ver mostra algum laxismo e falta de trabalho nas peças inferiores. Esta inconsistência é mais notória sobretudo na segunda metade do álbum, com uma quebra de momentum evidente e que faz com que o LP pareça bastante bipolar e desigual. Contudo, estes “problemas” não conseguem ofuscar o brilhantismo que Grimes demonstra em Visions.

Na hora de destacar aquelas que são, para mim, as melhores faixas deste álbum, sinto-me compelido a indicar a electrizante Circumambient, a penumbrosa Visiting Statue ou a minha favorita, a sombria e contagiante Oblivion. No outro lado do espectro, Colour Moonlight (Antiochus), Symphonia IX (My Wait is U) e Skin são as faixas que aponto como inferiores neste Visions.

Em suma, ao terceiro LP a canadiana Claire Boucher tira da cartola um belíssimo disco, que é um autêntico tratado de inovação e ousadia na música Pop actual. Alternativa q.b. e sem nunca perder de vista a suas referências, Grimes cria em Visions o seu melhor álbum, e que eleva a fasquia para um patamar bastante elevado. É certo que algumas falhas aqui e ali impedem que esta seja uma obra-prima absoluta, mas a verdade é que a qualidade que encontrei neste LP faz com que Visions seja dos melhores e mais interessantes registos que já ouvi em 2012. Totalmente aprovado e largamente recomendado.

Nota Final: 8,4/10

João Morais

quinta-feira, 15 de março de 2012

Discos com Graça: Unknown Pleasures

A música dos Joy Division assemelha-se a um valente soco num estômago vazio de tão penetrante que consegue ser.

Corria o ano de 1979 e alastrava-se, pelas rotinas britânicas, o tédio pela vida. No quotidiano, vivia-se uma monotonia tal que fazia imergir a vontade antiética de tudo mudar, assim, num ápice. Enquanto bandas como os Sex Pistols decidiam dissipar todo o seu tédio e raiva através de uma música mais agressiva com saliências ousadas da rebeldia característica do movimento Punk, como foi patenteado no lendário Never Mind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols, o quarteto proveniente de Manchester decidiu-se por despejar toda a sua angústia através de uma música mais calma, com uma batida mais suave e emocional, alicerçada na importância que a linha de baixo e a bateria adquiriam face à tradicional guitarra. Característica que ajudaram a definir o movimento Post-Punk.

Num álbum genial, a banda encabeçada pelo lendário génio de Ian Curtis edificou uma musicalidade única: Stephen Morris [baterista] ia repetindo, quase sempre, a mesma batida ao longo de cada faixa. Bernard Sumner [guitarrista] cedia à timidez, propositada, e permitia que Peter Hook [baixista] ganhasse o protagonismo no que toca à génese instrumental, fazendo com que a linha-de-baixo soasse mais [e melhor] do que nunca. Já a voz, entregue a Ian Curtis, que se perdia no querer contínuo de se encontrar a si mesmo e de descobrir o significado da sua ignóbil existência, essa soa-nos, quase sempre, triste e depressiva.

De facto, a musicalidade dos Joy Division era bastante simples, assim como quase toda a música que nasceu do seio do movimento Punk, mas é um som que, à primeira vista, nos pode soar estranho. Efectivamente, este é um daqueles casos onde se pode aplicar o dito «Primeiro estranha-se, depois entranha-se».

A atmosfera que envolve Unknown Pleasures é uma das coisas mais intrigantes e belas que já ouvi. Recuando a Junho de 1979, o registo foi arquitectado com 10 faixas, tendo um total de 39 minutos e 24 segundos. Tendo como editora a Factory Records, o álbum conta com:

1.       Disorder – O registo tem início com Disorder, uma grande canção, se bem que não muito elaborada. Iniciando-se na bateria, sempre com uma batida simples, a música vai desaguando nos riffs melódicos e frios por parte de Peter Hook e Bernard Sumner. O som aparece-nos envolto num ambiente descontraído, decorado por uma paisagem que nos soa alegre até que o vocalista, sofredor de musicofilia, começa a cantar. O LP tem início com o verso «I’ve been waiting for a guide to come and take me by the hand/ could these sensations make me feel the pleasures of a normal man?». Este tema trata-se, garantidamente e na minha opinião, de um dos mais «acessíveis» da discografia dos Joy Division, e é possível relacionar o nome do registo com o verso acima referido, pois trata-se de prazeres desconhecidos para Ian. A partir deste ponto, podemos concluir uma série de coisas acerca daquilo que se pode esperar deste LP: o álbum soará, seguramente, a um aligeirado grau de egocentrismo por parte da pessoa de Curtis. A vida do cantor encontra-se numa desordem tal que este, apesar de ser uma pessoa normal, não consegue sentir os prazeres que alguém «normal» consegue sentir. Por outras palavras, a vida de Ian devaneava-se por uma equação cuja incógnita - o prazer - teimava em manter-se ábdita. Excelente início.

2.       Day of the Lords – A faixa número 2 do registo regista um ritmo menos acelerado do que a primeira, Disorder, mas mais pesado. Uma música hipnotizante, agressiva, depressiva e obscura fazendo-me lembrar, em parte, Black Sabath. O momento central da faixa, o verso «Where will it end?» é acompanhado por um sintetizador, o que confere uma paisagem abscôndita pela incerteza oca de Ian em querer exumar todo o que existe para ser desenterrado. Um dos grandes momentos do álbum, fenomenal.

3.       Candidate – Enfatizando a importância da linha de baixo e da bateria, a guitarra, talvez devido à peculiar produção de Hannett, soa-nos muito distante ao longo de toda a faixa. Focando-me na parte instrumental, acho muito positiva nesta música a ligação baixo-voz, que combina extremamente bem com o conteúdo da vertente lírica que compõe a música. Com um lirismo sempre sublime, Ian Curtis relata-nos as artimanhas fracassadas de um político frustrado. Razoável.

4.       Insight – Na minha opinião, uma das músicas mais complexas que o quarteto nos ofereceu. Não é fácil estar a falar deste tema, pois é rico em pormenores. Semelhante a 24 Hours, decorada com um ambiente sombrio, fruto da voz de Ian, sempre intrigante e misteriosa, esta faixa vai ao encontro instrumental, a meu ver, de Disorder, sofrendo um pequeno abrandamento em termos de rapidez [algo evidente na bateria de Morris]. O momento mais «estranho» da música aparece-nos quando somos «atacados» por um ruído futurista de instrumentos electrónicos, numa invasão cujo contexto eu não consigo entender muito bem. Contudo, acho que se trata de um belo momento musical.

5.       New Dawn Fades – Muito possivelmente a minha música favorita de todo o álbum, New Dawn Fades é uma faixa onde sobressai o carácter depressivo, melancólico, triste, genial e único do vocalista da banda. Acerbado por uma certa abulia, canta com acérrimo o possível excídio do seu «eu». Com um estro inigualável, recorre à sentença da sua voz e exsurge-se para abluir a sua alma. Com uma instrumentalidade exímia, especialmente quando a voz de Ian se intensifica mais [provando que não é preciso ter grandes dotes vocais para se ser um grande cantor], a faixa aparece imersa de emoção num oceano de encantos e desencantos. Divinal.

6.       She’s Lost Control – Condimentado de uma maneira peculiar, She’s Lost Control é a música mais célebre de todo o registo. Com Peter Hook a brilhar, devido à linha de baixo que, uma vez mais, está absolutamente arrasadora, Ian Curtis conta-nos a história de uma rapariga que ele conhecia que sofria de ataques de epilepsia, tal como ele. Quando Ian tinha um ataque, sentia que aquelas pequenas fracções de tempo podiam ditar o seu fim, podiam ditar com que ele perdesse o controlo sobre as coisas. Eram como fenómenos sobrenaturais, os quais o homem comum e mortal não pode estropiar. Era algo para além dele, assim o entedia, Ian. Versos como «Confusion in her heys that says it all/ she’s lost control» são exemplo disso. Clássico genial.

7.       Shadowplay – Outra relíquia do registo é esta Shadowplay. Iniciando-se de uma maneira simples e calma, acaba por sofrer uma inversão abrupta, aos 30 segundos, e transforma-se num vomitar de agressividade abstruso estropiado pelo riff enérgico de Bernard. A cada verso que é decifrado existe sempre uma interjeição por parte do guitarrista, o que acaba por funcionar muitíssimo bem. Acabando por acatar uma funcionalidade meramente atmosférica, a guitarra vê aqui o seu ponto alto em relação a todo o álbum. Nesta faixa é visível uma face mais Punk dos Joy Division: Arrojo musical simples, agressivo, fúria pessoal. Muitíssimo bom.

8.       Wilderness – A música mais sombria e inóspita de todo o álbum. Cercada pelo mistério e por uma linha de baixo sempre agradável, a banda leva o ouvinte a nidificar-se no verso «What did you see there? /The power of glory and sin,/ What did you see there?/ The blood of Christ on their skin.». Beleza intrigante.

9.       Interzone  Interzone acaba por se revelar o expoente de maior grau da face Punk dos Joy Division. Uma música rápida, conferida por uma paisagem alegre [com excepção para o lirismo, que é regular ao longo de todo o registo: sempre triste, penetrante e sublimemente genial]. Nesta faixa é constatável o aparecimento nos vocais de Peter Hook. Bom momento musical.

10.   I Remember Nothing – Uma das minhas músicas favoritas de toda a discografia do quarteto de Manchester acaba por ser a peça que serve de desenlace ao Unknown Pleasures. Uma música com um ambiente muito dark, intrigante e assustador. A voz de Ian aparece-nos melhor do que nunca, tornando visível o abscôndito, abecedando cada letra que canta, esquivando-se do desprazer naqueles escassos 6 minutos, efeminando a dor que havia em si, dando vida ao seu ego ábio. Inicialmente lenta [como quase sempre até aqui], a música vai acelerando e ganhando ritmo. Nesta música, devido à produção, a voz de Ian parece soar mais forte que tudo, penetrando no ouvido do ouvinte a cada palavra cuspida. Penetrante e fantástico final.

O som do quarteto produziu uma ruptura com os padrões musicais da época e até hoje influencia fortemente bandas que produzem música alternativa. O baixo sempre predominante na estrutura das músicas, os ruídos pausados das guitarras, a introdução de elementos sintéticos na textura instrumental e a voz singular de baixo-barítono inovaram tanto que o que se seguiu foi fortemente influenciado por Joy Division.

Pautado por um lirismo soberbo, por uma sonoridade bastante característica e por uma atmosfera genialmente sombria, Unknown Pleasures é um dos álbuns da minha vida. Aliás, Unknown Pleasures não é meramente um álbum, é uma história. É parte da história de Ian Curtis, o cantor, poeta e filósofo que encarava a vida de uma maneira única, não se sujeitando à verdade vista pelos olhos dos outros e batalhando incessantemente por distorcer essa insensível verdade. É parte da história daquela marioneta demente que fervia de emoção enquanto cantava. Ian esmiuçava-se, literalmente, na busca de encontrar a verdadeira essência do seu «eu» através da música. Conseguia-o com a ajuda dos seus três amigos Peter Hook, Stephen Morris e Bernard Sumner.

Obrigando o ouvinte a deambular-se por recintos sombrios, incertos e intrigantes [recintos, esses furto, em parte, da produção encabeçada por Martin Hannett], Unknown Pleasures trata-se de um disco extremamente penetrante, triste, persuasivo e belo.

Sem mais retórica, rendam-se aos prazeres desconhecidos.

Emanuel Graça

segunda-feira, 12 de março de 2012

Mixtape da Semana // Week 11

Feita num devaneio, a 11ª edição da Mixtape da Semana volta a trazer-vos um sortido de 10 canções para fechar com chave de ouro o final das vossas Segundas-Feiras. Hoje, a playlist que hoje vos trago é, mais uma vez, uma colecção de faixas aleatórias que me soaram bem juntas. Mas também, com nomes como The Chemical Brothers, Radiohead ou New Order, não há como falhar.

Esta Mixtape conta com as seguintes faixas:
·         Heartbeats The Knife
·         Get Some Lykke Li
·         Palace A$AP Rocky
·         Waters of Nazareth Justice
·         Bombs Over Baghdad (B.O.B.) OutKast
·         Go Bang SBTRKT
·         Star Guitar The Chemical Brothers
·         Idioteque Radiohead
·         Bring the Noise Public Enemy
·         Bizarre Love Triangle New Order


segunda-feira, 5 de março de 2012

Mixtape da Semana // Week 10

Contando já com 10 edições, a Mixtape da Semana volta, pontualmente, no final do primeiro dia da semana, para vos poder consolar das tribulações e cansaços que a vida activa vos traz. Esboçada em 5 minutos numa aula particularmente enfadonha, a playlist de hoje traz-vos 10 canções de 10 artistas/bandas que tenho andado a ouvir nos últimos dias. Não há, por isso, uma ligação entre as canções, a não ser os meus caprichos e idiossincrasias. Destaque para All My Friends (LCD Soundsystem) e Crosstown Traffic (The Jimi Hendrix Experience), duas peças que tenho em grande estima.

Esta Mixtape conta com as seguintes faixas:
·         All My Friends LCD Soundsystem
·         Flashing Lights Kanye West
·         Rock with You Michael Jackson
·         Crosstown Traffic The Jimi Hendrix Experience
·         Weekend Wars MGMT
·         Roll Over Beethoven Chuck Berry
·         Psycho Killer Talking Heads
·         King of Spain The Tallest Man on Earth
·         Piano Fire - Sparklehorse



quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Discos com Graça: Olhos de Mongol

Descomprometidos com o mundo, erguem-se em complexidades instrumentais capazes de nos preencher, centímetro a centímetro, milímetro a milímetro, a alma.

Olhos de Mongol trata-se de um disco extremamente coeso e penetrante, onde a sonoridade ganha asas e não desce dos céus e onde o lirismo, sempre simples e eficaz, funde-se com a complexidade instrumental e penetra-se pela nossa cabeça sem querer retornar à esfera real.

Com músicas absolutamente divinais, o quarteto edificou, indubitavelmente, um álbum [extremamente] rico em sonoridade, poesia e talento.

Olhos de Mongol obriga-nos a voltar a Outubro de 2006 [um ano depois de a banda ter lançado o seu primeiro EP, intitulado Linda Martini], e é constituído por 9 faixas com um total de, aproximadamente, 42 minutos. Tendo como editora a Naked, o álbum conta com:
1.       Sinto a cabeça a cair – Esta é a música mais simples de todo o LP, funcionando como uma introdução ao mesmo. Apesar de toda a sua simplicidade, é a partir do momento que escutamos esta faixa que começamos a ganhar consciência de que este Olhos de Mongol deve ser escutado atentamente, pois trata-se de um escape à esfera real. Começo razoável e intrigante.
2.       Cronófago – A partir da segunda faixa do registo são-nos introduzidas as poderosas guitarras com que o quarteto cessa a sua fome. Edifica-se, ao longo do tema, uma muralha de distorção soberba que, aliada a uma atmosfera potente, prende o ouvinte no verso «São carris que me prendem aqui/ à velha casa onde tudo é igual». Obrigando o ouvinte a deambular-se pelos vocativos empregues, salta-nos o desejo de querer esmiuçar o mesmo. Nesse «passeio» em torno do verso, ergue-se-nos a ideia dos conceitos de rotina, homogenia e igualdade [conceitos, esses, que nos persistirão até ao fim do LP]. Potente.
3.       Dá-me a tua melhor faca – Esta música é, simplesmente, demolidora. Nascendo no seio do poderio instrumental [com ênfase para as guitarras], um personagem aparece-nos abafado pela dor e, por isso, mudo. À medida que o quarteto se alimenta do seu som, a música, inicialmente ultra-violenta, vai desaguando numa sonoridade suave e agradável [fazendo, em muito, lembrar certas paragens do Post-Rock] e o dito personagem vai ganhando alento e coragem para nos relatar a sua dor. A dor que o inquietava, abrupta, teimava em não lhe dar tréguas e o sujeito, amedrontado com o cenário, julgava-se num labirinto rodopiante onde solucionar a sua saída era penetrar desenfreadamente pela sua maior ferida. Angustiado pela cena, mirava uma luz no fundo do túnel. Envolto de um ambiente sonoro agradável e calmo, o personagem [que fala mais do que canta] serve-se de um lirismo simples e repete continuamente o verso «Dá-me a tua melhor faca/ para cortarmos isto em dois/ e amanhã esquecer», num repetir apetrechado de uma réstia de esperança. Basilarmente, estes versos servem de metáfora à dor vivenciada pelo personagem naquele momento. Com a ânsia de aliviar a dor, destila uma solução. Seria mais fácil partir a sua dor em duas fatias, uma dor contada é uma dor acalmada. Naquela efemeridade de tempo em que repete desalmadamente o verso acima referido, o personagem procura alguém para falar, um colete salva-vidas que lhe impeça que a bala lhe penetre o peito. Após cinco pedidos de ajuda sem qualquer tipo de resposta, o ambiente calmo e agradável desta Dá-me a tua melhor faca sofre uma volta de 180 graus e tempera-se, nela, uma agressividade letal. O personagem sucumbe à dor e silencia-se até ao término da música. A dor vence-o e a bala penetrou-se-lhe. É criada uma atmosfera absolutamente divinal, fazendo com que as nossas pernas tremam, com que a nossa cabeça palpite, com que o nosso coração queira explodir. Uma música esquizofrénica, numa mistura de emoções tremenda. Fabulosa.
4.       Partir para ficar – O lirismo desta música deriva da lendária FMI, do célebre José Mário Branco. Depois do quarteto ter pegado numa parte da composição lírica acima referida, foi-lhe conferida uma paisagem reinada pela incerteza e por um ambiente sombrio. Trata-se de um poderio instrumental que é banhado por quantidades extremas de emoção. Obrigando o ouvinte a imaginar-se numa paisagem inóspita, rude, escura, soturna, incerta e atroz, acaba-se por construir um momento singular e saboroso. Excelente momento musical.
5.       Estuque – Provavelmente escrita com influências de Cláudia Guerreiro [licenciada em escultura], Estuque acaba-se por revelar um dos grandes tesouros do registo. Arquitectada com uma letra sublime, a faixa número cinco deste LP aparece-nos estruturada de uma forma visivelmente pensada. Moldada com uma sonoridade agradável, é aqui que André Henriques mostra-nos, inicialmente, a sua capacidade vocal, fazendo soar a sua voz melhor do que nunca. Envolvendo os fãs num ambiente rústico, esconde-se o melhor para o fim e, repentinamente, somos invadidos por um solo extraterrestre. Invasor.
6.       O amor é não haver polícia – Esta faixa retrata, muito possivelmente, a música mais intensa, apaixonante e dolorosa que já ouvi. Inicialmente falando mais do que cantando, gera-se um ambiente intrigante e escuro, cheio de incógnitas, banhado por uma sonoridade rica em conteúdo. Demonstrando toda a sua genialidade instrumental, à medida que a canção vai fluindo, vai ganhando ritmo e as palavras vão sendo debitadas com maior rapidez. Envolta por um ritmo acelerado, a música vai ganhando novos contornos e vai-se transformando numa faixa mais pesada. Agarrando o ouvinte no verso «Eu queria tanto parar aqui», solta-se um berro apaixonante e doloroso, exponenciando a vertente esquizofrénica do álbum para outro patamar. Liricamente trata-se de uma das faixas mais elaboradas do álbum com momentos líricos como, por exemplo, «O mundo é grande e em todo o lado se vive. Diz-lhe para parar aqui, vivemos em caixas de fósforos. Não sopres» a sobressaírem. Estupendo.
7.       Quarto 210 – A meu ver, trata-se da faixa menos conseguida de todo o registo. Apesar da vertente lírica ser simples e deliciosa, não se acha a «explosão» instrumental que se deambula pela nossa mente quando ouvimos Linda Martini. Repleta de soturnidade, este Quarto 210 aparece-nos, instrumentalmente, simples e sem qualquer manobra de distorção, acabando por deixar água na boca aos fãs mais vibrantes da banda. Razoável.
8.       Amor Combate – A faixa número 8 deste LP assinala a música mais conhecida de toda a discografia dos Linda Martini. Recheada por uma componente lírica sublime, este «Amor Combate» aparece-nos condimentada por uma sonoridade exímia. Uma banda que, geralmente, não prima pelos dotes vocais do seu vocalista [André Henriques], acaba por elaborar uma faixa onde André demonstra ser provido de uma agradável capacidade vocal. Também nesta faixa a bateria, com Hélio Morais ao leme, aparece-nos louca [e isto é um elogio]! De facto, Hélio Morais consegue demonstrar, não só nesta faixa mas também ao longo de todo o álbum, que é o melhor baterista português da actualidade. Com uma criatividade extraordinária e com uma energia tremenda, pega nas baquetas e toca como se o amanhã estivesse por um fio. Um arrojo musical extremamente bem conseguido. Formidável.
9.       A Severa (ver de perto)A Severa é o momento alto do registo, o seu clímax. Uma música progressiva, suave, lenta, rápida, agressiva, calma, esquizofrénica. Unem-se todos os vocativos que se empregam na caracterização de Olhos de Mongol, e obtém-se a descrição de A Severa (ver de perto). Abre-se uma guerra num reino de distorções e quatro versos de pura poesia banhado por um mar de talento e obtém-se uma faixa perfeita. Frenética.

Pautado por uma sonoridade única, por um lirismo repleto da alma vazia e por uma atmosfera incrivelmente intensa, Olhos de Mongol acaba por se revelar um dos registos mais intensos e ricos que já ouvi. As suas letras, intrigantes, criam uma fusão fria e escura com a sua instrumentalidade absolutamente esquizofrénica, conferindo vida extraterrestre à sua musicalidade.

Levando o ouvinte a devanear-se por cada canto da sua complexa forma oval e a acelerar o seu ritmo cardíaco a cada palavra soletrada, os Linda Martini, alheios a compromissos, soam-nos maravilhosos num rio de sentimento e intensidade. Num passeio exterior à esfera real, somos constantemente penetrados pela musicalidade arrepiante do quarteto faminto. Um som único e que prima pela sua originalidade.

Arrebatadores, Hélio Morais, Pedro Geraldes, André Henriques e Cláudia Guerreiro, continuam a dar provas de que existe vida para além desta esfera.

Emanuel Graça

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Mixtape da Semana // Week 9

Para a sua nona edição, a Mixtape da Semana traz-vos uma colecção de 10 músicas carregadas de política. Mensagens pacifistas, ambientalistas ou simplesmente de pura anarquia e rebelião, as faixas de hoje podem não se englobar todas na categoria de “música de intervenção”, mas são certamente gritos de revolta de bandas e artistas que não se deixavam conformar com o status quo da injustiça. Destaco também duas canções em especial, Os Índios da Meia-Praia (Zeca Afonso) e Search and Destroy (The Stooges), que estão certamente na minha lista de all-time favourites.

Esta Mixtape conta com as seguintes faixas:
·         Straight Outta ComptonN.W.A.
·         Sunday Bloody Sunday U2
·         Moon Over Marin Dead Kennedys
·         Anarchy in the U.K. Sex Pistols
·         Killing in the Name Rage Against the Machine
·         Search and DestroyThe Stooges
·         Ohio Crosby, Stills, Nash & Young
·         Street Fighting Man The Rolling Stones
·         The Times They Are a-Changing Bob Dylan
·         Os Índios da Meia-PraiaZeca Afonso


sábado, 25 de fevereiro de 2012

Música Nova: Tropical Tobacco

Misterioso e sediado em Lisboa, Tropical Tobacco é a minha mais recente “descoberta” da música independente nacional. Com uma música (descrita pelo próprio como) “fresquinha”, Tropical Tobacco traz-nos uma abordagem inovadora da Dream Pop, misturando elementos Chillwave e Afrobeat nas suas composições.

Por enquanto ainda só temos direito a uma promo, aboriginal, que conta com duas canções (Pineapple Express e Ambiguous) que me trouxeram à cabeça nomes como Youth Lagoon, Toro Y Moi e até um pouco de Animal Collective, todos bem mexidos com um gostinho “tropical” de um mojito bem aviado. Fico à espera de poder ter mais deste Tropical Tobacco, pois esta passa deixou-me de água na boca.

Para saberem mais sobre Tropical Tobacco e poderem ouvir/sacar a promo:

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Discos com Graça: Grace

Jeff Buckley foi uma gota de cristal num rio imerso de ruídos sentimentalistas.

Na primeira estrofe de Grace, na suave Mojo Pin, Jeff Buckley dá a entender-nos o que canta ao longo do álbum: a sua dor e a sua necessidade de descobrir a essência da vida e do amor. Levando o ouvinte a viajar para outro mundo, este disco aparece-nos sob uma atmosfera intensa e sentimental.

O cantor norte-americano, filho da lenda Folk Tim Buckley, brinda-nos com uma voz absolutamente devastadora e bela, capaz de se deambular por rumos completamente opostos como, por exemplo, a voz explosiva e agressiva patenteada em Eternal Life e o registo suave e encantador em Lilac Wine. Com uma versatilidade fora do normal, o génio de Jeff Buckley emerge, também ele, na guitarra. Com músicas como Grace e So Real, ganhamos consciência de que o seu génio se despedaçava em pequenas parcelas que o cimentavam como um artista completo.

Outro dom notável do californiano era a sua aptidão para a escrita. Banhando as suas composições líricas em sentimento e emoção, Buckley demonstrava expressar-se de uma maneira única e sublime. Maior exemplo deste seu dom será, seguramente, a memorável Lover, You Should've Come Over.

Grace, um álbum imerso de graciosidade:
O disco remonta a Agosto de 1994 e é constituído por 10 faixas, com um total de 51 minutos e 44 segundos. Tendo como editora a Columbia Records, Grace  conta com:
1.       Mojo Pin – A primeira estrofe dá-nos a ideia do que Jeff Buckley pretende fazer ao longo de todo o disco. O álbum começa de uma maneira formidável, dando-nos, de imediato, a ideia de que devemos encará-lo de uma maneira bastante séria. Nesta primeira faixa Buckley aparece-nos demolidor, com uma capacidade vocal tremenda e capaz de aguentar notas longas por uma infinidade de tempo. De facto, é mesmo impressionante a quantidade de tempo que Buckley consegue gritar sem qualquer tipo de desafinação. Começando por ser suave, a música vai-se compondo e tornando robusta até que atinge o clímax. Este clímax dá-se quando a dor do cantor decide começar a gritar desenfreadamente silenciando a suavidade com que o cantor havia cantado até então. É, sem margem para dúvidas, um começo estupendo.
2.       Grace – A música que partilha o seu título com o LP é, indubitavelmente, um dos pontos altos do mesmo. Liricamente, esta música traz-nos a concepção do cantor acerca de diversas temáticas como, por exemplo, a morte. Esta faixa abre com um riff absolutamente estupendo e aparece-nos, novamente, com um personagem que canta de uma maneira triste e escura. Com uma instrumentalidade única, Jeff prepara, ao longo da música, o momento da sua explosão. Levando-nos a divagar no verso «Wait in the fire», Buckley explode, uma vez mais, e solta a dor que há em si. Ao leme do poderio instrumental (com realce para a bateria), solta-se o vazio que existia no cantor e somos invadidos por um grito sobrenatural e que nos leva para outra galáxia. Magnífico.
3.       Last Goodbye – A fatia do génio de Buckley que mais sobressai nesta música é o seu modo de escrever. Com uma linha de baixo agradável, edifica-se uma música que descreve o fim de uma relação como ponto de partida para o entendimento do quão importante uma pessoa pode ser na vida de outra pessoa. Ao invés das primeiras duas músicas, esta faixa não nos aparece marcada por nenhum momento de explosão. A voz de Jeff mantém-se regular desde o início ao fim, sempre afinada e bela. Sentimental.
4.       Lilac Wine - Lilac Wine é a primeira faixa do álbum que não é escrita pelo cantor norte-americano. Esta composição lírica foi escrita por James Sheldon no longínquo ano de 1950, tendo várias interpretações como, por exemplo, a de Nina Simone e a de Elkie Brooks. Com uma instrumentalidade simples, dá-se, uma vez mais, alento à capacidade vocal de Jeff, e constrói-se, a meu ver, uma das melhores covers alguma vez feitas. Penetrante.
5.       So Real – Esta música é, se é que posso afirmar isto, a minha favorita de todo o álbum. E, além disso, foi através desta música que comecei a atentar, música a música, estrofe a estrofe, verso a verso, em Jeff Buckley. Com uma instrumentalidade, uma vez mais, demolidora, a composição lírica é envolta de ouro. No refrão, o verso «Oh that was so real», a bateria e o baixo ganham volume e corpo e a música ganha vida. Num certo momento, Buckley aparece-nos apenas a falar e não a cantar, fala de uma maneira assustadora e cria-se uma atmosfera suja e escura. Nesta faixa assinala-se um ponto de viragem em Grace, passando-se de uma música mais simples para uma música mais complexa e, ainda mais, sentimental. Perfeita.
6.       Hallelujah – A música mais reconhecida de toda a discografia de Jeff Buckley é Hallelujah. Originalmente escrita e interpretada pela lenda Leonard Cohen, esta é a faixa que exponencia o talento incrível de Buckley para a guitarra. Ao longo desta relíquia musical, dá-se uma fusão encantadora e apaixonante entre a guitarra e a voz do cantor. No decorrer de toda a música, Jeff presenteia-nos com momentos em que parece apaixonar-se pelo que canta e quando o faz é simplesmente incrível. Canta com a alma a transbordar amor e paixão, canta de uma maneira sublime e dá uma nova vida à música de Cohen. Esta é a maior música de todo o álbum, tendo 6 minutos e 53 segundos. Sendo uma das pérolas da discografia de Buckley, esta música alargou-se à escala global e transformou-se numa das melhores covers de sempre. A meu ver, esta interpretação de Buckley consegue mesmo ser superior (e em muito) à sua versão original. Um dos momentos de Grace. Apaixonante.
7.       Lover, You Should've Come Over – A faixa número 7 de Grace é, sem margem para dúvidas, a melhor música do álbum [Contudo, não se trata da minha favorita]. Com uma sonoridade exímia, esta música aparece-nos envolta de um lirismo perfeito. Esta é, mesmo, uma das músicas mais emocionantes e sentimentais que já ouvi. A canção assenta numa das temáticas que mais encabeçam o LP, assentando na «perda de alguém», no «amor vazio» … A ânsia desmedida do querer preencher o vazio que ficou no seu coração, notória na sua voz, aliada à tristeza musical que é sentida, criam uma atmosfera intensa e agarram o ouvinte durante os «longos» 6 minutos e 43 segundos. Ouro sobre azul, brilhante.
8.       Corpus Christi CarolCorpus Christi Carol é a outra música do registo em que a letra não conta com a autoria do cantor norte-americano [O autor deste belo poema é desconhecido e remota o século XVI]. É, a meu ver, o ponto baixo de todo o álbum. A voz de Buckley aparece, mais uma vez, deslumbrante, mas não se sente a presença do cantor como se sentia nas outras músicas até aqui analisadas. É uma música que parece um pouco desenquadrada com o panorama de todo o disco e parece-me um pouco desfasada daquele «ponto de viragem» que referi na faixa So Real. Sem muito  por onde explorar, trata-se de uma música com uma sonoridade bastante simples e fina que acaba por funcionar bem. Razoável.
9.       Eternal Life - «This is a song about...it’s an angry song. Life's too short and too complicated for people behind desks and people behind masks to be ruining other people's lives, initiating force against other people's lives on the basis of their income, their color, their class, their religious beliefs, their whatever...» disse Jeff Buckley em Live at Sin-é [disco ao vivo que aconselho vivamente]. De facto, nesta música conhecemos um novo Jeff Buckley, que canta efusivamente a raiva que sente. Fustigado pela necessidade de descobrir a real essência da vida e do amor, o cantor presenteia-nos com a sua versatilidade genial. Aparecendo-nos com uma sonoridade violenta, é uma música que contrasta evidentemente com todo o álbum, dando-lhe uma nova amplitude. Repleta de mensagem e de conselhos e apetrechada de um lirismo simples mas eficaz, a voz de Buckley soa-nos agressiva e encoraja-nos a esquecer tudo porque a vida é demasiado curta, não sendo eterna, e merece, por isso, ser [bem] vivida. Absolutamente genial.
10.   Dream Brother – Esta música revela-nos uma musicalidade misteriosa que remete-nos, em parte, para um estilo indiano. [De facto, Buckley era adepto de música indiana; aliás, chegou mesmo a interpretar a célebre Yeh Jo Halka Saroor Hai, de Nusrat Fateh Ali Khan, em Sin-é] Do ponto de vista lírico, podemos dizer que a música retrata-nos uma introspecção de Buckley acerca da sua infância e acerca do seu pai, Tim Buckley. Notam-se, por isso mesmo, evidências do quão profundo é o sentimento do cantor na escolha do vocabulário a empregar nesta canção. A guitarra e a bateria, uma vez mais predominantes nas músicas do cantor, fundem-se com a sua voz elegante e criam, novamente, uma atmosfera intensa que se vai intensificando ao longo de todo o arrojo musical. Um desenlace muitíssimo bom.

O álbum Grace, de Jeff Buckley, é, muito provavelmente, o LP mais intenso, emocionante, poético e belo que eu alguma vez ouvi. Num disco repleto de sentimento, Buckley consegue produzir um som onde demonstra ter capacidades vocais (quase) sobrenaturais e um talento imenso para a guitarra, isto tudo, aliado à mestria com que o norte-americano escrevia.

Jeff Buckley é um daqueles artistas que tinha tudo para singrar a solo. A aliança entre a sua voz, absolutamente poderosa, a sua enorme capacidade para escrever, a sua versatilidade e o seu dom para a guitarra geram-nos a ideia de que, se hoje fosse vivo, Jeff seria uma daqueles artistas consagrados à escala global.

Gracioso, haverá sempre um cristal cintilante que brilha no fundo de um rio.


Emanuel Graça

Mixtape da Semana // Week 8

Para a sua oitava edição a Mixtape da Semana traz-vos, novamente, uma escolha temática; dez canções vindas directamente do Reino Unido para os vossos ouvidos. Fundindo bandas clássicas (The Beatles, The Smiths) com nomes mais contemporâneos (Gorillaz, Radiohead), esta é uma playlist que não vão querer perder!

Esta Mixtape conta com as seguintes faixas:
·         Rhinestone Eyes Gorillaz
·         Do You Remember the First Time?Pulp
·         Elephant Stone The Stone Roses
·         IsolationJoy Division
·         Electioneering Radiohead
·         Paint It Black The Rolling Stones
·         Just Like Heaven The Cure
·         Still Ill The Smiths
·         The Seeker The Who
·         Baby, You’re a Rich Man The Beatles