domingo, 15 de abril de 2012

The Horror

Quarteto nova-iorquino nascido em 2008, os Pop. 1280 lançaram em 2010 o seu primeiro EP, The Grid, registo que demonstrava uma interessante mistura de Post-Punk com New Wave. Agora, dois anos depois, os Pop. 1280 chegam até nós com o seu primeiro LP, The Horror, editado a 24 de Janeiro, e que será analisado aqui, no Música Dot Com.

Tirando o facto de estarem na Sacred Bones (uma interessante editora independente, que conta também com The Men e Zola Jesus), de virem de Nova Iorque e de afirmarem como uma banda de Cyber Punk, pouco se sabe acerca do grupo de Ivan Lip, Chris Bug, Zach Ziemann e Pascal Ludet. The Grid, o EP de 2010, conseguiu deixar muito boa gente interessada no grupo, devido à forma como misturava o Post-Punk mais sombrio com uma New Wave esquizofrénica, tendo até laivos, aqui e ali, de Noise Rock.

Porém, e apesar de The Grid já ter o seu quê de negrume e violência, nada me podia preparar para The Horror. Sombrio, caótico e cheio de distorção, o primeiro disco dos Pop. 1280 mostra uma banda de arraiais assentes no Noise Rock e no No Wave na sua forma mais extrema e até macabra. Apesar de não ser, nem de perto nem de longe, uma obra-prima, admito que The Horror conseguiu superar largamente qualquer expectativa que eu tivesse a priori, revelando-se numa bela experiência auditiva.

Indo buscar inspiração a grupos como Rapeman, Grinderman ou Swans, os Pop. 1280 conseguiram criar em The Horror  um álbum desafiante e abrasivo, capaz de chocar os mais sensíveis. Com um som “cheio” e sujo, fruto da mistura das guitarras distorcidas e cortantes, do baixo espesso, dos sintetizadores espectrais e da bateria mecânica e quase militar, The Horror traz, ao longo das suas 10 faixas, uma música ousada e que se encontra sempre no “fio da navalha”, e que demonstra um intento de chocar o ouvinte.

É também na área do chocante, do grotesco e do niilista que situam as letras de The Horror, cuja violência e obscenidade se conjugam de forma perfeita com a instrumentação caótica e com os vocais, compostos por gritos e berros tensos, desconcertantes e perturbadores. Ao nível da produção, assistimos a uma estética centrada na crueza e na abrasividade, o que sublinha bem a aposta clara no “desafio” e na provocação.

Contudo, nem tudo me agradou em The Horror. Um dos maiores problemas deste álbum é, a meu ver, a forma como se torna cansativo ao longo de várias audições, exigindo muito esforço da parte do ouvinte. Isso deve-se, sobretudo, à forma como algumas canções se tornam, ao fim de algum tempo, algo “planas” e repetitivas, o que demonstra uma certa falta de trabalho em alguns pontos do disco. Não digo que seja um grande defeito, mas é certamente um factor que pesa na hora de avaliar o álbum.

Quanto às minhas faixas preferidas de The Horror, a pungente e acelerada Burn the Worm, a agressiva e avassaladora New Electronix, a desoladora e tenebrosa Bodies in the Dunes, a fria e frenética West World ou a suja e viciante Crime Time são todas peças que me conseguiram cativar especialmente. Quanto às canções que, a meu ver, estão menos conseguidas, Nature Boy, Beg Like a Human e Hang’Em High são as minhas escolhas óbvias.

Resumindo, The Horror apresenta-se como um álbum Noise Rock caótico, sujo e difícil, tal como manda a lei do género. Com uma conjugação de elementos muito bem conseguida, e que visa fazer passar um sentimento de tensão, angústia e desolação, este LP dos Pop. 1280 não é, de certo, para toda a gente. Pode não ser um disco perfeito, mas mostra uma atitude ousada , sendo um sólido passo em frente quando comparado com The Grid. Confesso que, depois de The Horror, vou ficar a aguardar ansiosamente o próximo lançamento dos Pop. 1280.

Nota Final: 8,3/10

João Morais

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Something

Projecto Indie Pop fundado em 2005, pelas mãos de Caroline Polachek, Patrick Wimberly e Aaron Pfenning, os Chairlift conseguiram, com Bruises (hit-single do disco de estreia de 2008, Does You Inspire You), entrar na cabeça de muito boa gente. Pois bem, já sem Pfenning, o (agora) duo decidiu lançar o seu segundo LP, Something, disponível nas lojas desde 24 de Janeiro, e que será hoje analisado.

Confesso que, apesar da espectacular e viciante Bruises, não posso dizer que Does You Inspire You me tenha deixado grande impressão. Com uma Indie Pop repetitiva e vulgar, o disco de estreia dos norte-americanos não me deixou com grandes esperanças para um segundo álbum. Contudo, depois de ter visto o hype que este Something estava a ter, decidi dar uma segunda oportunidade aos Chairlift, algo de que não me arrependo nem por um segundo. Apesar de não ser brilhante, Something consegue ser um disco bastante bom, e que demonstra uma banda de cara totalmente renovada.

Apesar de se manterem firmes no território da Indie Pop, os Chairlift mostram, com este segundo disco, uma maior maturidade e ambição. Indo buscar grande parte da inspiração para este álbum aos anos 80, mais propriamente à New Wave e ao Post-Punk anglo-saxónico de nomes como Talking Heads, Brian Eno ou até Devo, Polachek e Wimberly criaram, em Something, um álbum tudo menos banal, que consegue misturar de forma quase perfeita o encanto imediato da Pop com o desafio cerebral da música mais experimental.

Ao nível da produção, a cargo de Dan Carey e Alan Moulder, Something traz uma estética muito próxima da sonoridade dos anos 80; significa isto que, apesar de ser fundamentalmente polida e bem definida, não desdenha de algumas incursões num terreno mais abrasivo e “difícil”. No departamento lírico, dá-se a primazia aos temas introspectivos, surreais, e por vezes abstractos. Apesar de, em raras excepções, os Chairlift acabarem por escrever sobre clichés amorosos (como acontece em I Belong In Your Arms ou Take It Out On Me), não é nada que ponha em causa a qualidade das canções.

Na dinâmica das vozes, o que vemos em Something é um corte com o que foi feito em Does You Inspire You, com o desaparecimento quase total dos duetos entre Caroline e Patrick. Assim, assistimos a Caroline Polachek a assumir uma preponderância muito maior do que vimos em 2008, e notamos uma evolução (positiva) no registo da norte-americana. Mais doce, terna e até, por vezes, sedutora, Polachek consegue, com a sua voz, complementar de forma espantosa as linhas de baixo cheias de groove e os sintetizadores atmosféricos e tresloucados de Something.

Contudo, há alguns senãos neste LP. Apesar de ser um bom disco, Something falha, a meu ver, em manter a consistência ao logo de toda a sua duração, acabando por perder algum do seu apelo a partir da segunda metade. Essa falta de brio, aliada a uma certa homogeneidade que se torna, por vezes, um pouco excessiva, faz com que, apesar do potencial que promete, Something não atinja um patamar de excelência.

Na hora de escolher os pontos altos deste disco, a hipnotizante e enigmática Sidewalk Safari, a cerebral e cativante Wrong Opinion, a viciante e fresca I Belong In Your Arms, a gingona e quente Take It Out On Me ou a contagiante e convidativa Amanaemonesia, todas elas me enchem por completo as medidas. No outro lado do espectro, Cool As A Fire, Frigid Spring ou Turning são, a meu ver, as faixas menos conseguidas de Something.

Resumindo, com Something os norte-americanos Chairlift trazem-nos um disco que demonstra uma evolução notável no que à arte de fazer música diz respeito. Mais maduros, mais experientes e mais ousados, Caroline Polachek e Patrick Wimberly conseguiram assinar, em Something, um álbum de que podem ter orgulho. Pode não ser uma obra-prima, mas a sua audácia, a sua inovação e a sua qualidade no geral fazem com que este seja um belíssimo LP, e que garante entretenimento a todos os que gostam de experimental algo de diferente. Agora só espero que os Chairlift não demorem mais quatro anos a dar seguimento a este belo trabalho.

Nota Final: 8,0/10

João Morais

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Três EPês #1


Uma das grandes lacunas do MDC tem sido, desde o seu início, o número extremamente reduzido de críticas a EP’s (até hoje, foram apenas duas, e curiosamente foram ambas do mesmo artista). Apesar de pessoalmente eu continuar a preferir o formato longa-duração, reconheço que o blog tem passado ao lado de grandes pérolas em ponto mais pequeno, pelo que decidi criar uma nova rubrica dedicada exclusivamente aos Extended Plays.

Com um molde muito semelhante ao Curtas (tanto na regularidade – indefinida - como  na forma – mais sucinta), este “irmão mais novo” chamar-se-á Três EPês, e como o próprio nome indica, irá trazer três pequenas análises a EP’s a cada edição. Este é o seu primeiro "episódio", e eu espero que seja do vosso agrado.

 Onwards to the WallA Place to Bury Strangers (7 Fev)
- Três anos depois do último LP do grupo (Exploding Head, de 2009), este EP traz-nos cinco poderosas faixas deste grupo nova-iorquino. Pujante e cru, este Onwards to the Wall mostra uns A Place to Bury Strangers extremamente abrasivos, com uma distorção tão perfurante e animalesca que é capaz de dar uma volta ao estômago dos mais puritanos. Na produção, conseguimos ouvir uma wall of sound tão espessa e blindada que denuncia de imediato as influências Shoegaze dos A Place to Bury Strangers, num esforço que é capaz de deixar Kevin Shields orgulhoso. Resumindo, tirando pequenos detalhes que impedem o EP de ser perfeito, Onwards to the Wall é uma obra sólida que só abre o apetite para o próximo LP dos A Place to Bury Strangers.
Pontos altos:
- So Far Away
- Onwards to the Wall
- Drill it Up
Nota Final: 4,0/5
 Miúda MIÚDA (13 Fev)
- Compostos por Mel, Pedro Puppe (Oioai), Tiago Bettencourt e Fred (Orelha Negra), os MIÚDA começaram a criar burburinho no início deste ano, com a viral Com Quem Eu Quero, um delicioso tratado Indie Pop sobre independência e emancipação feminina. Seguiu-se, em Fevereiro, o lançamento deste EP, Miúda, que para além desse hit traz mais seis canções deste quarteto, e que prova que é no fértil solo da Indie Pop que as suas fundações estão lançadas. “Roqueiros” (Com Quem Eu Quero), baladeiros de piano (Enquanto) ou mais ligados à Electronica minimalista (Fluxo das Flores), estes MIÚDA trazem um EP com canções para todos os gostos, com letras simples e de índole alegre e juvenil (a lembrar os Best Coast, mas em melhor). Não posso dizer que tudo neste Miúda me tenha agradado, mas não posso deixar de dizer que, no geral, este é um bom EP de estreia. O download, gratuito e legal, é aqui.
Pontos altos:
- Com Quem Eu Quero
- Na Cidade
- Fluxo das Flores
Nota Final: 3,7/5
 LP EP Gobi Bear (19 Fev)
- Cantautor Folk oriundo de Guimarães, Diogo Pinto aka Gobi Bear estreou-se o ano passado com o lançamento do simpático Demo EP, que demonstrava uma clara inspiração em artistas como José González ou Bon Iver. Agora, em 2012, Gobi Bear traz-nos mais um EP, desta vez intitulado LP EP, e que contém uma colecção de 12 curtas canções que primam pela sua simplicidade e beleza. Amenas e suaves, as peças que compõem este LP EP mostram uma clara continuidade com a Folk despida e bucólica demonstrada em Demo EP, e fazem com que Gobi Bear seja um dos novos nomes a ter em conta no panorama musical português. É também de frisar que está aqui uma das minhas músicas favoritas de 2012 até agora, Meanwhile, que apenas peca por ser tão curta. Apesar de alguns (pequenos) defeitos, este LP EP consegue ser quase perfeito, e deixa muita água na boca. Para o download, legal e gratuito, cliquem aqui.
Pontos altos:
- Meanwhile
- Lebanon
- Emily
Nota Final: 4,5/5

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Mixtape da Semana // Week 14

Naquela que já é a sua 14ª edição, a Mixtape da Semana traz, mais uma vez, um sortido de canções destinadas a animar-vos por mais uma entediante e aborrecida semana. Hoje, voltámos a carregar no botão “random” e, foram estas as 10 peças que “saíram”. Destaque para a demolidora Sowing Season (Brand New), a fresca Young Hearts Spark Fire (Japandroids) ou a electrizante Last Day of Magic (The Kills).

Esta Mixtape conta com as seguintes faixas:
·         Sowing Season Brand New
·         L.S.F. (Lost Souls Forever) Kasabian
·         Young Hearts Spark Fire Japandroids
·         Caucasian Blues Jarvis Cocker
·         Triple Trouble Beastie Boys
·         Animal Nitrate Suede
·         VCR/Wheels Tyler, the Creator
·         Last Day of Magic The Kills
·         Bed For the Scraping Fugazi
·         Mouth Breather The Jesus Lizard


sábado, 31 de março de 2012

Discos com Graça: Fetus in Fetu

Mais do que música, trata-se de filosofia musicada. Com o intento assente em espantar, através do som, a parvulez do consumismo e do materialismo a que o mundo está sujeito, a banda bracarense fantasia-se, sempre na língua de Camões, por uma sonoridade arrepiante e bastante característica.

Nascido em Barcelos, em inícios de 2004, e com várias formações ao longo da sua vida, o grupo nortenho é, actualmente, um quarteto: Afonso Dorido [guitarra, voz e melódica], Jimmy [guitarra, voz, xilofone, órgão vintage e kazoo], Mateus [baixo e piano] e Ketas [bateria]. Foi este grupo de quatro pessoas que, em 2009, se reuniu para elaborar o seu primeiro LPFetus in Fetu.

Tendo como génese criativa a temática/problemática da mutação [não no seu sentido biológico], o quarteto nortenho acabou por edificar um álbum extremamente coeso, perspicaz e estonteante. O disco foi lançado em 2010 e centra-se no activismo social da banda.

Fetus in Fetu é um dos álbuns mais completos e «coloridos» que já ouvi. Com uma instrumentalidade bastante apetrechada de magia, o registo foi condimentado com 8 faixas e um «conto sónico» divido em três episódios, tendo um total de, aproximadamente, 46 minutos. Tendo como editora a Compact Records, o álbum conta com:

1.        Prenúncio  – O registo tem início com um Prenúncio do mesmo. Daqui podemos concluir que o álbum irá desenrolar-se à volta desta faixa, uma faixa vincada pela posição política ousada da banda. Carregado por uma forte componente intervencionista, o lirismo desta faixa veste-se nos tímpanos sem querer desnudar deles. Versos como «O capitalismo suicidou-se/ não há mais motivos para o combater» tornam-se, imediatamente, uma das imagens de marca de todo o registo. Com uma sonoridade bastante fria, enfatizada por momentos de explosão fruto do som de guitarras ensopadas em efeitos e distorção, fundindo-se na perfeição com a mensagem que os barcelenses pretendem passar, o álbum começa de uma maneira bastante positiva. Excelente.

2.       Curta-Metragem (a Espera/ a Saída/ a Efectivação)    Curta-Metragem é um conto sónico. Um conto com uma espera, com uma saída e com uma efectivação.

Tendo início com a Espera, o ouvinte é envolvido numa paisagem instrumental simplesmente fabulosa. Banhado por um ritmo e uma escala de notas que prendem incessantemente o ouvinte, somos «obrigados» a debruçar-nos no verso «Eu estou à tua espera no sítio do costumo/ na mesa ao fundo» e convidados a conhecer a Saída.

A Saída presenteia-nos com um mundo dominado pelos líricos, versos como «Saem poetas por aí/ à procura de um sonho que eu não vi» retratam isso mesmo. Uma visão, uma vez mais, política que a banda assume. Uma faixa que é revestida por metáforas, que se faz robusta pela tremenda muralha de distorção que se vai edificando ao longo dos 2 minutos de puro mergulho num lago ondulado por ventos caóticos do Post-Rock.  Seguidamente a esta experiência ofegante somos invadidos pelas notas musicais tocadas no final de Saída, e chega-nos aos nossos ouvidos a Efectivação.

Este episódio da saga da Curta-Metragem segue a saga pregada na Saída e o seu corpo ergue-se desalmadamente a cada segundo sob uma atmosfera absolutamente monumental. São simplesmente dois minutos em que a paisagem sonora entra em transe, provocando uma sensação única. Desaguando em riffs que conferem um ambiente sónico esquizofrénico, este episódio aparece-nos desprovido de lirismo. As palavras caladas esmiuçam o sentimento, e assim foi. Fazendo levitar o ouvinte numa camada sonora inospitamente intensa (ainda mais do que aquela que nos é presenteada em Saída), dão-se asas grandes à preciosidade instrumental dos Indignu e o tal conto sónico desenlaça-se de uma maneira categoricamente explosiva e arrepiante. Momento musical fabuloso. E, a meu ver, o ponto alto do álbum.

3.         Ouvidos de bigorna  – A faixa número cinco do registo, terceira se se tiver em conta o tal «conto sónico», é, a par de Isaque, a música mais simples e suave de todo o álbum. Sem grande história na génese instrumental e sem nenhuma espécie de lirismo, esta é uma faixa desconexa de toda a temática envolvente de Fetus In Fetu mas é uma peça musical que acaba por encaixar, de forma indirecta, perfeitamente no puzzle. Um dos motes do grupo barcelense para este seu primeiro LP era a temática da mutação [não enquanto significado biológico], e esta faixa, juntamente com a já referida Isaque, acaba por ser uma mutação do próprio registo. É uma variação brusca, que se fez repentinamente. Passámos de uma atmosfera absolutamente intensa, asfixiante e ofegante patenteada no conto sónico Curta-Metragem para uma atmosfera reinada pela suavidade da simplicidade. Passámos do 80 para o 8 sem nos ser explanado nada, como uma mutação dos próprios Indignu que se mutaram e calaram toda a sua raiva e descrença por um mundo domado pelos princípios animalescos do materialismo sob um império fustigado pela parvulez do consumismo. Trata-se de uma interpretação muito subjectiva, mas é assim que eu vejo esta faixa. Momento musical razoável mas analisando o registo pelo seu todo, acaba por funcionar de uma maneira extremamente bela. Assinalável.

4.    Carruagem dos Magistrados  – Tendo início numa nascente sonora bastante apelativa, esta carruagem vai ganhando velocidade e descarrila-se, uma vez mais, no meio de um arco-íris musical reinado pelas tonalidades do Post-Rock. Sob um lirismo simples e eficaz, a mensagem da música descodifica-se pelos versos  «Julgas ser rei e afinal nem trono tens para ocupar». Com momentos vibrantes de distorção (constante na música dos barcelenses), mostra-se todo a mestria instrumental de que são dotados estes barcelenses. Fantástico.

5.        Rafaela Rafaela é um caso peculiar do registo. Inicialmente dando presságio de uma paisagem sonora bastante calma e agradável [fazendo lembrar-me, em parte, a sonoridade mais detalhada e suave dos Mogwai], a composição musical vai-se desvanecendo em pequenos momentos de raiva até ao momento em que esta explode e é conferido um lado inóspito, vazio, gritante, e ofegante. Sob o alento de Jimmy e Afonso Dorido, a bateria de Ketas acaba por ser uma preciosidade ao longo desta faixa. Muito bom!

6.    Duzentas Promessas Por Um Mundo Melhor - Na faixa mais célebre do registo, Duzentas Promessas Por Um Mundo Melhor, os Indignu contam com a colaboração do poeta Valter Hugo Mãe e de Nuno Rancho. É sob o estro do conceituado poeta nortenho que os Indignu exponenciam, ainda mais, a sua música para outro patamar. Com Nuno Rancho na voz dá-se alento ao poderio instrumental dos barcelenses e arquitecta-se um dos grandes momentos do álbum. Simplesmente arrasador. Dá-se uma fusão crua e sem piedade entre a vertente instrumental, poética e vocal e condimenta-se uma sonoridade exímia. Soberbo.

7.         Choro de Saudade  – Mais uma vez sem vertente lírica, Choro de Saudade acaba-se por revelar um dos pontos menos bons do registo. Não que seja mau, pois está longe disso; no entanto, não se assume eximiamente com as restantes faixas de Fetus In Fetu. Oscilando entre partes mais suaves e partes mais agrestes, trata-se de uma música que é mergulhada num oceano de distorção. Razoável.

8.       Isaque  – A minha opinião sobre Isaque é sensivelmente a mesma opinião que tenho sobre Ouvidos de Bigorna. De realçar é que esta «mutação» ocorre antes de Suicida Oração, o término do registo.

9.          Suicida Oração  – O álbum termina com uma oração suicida. Agastados de edificarem um manifesto contra os rudimentos vigorantes de um mundo podre reinado pela idiotice dos princípios que recaem sobre o materialismo, sucumbem à derrota e dão-se por vencidos. Sob uma maré inóspita, deixam-se erodir no consumismo ao som de uma sonoridade que lhe é típica, a fazer jus a todo o registo. Lirismos simples apoiados na sua grandiosidade instrumental, uma combinação que, embora pouco complexa, combina maravilhosamente bem. Desenlace potentíssimo.

Envolvendo os ouvintes num arco-íris musical, onde as tonalidades do Post-Rock ganham vida e cor face a tudo o resto, cantam e tocam filosofias de uma maneira sublime e elucidando o ouvinte para o seu potencial gritante ao longo de todo este Fetus in fetu.

Abscônditos da ribalta por demasiado tempo, é agora que os Indingu se assumem como uma banda de destaque no panorama do Alternative Rock português. Radicados numa filosofia musicada que flui naturalmente, sem ser pré-fabricada, sem ser arquitectada, afirmam que «Indignu é todo aquele mundo que nos sufoca e corta as asas». Mas quem levanta voo acabam por ser os ouvintes, invadidos pela alma assombrosa com que o quarteto cessa a sua fome e o seu vomitar idealista. Agora, depois do lançamento da relíquia de Fetus in fetu, aguarda-se ansiosamente pelo seu irmão.

Este feto não morrerá, seguramente, sozinho.

Emanuel Graça

terça-feira, 27 de março de 2012

Mixtape da Semana // Week 13


Lamentavelmente atrasada mas indubitavelmente iluminada, a Mixtape da Semana número 13 está aqui para vos alegrar. Depois de uma edição escolhida pela mão dos The Kafkas, o MDC volta a tomar as rédeas da playlist, para mais uma random selection de 10 canções que me fazem vibrar. Destaque para No Pussy Blues (Grinderman), I Don’t Wanna Hear It (Minor Threat) ou Life’s a Bitch (Nas), canções na minha opinião obrigatórias nas escolhas desta semana.

Esta Mixtape conta com as seguintes faixas:
·         No Pussy BluesGrinderman
·         Tighten Up The Black Keys
·         I Don’t Wanna Hear It Minor Threat
·         Life’s a Bitch - Nas
·         Baby’s Arms Kurt Vile
·         Vanessa Grimes
·         Blue Ridge Mountain Fleet Foxes
·         Bad Day R.E.M.
·         Blinded By the Lights The Streets
·         Takyon (Death Yon) Death Grips



segunda-feira, 19 de março de 2012

Mixtape da Semana // Week 12 [The Kafkas]


Já na sua 12ª edição, a Mixtape da Semana de hoje traz-vos 10 escolhas que, pela primeira vez, não foram feitas por mim. É verdade, desta vez o MDC decidiu pedir aos The Kafkas (cuja entrevista ao blog pode ser vista aqui) para fazerem uma Mixtape, e o resultado está na lista que podem ouvir mais abaixo.
 
Sobre as suas escolhas, os The Kafkas disseram isto:
“Esta playlist faz um apanhado geral daquilo que andamos a ouvir nos últimos tempos. Apesar de não apresentar os temas mais actuais, são grandes músicas de artistas que nos influenciam muito. Gostávamos de destacar em especial o trabalho recente dos fabulosos Arctic Monkeys que, na nossa opinião, com os novos singles caminham em direcção ao lendário, Metronomy, e The Doups, que fizeram um dos nossos albuns nacionais preferidos.”

Esta Mixtape conta com as seguintes faixas:
·         You and IArctic Monkeys
·         We Broke FreeMetronomy
·         Blue Sunday The Doors
·         Book of Revelations The Drums
·         Carmensita Devendra Banhart
·         Because The Beatles
·         Scratching My FaceThe Doups
·         Velociraptor!Kasabian
·         Light Grenades Incubus
     ·         Gloria Mando Diao 


Para saberem mais sobre os The Kafkas:

domingo, 18 de março de 2012

Curtas #1


Como forma de ir “esvaziando” a lista de álbuns por analisar, e para evitar chegar ao final do ano com uma tonelada de críticas por fazer (foram “só” 70 discos em 15 dias no ano passado), o conceito do Curtas “recauchuta-se” e adapta-se a uma nova realidade e a uma nova função: sem regularidade pré-definida, este segmento destinar-se-á a trazer, em cada edição, 5 reviews em ponto pequeno. Os critérios para a escolha dos álbuns apresentados no Curtas serão sempre subjectivos e extremamente autocráticos, pelo que não se sintam tristes/ofendidos se por acaso um dos vossos registos favoritos aparecer por aqui.

Old IdeasLeonard Cohen (31 Jan)
- Seis anos depois do lançamento de Dear Heather (2004) chega-nos Old Ideas, que vem interromper o longo interregno a que o veteraníssimo Leonard Cohen se submeteu no que toca à gravação de álbuns. Neste disco, o décimo segundo da sua longa carreira, assistimos a uma colecção de 10 canções, maioritariamente conduzidas pelo piano e pela voz arrastada e característica de Cohen, numa abordagem que não destoa muito daquilo que o canadiano tem vindo a criar nos últimos de disco, de fusão da Folk com a música Gospel (bastante notória nos já familiares coros femininos que ouvimos ao longo de Old Ideas). No entanto, devo confessar que este disco não me impressionou muito (admito que no que toca a Leonard Cohen sou um nostálgico). Inconsistente e por vezes monótono, este Old Ideas é, a meu ver, um registo feito sobretudo para os fãs mais acérrimos.
Pontos altos:
- Going Home
- Come Healing
- Different Sides
Nota Final: 6,5/10

Beautiful Things Anthony Green (17 Jan)
- Na sua segunda aventura a solo o vocalista dos norte-americanos Circa Survive traz-nos um disco que mantém a Pop-Rock demonstrada em Avalon (2008), numa abordagem que mistura Indie Rock com Folk e Country, levando a uma identidade musical bastante distinta e agradável ao ouvido. Contudo, este Beautiful Things herda do seu sucessor o “lado fraco” da moeda, ou seja, a excessiva dispersão musical e a inconstância do álbum a longo prazo. Ao experimentar de tudo um pouco, Anthony Green dedica pouco tempo a construir uma obra mais sólida e mais coesa, e isso acaba por determinar que Beautiful Things seja, tal como Avalon, uma obra bastante mediana.
Pontos altos:
- If I Don’t Sing
- Can’t Have it All at Once
- Blood Song
Nota Final: 6,0/10

The Lion’s Roar First Aid Kit (23 Jan)
- Vindas da Suécia, as irmãs Johanna e Klara Söderberg estrearam-se nos LP’s em 2010, com The Big Black & The Blue, um álbum que recebeu alguma atenção por parte da crítica. Agora, as manas trazem-nos o seu segundo registo, The Lion’s Roar, que mantém o nível do antecessor, e que se revela uma experiência bastante agradável para os fãs de Indie Folk e Baroque Pop. Com uma sonoridade que pode ser vista como uma mistura de influências que vai desde Joanna Newsom (sem a voz “especial) a Fleet Foxes, The Lion’s Roar consegue ser, durante os seus 42 minutos, delicado e bucólico o suficiente para derreter os corações mais empedernidos. É certo que tem alguns defeitos (especialmente a partir da segunda parte do disco), mas consegue ser um LP delicioso.
Pontos altos:
- The Lion’s Roar
- I Found a Way
- King of the World
Nota Final: 7,6/10

Reign of TerrorSleigh Bells (21 Fev)
- Reign of Terror é o nome do sucessor de Treats (2010), e francamente, o segundo LP do duo norte-americano Sleigh Bells não podia ter um título mais apropriado. Vindo na mesma linha que o disco de estreia da banda, Reign of Terror é rico em riffs monstruosos (a lembrar as grandes bandas de estádio dos anos 80), distorção ao máximo e vocais muito pouco apelativos por parte de Alexis Krauss. Tudo isto junta-se para formar um estilo que na minha cabeça tem o nome de Glam Noise, uma mistela de espírito de High School americana (cheerleaders e matulões do futebol americano incluídos) com cacofonia em estado bruto. Quando eu pensava que o disco da Lana Del Rey tinha sido o pior que tinha passado pelos ouvidos em 2012 (podem ler aqui a review de Born To Die), este Reign of Terror chegou para desfazer as minhas certezas.
Pontos altos:
- True Shred Guitar
- Demon
- D.O.A.
Nota Final: 2,1/10

The Slideshow EffectMemoryhouse (28 Fev)
- Disco de estreia deste duo canadiano formado por Evan Abeele e Denise Nouvion, este The Slideshow Effect chega-nos com uma sonoridade Indie Pop calma e doce, entrando de mansinho e fazendo lembrar Twin Sister ou, em alguns momentos, Beach House. No entanto, apesar de ter uma aura geralmente agradável e aprazível ao ouvido, The Slideshow Effect sofre, a meu ver, de uma bipolaridade gritante, que faz com que, em termos de qualidade, pareça uma autêntica montanha-russa, com todos os seus altos e baixos. Ainda assim, este LP dos Memoryhouse não deixa de ser uma boa estreia, com uns momentos bastante interessantes.
Pontos altos:
- The Kids Were Wrong
- Heirloom
- Walk with Me
Nota Final: 6,2/10

sábado, 17 de março de 2012

Visions

Com uma curta carreira, iniciada em 2010, a canadiana Grimes pode gabar-se de ser uma artista bastante prolífica, tendo lançado já dois LP’s em nome próprio (Geidi Primes e Halfaxa, ambos em 2010) e um Split EP (Darkbloon, de 2011) em colaboração com d’Eon. Recentemente, no passado dia 31 de Janeiro, Claire Boucher lançou Visions, o seu terceiro disco de originais, que será hoje analisado no Música Dot Com.

Confesso que apenas recentemente ouvi falar de Grimes, uma jovem que tem gerado algum hype por entre os círculos da internet que se dedicam à música independente (Olá, Pitchfork!). Depois de ter feito o meu trabalho de casa e de ter escutado as obras que antecederam este LP, fiquei bastante agradado com a Synthpop experimental fortemente influenciada pela Electronica que Grimes teve para oferecer nesses 3 registos. Contudo, confesso que nada me preparou para o “embate” com Visions, um álbum que me impressionou e deixou-me a pedir por mais.

Com uma Synthpop atmosférica e etérea, Visions apresenta-se, a meu ver, como o melhor LP de Grimes até à data, com uma sonoridade que joga num equilíbrio entre a continuidade dos discos anteriores e uma abordagem mais arrojada e inovadora. Com uma Electronica claustrofóbica que consegue evocar de forma bastante eficaz ambientes negros e frios, Visions tem a capacidade de demonstrar, simultaneamente, um toque de revivalismo dos anos 80 e uma postura de Pop futurista.

Ao nível dos vocais, Grimes traz o seu já característico registo (extremamente) agudo, com uma voz tão fina e frágil que chega a ser fantasmagoricamente inquietante, e que revela influências da K-Pop sul-coreana. Ao nível da lírica, Claire Boucher, nas letras que consegui perceber através da voz desvanecida da cantora, aborda primordialmente temas bastante abstractos e surrealistas, numa tentativa sólida de estabelecer um universo sórdido e noire exclusivo da artista. No que toca à produção, levada a cabo pela própria Grimes, assistimos a um tratamento do som que mistura eficazmente a polidez e a crueza, numa estética que captura a aura dos anos 80 de forma (quase) perfeita.

No entanto, apesar de toda a sua qualidade, Visions não consegue, a meu ver, ser uma obra totalmente imaculada, tendo alguns defeitos que minam o desempenho geral do disco. A encabeçar a lista está, sem dúvida, uma homogeneidade um bocado excessiva e que infelizmente torna o álbum um bocado repetitivo depois de algumas audições. É certo que a coerência temática do LP é bastante positiva, mas confesso que Visions só teria beneficiado de um bocadinho mais de variedade nos sons explorados.

Outro problema que encontrei em Visions foi a inconsistência, com uma disparidade algo pronunciada entre as melhores e as piores canções do disco, e que a meu ver mostra algum laxismo e falta de trabalho nas peças inferiores. Esta inconsistência é mais notória sobretudo na segunda metade do álbum, com uma quebra de momentum evidente e que faz com que o LP pareça bastante bipolar e desigual. Contudo, estes “problemas” não conseguem ofuscar o brilhantismo que Grimes demonstra em Visions.

Na hora de destacar aquelas que são, para mim, as melhores faixas deste álbum, sinto-me compelido a indicar a electrizante Circumambient, a penumbrosa Visiting Statue ou a minha favorita, a sombria e contagiante Oblivion. No outro lado do espectro, Colour Moonlight (Antiochus), Symphonia IX (My Wait is U) e Skin são as faixas que aponto como inferiores neste Visions.

Em suma, ao terceiro LP a canadiana Claire Boucher tira da cartola um belíssimo disco, que é um autêntico tratado de inovação e ousadia na música Pop actual. Alternativa q.b. e sem nunca perder de vista a suas referências, Grimes cria em Visions o seu melhor álbum, e que eleva a fasquia para um patamar bastante elevado. É certo que algumas falhas aqui e ali impedem que esta seja uma obra-prima absoluta, mas a verdade é que a qualidade que encontrei neste LP faz com que Visions seja dos melhores e mais interessantes registos que já ouvi em 2012. Totalmente aprovado e largamente recomendado.

Nota Final: 8,4/10

João Morais

quinta-feira, 15 de março de 2012

Discos com Graça: Unknown Pleasures

A música dos Joy Division assemelha-se a um valente soco num estômago vazio de tão penetrante que consegue ser.

Corria o ano de 1979 e alastrava-se, pelas rotinas britânicas, o tédio pela vida. No quotidiano, vivia-se uma monotonia tal que fazia imergir a vontade antiética de tudo mudar, assim, num ápice. Enquanto bandas como os Sex Pistols decidiam dissipar todo o seu tédio e raiva através de uma música mais agressiva com saliências ousadas da rebeldia característica do movimento Punk, como foi patenteado no lendário Never Mind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols, o quarteto proveniente de Manchester decidiu-se por despejar toda a sua angústia através de uma música mais calma, com uma batida mais suave e emocional, alicerçada na importância que a linha de baixo e a bateria adquiriam face à tradicional guitarra. Característica que ajudaram a definir o movimento Post-Punk.

Num álbum genial, a banda encabeçada pelo lendário génio de Ian Curtis edificou uma musicalidade única: Stephen Morris [baterista] ia repetindo, quase sempre, a mesma batida ao longo de cada faixa. Bernard Sumner [guitarrista] cedia à timidez, propositada, e permitia que Peter Hook [baixista] ganhasse o protagonismo no que toca à génese instrumental, fazendo com que a linha-de-baixo soasse mais [e melhor] do que nunca. Já a voz, entregue a Ian Curtis, que se perdia no querer contínuo de se encontrar a si mesmo e de descobrir o significado da sua ignóbil existência, essa soa-nos, quase sempre, triste e depressiva.

De facto, a musicalidade dos Joy Division era bastante simples, assim como quase toda a música que nasceu do seio do movimento Punk, mas é um som que, à primeira vista, nos pode soar estranho. Efectivamente, este é um daqueles casos onde se pode aplicar o dito «Primeiro estranha-se, depois entranha-se».

A atmosfera que envolve Unknown Pleasures é uma das coisas mais intrigantes e belas que já ouvi. Recuando a Junho de 1979, o registo foi arquitectado com 10 faixas, tendo um total de 39 minutos e 24 segundos. Tendo como editora a Factory Records, o álbum conta com:

1.       Disorder – O registo tem início com Disorder, uma grande canção, se bem que não muito elaborada. Iniciando-se na bateria, sempre com uma batida simples, a música vai desaguando nos riffs melódicos e frios por parte de Peter Hook e Bernard Sumner. O som aparece-nos envolto num ambiente descontraído, decorado por uma paisagem que nos soa alegre até que o vocalista, sofredor de musicofilia, começa a cantar. O LP tem início com o verso «I’ve been waiting for a guide to come and take me by the hand/ could these sensations make me feel the pleasures of a normal man?». Este tema trata-se, garantidamente e na minha opinião, de um dos mais «acessíveis» da discografia dos Joy Division, e é possível relacionar o nome do registo com o verso acima referido, pois trata-se de prazeres desconhecidos para Ian. A partir deste ponto, podemos concluir uma série de coisas acerca daquilo que se pode esperar deste LP: o álbum soará, seguramente, a um aligeirado grau de egocentrismo por parte da pessoa de Curtis. A vida do cantor encontra-se numa desordem tal que este, apesar de ser uma pessoa normal, não consegue sentir os prazeres que alguém «normal» consegue sentir. Por outras palavras, a vida de Ian devaneava-se por uma equação cuja incógnita - o prazer - teimava em manter-se ábdita. Excelente início.

2.       Day of the Lords – A faixa número 2 do registo regista um ritmo menos acelerado do que a primeira, Disorder, mas mais pesado. Uma música hipnotizante, agressiva, depressiva e obscura fazendo-me lembrar, em parte, Black Sabath. O momento central da faixa, o verso «Where will it end?» é acompanhado por um sintetizador, o que confere uma paisagem abscôndita pela incerteza oca de Ian em querer exumar todo o que existe para ser desenterrado. Um dos grandes momentos do álbum, fenomenal.

3.       Candidate – Enfatizando a importância da linha de baixo e da bateria, a guitarra, talvez devido à peculiar produção de Hannett, soa-nos muito distante ao longo de toda a faixa. Focando-me na parte instrumental, acho muito positiva nesta música a ligação baixo-voz, que combina extremamente bem com o conteúdo da vertente lírica que compõe a música. Com um lirismo sempre sublime, Ian Curtis relata-nos as artimanhas fracassadas de um político frustrado. Razoável.

4.       Insight – Na minha opinião, uma das músicas mais complexas que o quarteto nos ofereceu. Não é fácil estar a falar deste tema, pois é rico em pormenores. Semelhante a 24 Hours, decorada com um ambiente sombrio, fruto da voz de Ian, sempre intrigante e misteriosa, esta faixa vai ao encontro instrumental, a meu ver, de Disorder, sofrendo um pequeno abrandamento em termos de rapidez [algo evidente na bateria de Morris]. O momento mais «estranho» da música aparece-nos quando somos «atacados» por um ruído futurista de instrumentos electrónicos, numa invasão cujo contexto eu não consigo entender muito bem. Contudo, acho que se trata de um belo momento musical.

5.       New Dawn Fades – Muito possivelmente a minha música favorita de todo o álbum, New Dawn Fades é uma faixa onde sobressai o carácter depressivo, melancólico, triste, genial e único do vocalista da banda. Acerbado por uma certa abulia, canta com acérrimo o possível excídio do seu «eu». Com um estro inigualável, recorre à sentença da sua voz e exsurge-se para abluir a sua alma. Com uma instrumentalidade exímia, especialmente quando a voz de Ian se intensifica mais [provando que não é preciso ter grandes dotes vocais para se ser um grande cantor], a faixa aparece imersa de emoção num oceano de encantos e desencantos. Divinal.

6.       She’s Lost Control – Condimentado de uma maneira peculiar, She’s Lost Control é a música mais célebre de todo o registo. Com Peter Hook a brilhar, devido à linha de baixo que, uma vez mais, está absolutamente arrasadora, Ian Curtis conta-nos a história de uma rapariga que ele conhecia que sofria de ataques de epilepsia, tal como ele. Quando Ian tinha um ataque, sentia que aquelas pequenas fracções de tempo podiam ditar o seu fim, podiam ditar com que ele perdesse o controlo sobre as coisas. Eram como fenómenos sobrenaturais, os quais o homem comum e mortal não pode estropiar. Era algo para além dele, assim o entedia, Ian. Versos como «Confusion in her heys that says it all/ she’s lost control» são exemplo disso. Clássico genial.

7.       Shadowplay – Outra relíquia do registo é esta Shadowplay. Iniciando-se de uma maneira simples e calma, acaba por sofrer uma inversão abrupta, aos 30 segundos, e transforma-se num vomitar de agressividade abstruso estropiado pelo riff enérgico de Bernard. A cada verso que é decifrado existe sempre uma interjeição por parte do guitarrista, o que acaba por funcionar muitíssimo bem. Acabando por acatar uma funcionalidade meramente atmosférica, a guitarra vê aqui o seu ponto alto em relação a todo o álbum. Nesta faixa é visível uma face mais Punk dos Joy Division: Arrojo musical simples, agressivo, fúria pessoal. Muitíssimo bom.

8.       Wilderness – A música mais sombria e inóspita de todo o álbum. Cercada pelo mistério e por uma linha de baixo sempre agradável, a banda leva o ouvinte a nidificar-se no verso «What did you see there? /The power of glory and sin,/ What did you see there?/ The blood of Christ on their skin.». Beleza intrigante.

9.       Interzone  Interzone acaba por se revelar o expoente de maior grau da face Punk dos Joy Division. Uma música rápida, conferida por uma paisagem alegre [com excepção para o lirismo, que é regular ao longo de todo o registo: sempre triste, penetrante e sublimemente genial]. Nesta faixa é constatável o aparecimento nos vocais de Peter Hook. Bom momento musical.

10.   I Remember Nothing – Uma das minhas músicas favoritas de toda a discografia do quarteto de Manchester acaba por ser a peça que serve de desenlace ao Unknown Pleasures. Uma música com um ambiente muito dark, intrigante e assustador. A voz de Ian aparece-nos melhor do que nunca, tornando visível o abscôndito, abecedando cada letra que canta, esquivando-se do desprazer naqueles escassos 6 minutos, efeminando a dor que havia em si, dando vida ao seu ego ábio. Inicialmente lenta [como quase sempre até aqui], a música vai acelerando e ganhando ritmo. Nesta música, devido à produção, a voz de Ian parece soar mais forte que tudo, penetrando no ouvido do ouvinte a cada palavra cuspida. Penetrante e fantástico final.

O som do quarteto produziu uma ruptura com os padrões musicais da época e até hoje influencia fortemente bandas que produzem música alternativa. O baixo sempre predominante na estrutura das músicas, os ruídos pausados das guitarras, a introdução de elementos sintéticos na textura instrumental e a voz singular de baixo-barítono inovaram tanto que o que se seguiu foi fortemente influenciado por Joy Division.

Pautado por um lirismo soberbo, por uma sonoridade bastante característica e por uma atmosfera genialmente sombria, Unknown Pleasures é um dos álbuns da minha vida. Aliás, Unknown Pleasures não é meramente um álbum, é uma história. É parte da história de Ian Curtis, o cantor, poeta e filósofo que encarava a vida de uma maneira única, não se sujeitando à verdade vista pelos olhos dos outros e batalhando incessantemente por distorcer essa insensível verdade. É parte da história daquela marioneta demente que fervia de emoção enquanto cantava. Ian esmiuçava-se, literalmente, na busca de encontrar a verdadeira essência do seu «eu» através da música. Conseguia-o com a ajuda dos seus três amigos Peter Hook, Stephen Morris e Bernard Sumner.

Obrigando o ouvinte a deambular-se por recintos sombrios, incertos e intrigantes [recintos, esses furto, em parte, da produção encabeçada por Martin Hannett], Unknown Pleasures trata-se de um disco extremamente penetrante, triste, persuasivo e belo.

Sem mais retórica, rendam-se aos prazeres desconhecidos.

Emanuel Graça