terça-feira, 8 de maio de 2012

Discos com Graça: Ten

Corria o ano de 1991 e o panorama musical americano via-se mandingado pelo fenómeno Grunge, que despertou no início do 90’s. Bandas como Nirvana, Soundgarden, Alice In Chains, entre outras, iam crescendo na cidade de Seattle, dando início a um marco que influenciou, indubitavelmente, uma série de gerações. Celebravam-se doses altíssimas de sarcasmo, angústia, apatia com a vida e um imenso desejo pela liberdade. Incrassava-se a rebeldia juvenil que se via, incessantemente, a ser combalida por uma vida demasiado monótona que ia, a cada dia, desdourando os sonhos dos jovens americanos. Todo este espírito de revolta que avassalava esta geração pode ser categorizado como o espírito que serviu de génese para o movimento Punk. De facto, o Grunge é uma mistura complexa que se alicerça, e em muito, no Punk.

O Grunge é, musicalmente, um Alternative Rock que se funde com os ideais de Punk e é pintado por tonalidades agrestes de um Post-Harcore ou de um Heavy Metal comedido. Enquanto bandas como, por exemplo, Alice In Chains e Soundgarden decidiram explorar mais a sua vertente Heavy Metal, outras descaíram para outros rumos, menos latebrosos e mais apelativos. Falamos, por exemplo e mesmo a propósito, dos Pearl Jam.

Os Pearl Jam provêm dos célebres Mother Love Bone, banda do mítico Andrew Wood. Após a separação dos MLB, Jeff Ament e Stone Grossard juntaram-se com Dave Krusen, Mike McCready e o carismático Eddie Vedder e formaram, então, os Pearl Jam. Estávamos em 1990 e viviam-se os tempos primordiais da banda.

Comandados pela voz emblemática, bela e maravilhosa do ínclito Eddie, sob os riffs viscerais de Stone e Mike, sob a atmosfera intrigante provocada por uma bassline interventiva a cabo de Ament e embriagados por uma bateria, ao encargo de Krusen, que se parece querer comburir nas paisagens ardentes que se vão pintando ao longo do registo, chega-nos, em 1991, o primeiro LP da banda norte-americana. Eram tempos de Ten. Concitava-se o movimento Grunge num grito de rebeldia, o seu primeiro, que se alentava por não querer deixar passar ninguém incólume. Ten foi condimentado meses antes do auge do Grunge, auge, esse, assinalado pela lenda incontornável de Nevermind, álbum lançado pelos Nirvana em Setembro de 1991.

Num álbum absolutamente soberbo, a banda, liderada por Eddie Vedder, edificou uma das obras-primas mais belas que tive a oportunidade de ouvir. Datado de Agosto de 1991, Ten foi arquitectado com 11 faixas e conta com um total de, aproximadamente, 54 minutos. Condimentado na língua de Shakespeare e tendo como editora a Epic, a produção ficou encarregue a Rick Parashar. Vamos, então, proceder à análise deste monstro da época dos 90’s.

O registo tem início com um uma introdução arrepiante, dando presságio para fazermos uma vénia, que vem aí uma coisa do outro mundo. É Once que nos chega aos ouvidos. Ensopada por riffs que nos datam os tempos áureos do Hard Rock, somos, de imediato, enfeitiçados pela magia que se esconde nas cordas vocais de Eddie Vedder. Acerca da vertente lírica que compõe esta faixa, pode-se dizer que ela incide em temas como, por exemplo, o suicídio.

Sempre com um lirismo bastante instruído, a banda de Seattle aborda, ao longo de todo o registo, temáticas centradas em sentimentos menos bons. De facto, Eddie Vedder, o cerne da génese para as criações líricas dos Pearl Jam, é um songwriter que explora a sua vertente mais instrospectiva, abordando temas como a solidão, depressão, o seu ego que se vai revelando ábio, ou problemas de carácter mais social, como críticas constantes aos políticos. A segunda faixa do registo, e um dos grandes êxitos da banda, Even Flow, é uma crítica às políticas americanas.

Contudo, é nas suas vivências pessoais que Eddie mais incide para escrever. O mega-êxito Alive é o maior exemplo disso. Alive, a terceira faixa do registo, é nada mais do que uma canção biográfica que nos revela a raiva e frustração de Vedder por este ter vivido grande parte da sua vida enganado, iludido na mentira do seu padrasto ser o seu pai biológico. Espelha-se um dos grandes momentos do álbum quando se escuta esta faixa, onde tudo parece estar numa perfeita e artística simbiose. Vocais de excelência a fundirem-se com uma instrumentalidade demolidora, num momento amplamente complanado por riffs que nos compelem uma vontade imensa de descodificar o que se perde na paisagem apetrechado do ludro, fruto dos versos intrigantes de Vedder. Momento sublime.

Outro dos momentos do álbum é a sensacional Black, a balada do registo. Conferida por uma sonoridade calma e bastante agradável, é nesta faixa que, em meu ver, mais imerge o génio de Vedder. Liricamente, é aqui que Eddie exsurge-se com egrégio vate. Somos invadidos por uma composição lírica laudativa e abrasados pela voz icónica e jamais irrepreensível de Eddie Vedder. O momento que assinala a passagem «I know someday you'll have a beautiful life/ I know you'll be a star/ in somebody else's sky/ but why?/  why?/ why can't it be/ can't it be mine?» é absolutamente assombroso. Black é, tal como um sonho mágico, incorpóreo de tão grandioso que consegue ser.

Seguidamente chega-nos Jeremy, um dos clássicos mais vincados da banda. Assinalando um excelente momento musical, Jeremy conta-nos a história de um rapaz que se suicidou durante uma aula porque era constantemente troçado pelos colegas e pelo professor. O vestígio lírico que salienta este aspecto é a constante invasão que nos é feita com o verso «Jeremy spoke in class today», e falou num grito rebelde, fustigado pelos maus tratos de que era vítima. Só assim lhe seria dado descanso, uma espécie de alerta que os Pearl Jam fazem ao sentido cívico nas escolas.

Outro dos pontos dignos de grande realce do registo, surge-nos com Garden, uma das minhas músicas favoritas da discografia dos Pearl Jam. A meu ver, esta faixa é um pouco semelhante a Alive, pois é musicada seguindo os mesmos padrões: riffs monstruosos a ebulirem com a emoção com que Vedder enche os seus pulmões para soltar gritos viscerais, e que nos vão concitando ao longo deste pedaço musical. Envolto por um lirismo rico, não fosse Eddie quem tivesse escrito este Garden, este jardim é regado pelas melhores fontes, e colorido pelas flores mais belas sob uma atmosfera de céu cinzento e tarde chuvosa, com o vento a soprar forte. Perfeito.

Depois de Garden, chega-nos a melancólica Deep, a música que, na minha opinião, é a mais emotiva e pesada de Ten. Desde os gritos estridentes de Eddie, à sonoridade apetrechada pela noção do incôndito e da entropia, da desordem pura. Com pequenos aromas de Post-Hardcore ou Hard Rock, esta é a música mais Grunge de Ten. Um trecho musical bastante apetecível e de audição obrigatória.

O meu momento favorito do registo é Release, a faixa que serve de desenlace para Ten. À medida que o elóquio de Eddie se vai descingindo por uma conversa com o seu pai, este vai-se enchendo de emoção e fervendo de sentimento a cada nota musical que é tocada. Ao longo deste pedaço musical, existe uma voz, a voz de Vedder, a implorar por perdão. Não invoca um perdão de Deus, ou de uma entidade celestial, implora apenas o perdão do seu pai biológico por ter chamado ‘pai’ ao padrasto. Ao longo da faixa, o ouvinte é levado a levitar por paisagens reinadas por questões morais e retóricas que Vedder vai fazendo a si próprio. Além de genial, esta faixa é, também ela, bastante penetrante. O registo termina com uma obra de arte, uma das preciosidades de toda a década de 90.

Em compêndio, Ten é um álbum que prima em todos os níveis. Desde a componente instrumental à componente vocal, desde os lirismos soberbos à alma com que Vedder extravasa emoção, trata-se de um LP que faz parte dos meus discos favoritos de sempre. Apesar de conter momentos musicais que não me dizem grande coisa, como por exemplo Oceans, Why Go ou Porch, todos os defeitos são aniquilados quando escutamos faixas como Black, Garden ou Release.

Sem desdourar com o passar do tempo, e com o pesar dos 90’s na bagagem, Ten é daqueles discos que merece e vale a pena ouvir inteiramente desde o início ao fim, porque é um regalo para os nossos ouvidos a todos os níveis. Sem mais retórica, é hora de o escutar.

Emanuel Graça

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Mixtape da Semana // Week 18

Como forma de vos ajudar a aguentar mais uma semana fatigante o Música Dot Com traz-vos, mais uma vez, a Mixtape da Semana, que, na sua 18ª edição, traz-vos dez novas músicas de grande qualidade.

A temática da playlist de hoje é “energia”, pelo que as escolhas de hoje são todas rápidas, frenéticas e contagiantes. Com nomes como Jay Reatard (Blood Visions), The Raconteurs (Salute Your Solution) ou Feromona (Mustang), esta é mais uma Mixtape a não perder.

Esta Mixtape conta com as seguintes faixas:
·         Blood VisionJay Reatard
·         Go with the FlowQueens of the Stone Age
·         Salute Your SolutionThe Raconteurs
·         Great Expectations The Gaslight Anthem
·         Sex Pistols EMI
·         White Limo Foo Fighters
·         Mustang Feromona
·         Just Like Heaven Dinosaur Jr.
·         All Along the Watchtower Jimi Hendrix
·         We Were Aborted The Cribs

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Mixtape da Semana // Week 17

Na edição número 17 da Mixtape da Semana o Música Dot Com traz-vos uma selecção bastante variada e aleatória, para vos alegrar a noite de Segunda-Feira e o feriado do 1 de Maio. Com peças riquíssimas, como My Country (tUnE-yArDs), Arcarsenal (At the Drive-In) ou Not a Crime (Gogol Bordello), esta é mais uma playlist que não vão querer perder.

Esta Mixtape conta com as seguintes faixas:
·         My Country tUnE-yArDs
·         Nightcall Kavinsky (ft. Lovefoxxx)
·         Found Love in a GraveyardVeronica Falls
·         Rooster Alice in Chains
·         Good Time Boy Buffalo Springfield
·         A Commotion Feist
·         Heart Cooks Brain Modest Mouse
·         Not a Crime Gogol Bordello
·         Blue Cassette Friendly Fires


quarta-feira, 25 de abril de 2012

Young & Old

Formados em 2010 por Alaina Moore (voz/teclados), o seu marido Patrick Riley (guitarra) e o “pau-de-cabeleira” James Barone (bateria), os Tennis são um trio de Indie Pop norte-americano que atraiu considerável atenção no início de 2011 com o seu primeiro LP, Cape Dory. O seu segundo disco de originais, Young & Old, surgiu mais ou menos um ano depois, a 14 de Fevereiro, e é dele que vamos falar hoje.

Faço aqui um mea culpa no que toca ao “desprezo” a que releguei o primeiro álbum dos Tennis, Cape Dory, mas acreditem, foi por um bom motivo que o fiz; “esquecível”, “descartável” ou “vulgar” são apenas alguns dos adjectivos que eu poderia usar para descrever a (mediana) estreia em longa-duração deste trio oriundo do estado do Colorado.

Porém, a verdade é que o hype não abandonou os Tennis, tendo até se intensificado com o lançamento do segundo LP, pelo que tive de me resignar e parar de “evitar” esta banda e ouvir o disco. Contudo, não posso dizer que tenha ficado muito feliz com o resultado; em Young & Old os Tennis trazem-nos mais do mesmo, e convenhamos que isso não é nada de espectacular.

Mantendo a mistura de vocais adocicados e reverberados de Moore com as guitarras frescas e upbeat de Riley e a bateria simples e básica de Barone que tanto furor fez em Cape Dory, Young & Old consegue preservar a sonoridade veraneante, juvenil e alegre do primeiro disco, mostrando um sentido de continuidade. Contudo, a adição de uma miríade de sintetizadores e teclados vem adicionar uma nova textura ao som dos Tennis, numa tentativa de, quiçá, quebrar o molde deixado em Cape Dory. Na produção, nas mãos de Patrick Carney (baterista dos The Black Keys) também notamos uma certa melhoria em relação ao primeiro disco, com a estética a tornar-se mais profunda e densa.

Porém, a lista de defeitos de Young & Old é tão extensa que faz com que este disco não vá, na minha opinião, muito além daquilo que os Tennis fizeram no seu antecessor. A começar, a homogeneidade extrema, praga recorrente do primeiro LP, volta aqui a atacar em força, fazendo com que quase todas as canções se parecessem cópias umas das outras (com essas “cópias” a soarem-me demasiado inspiradas na estrutura e estilo de Be My Baby). Para essa homogeneidade contribuem também os “recém-chegados” sintetizadores, que apesar de parecerem ao início uma lufada de ar fresco, acabam por imprimir em todas as canções a mesma marca, como se Moore tivesse acabado de aprender a tocar teclados e quisesse mostrar ao mundo os seus progressos.

Outro problema que afecta, a meu ver, este Young & Old é a vulgaridade do som dos Tennis, algo que se mantém desde o primeiro disco. Não sou, de maneira nenhuma, um paladino extremista da criatividade permanente, mas a verdade é que este LP apresentou-me um Indie Pop que se tornou demasiado recorrente e batido para eu conseguir retirar dele uma experiência muito positiva. Na verdade, tal como aconteceu com Cape Doris, em Young & Old pareceu-me que os Tennis se limitaram a repetir velhas fórmulas e clichés, sem mostrar nenhum laivo de identidade própria notável. Todas estas falhas, aliadas a uma inconsistência que faz com que o álbum pareça uma autêntica montanha-russa, ajudam a que Young & Old não me tenha apelado muito.

Na hora de escolher as melhores faixas, a açucarada e terna It All Feels the Same, a groovy e quente Origins, a “summer-y” e sumarenta Traveling, a contagiante e dançável Robin ou a cavalgante e fervilhante High Road revelam-se como temas Pop encantadores capazes de conquistar corações. Contudo, no outro prato da balança, peças como My Better Self, Petition, Dreaming ou Take Me to Heaven mostram o lado menos talentoso dos Tennis, e puxam Young & Old para uma mediocridade extrema.

Sumarizando, Young & Old revela-se como um álbum extremamente mediano, que acaba por se ver dependente de clichés e tiques Indie Pop vulgares e derivativos. Mostrando pouquíssima evolução em relação ao que demonstraram há um ano atrás, com Cape Dory, os Tennis conseguem, ainda assim, demonstrar jeito para as canções catchy e divertidas. Porém, a constante repetição e a monotonia que daí deriva fazem com que Young & Old não seja, para mim, mais do que um disco no meio-termo entre o bom e o mau. Enfim, fica para a próxima.

Nota Final: 5,0/10

João Morais

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Mixtape da Semana // Week 16 [Emanuel Graça]


Já na 16ª edição, a Mixtape da Semana de hoje conta com as escolhas do Emanuel Graça, colaborador aqui do MDC (autor da rubrica Discos com Graça), redactor no Espalha Factos e no Bandcom e blogger no seu próprio espaço, o mui simpático Um Ninho de Cucos.

Ficam aqui as palavras Emanuel acerca da sua Mixtape:
“Recorrendo ao botão “aleatório” das faixas mais executadas do meu Windows Media Player, esta playlist apresenta-se como uma selecção de faixas muito apelativa para os amantes da música alternativa. Encabeçada por nomes consagrados do mundo alternativo como, por exemplo, Sonic Youth, esta playlist apresenta-nos, também, um nome que tem vindo a emergir no panorama Indie, os Yuck, que nos apresentam, nesta agradável selecção musical, a sua bela Rubber. Destaque também para duas faixas que constam na minha lista de músicas favoritas de sempre, sendo elas Dead Souls (Joy Division) e So Real (Jeff Buckley).”

Esta Mixtape conta com as seguintes faixas:
·         I Got MineThe Black Keys
·         The New - Interpol
·         StonesSonic Youth
·         The RatThe Walkmen
·         GroundedPavement
·         Dead Souls Joy Division
·         I’m Jim Morrison, I’m DeadMogwai
·         RubberYuck
·         I Just Don’t KnowRadio Moscow
·         So Real Jeff Buckley

sábado, 21 de abril de 2012

fIN

No “activo” desde 2009, foi apenas no ano seguinte, com Sunshine, que o catalão John Talabot começou a ganhar nome na cena da música Electronica, tendo atraído comparações com o canadiano Caribou. Pois bem, depois de mais alguns singles, chega-nos agora o début em longa-duração de Talabot, ƒIN, editado através da Permanent Records e lançado 14 de Fevereiro.

Admito que, até há bem pouco tempo, eu vivia na mais perfeita ignorância no que a John Talabot e à sua obra dizem respeito. Contudo, depois do hype tremendo à volta de fIN e de algumas reviews bastante favoráveis por parte de críticos que respeito bastante (mais propriamente, The Needle Drop e o The Guardian), fiquei decidido a ouvir este misterioso álbum do DJ e produtor catalão, tendo ficado muito espantado com o resultado; em poucas palavras, fIN é um verdadeiro regalo musical.

Uma das coisas que se destaca de imediato em fIN é o seu tom hipnótico e intimista, que se faz sentir ao longo de quase todo o disco. Através da sua House minimalista e de uma instrumentação electrónica subtil e cerebral, John Talabot consegue criar um álbum bastante desafiante e bem-pensado. Contudo, não se pense que em fIN o produtor catalão renega por completo o lado mais “físico” da House; com recurso a ritmos e melodias extremamente contagiantes e infecciosas, que conferem ao LP um groove e um chamamento da dança inegáveis, Talabot revela um jogo de equilíbrios notável, que faz com que fIN nunca cai em extremos.

Ao nível estético, Talabot traz-nos um disco que mostra uma aposta clara numa sonoridade angular e pouco polida, mas que ainda assim se recusa a entrar no campo do abrasivo, ficando confortavelmente num meio-termo muito bem conseguido entre o “cru” e o “bem-sonante”. Ao nível da produção, a conjugação dos samples com os sintetizadores e com os beats electrónicos é muito bem conseguida, fazendo lembrar o trabalho desenvolvido por Caribou em Swim (2010).

Na voz, o que vemos em fIN é um uso da mesma para fins unicamente musicais e sonoros, algo demonstrado pela aplicação de filtros e efeitos como o vocoder ou o reverb, que tornam impossível de perceber quase todas as letras (se é que as há). Esse detalhe faz com que as vozes complementem de forma perfeita o tom geral do álbum. Em suma, fIN está cheio de qualidades, que fazem com que este seja um disco que se queira ouvir repetidas vezes.

Contudo, nem tudo está perfeito neste LP de Talabot. A encabeçar a lista dos defeitos está, com certeza, a homogenia in extremis que fIN nos apresenta, que se pode tornar enjoativa para alguns. Essa sensação de “déjà vu interno”, aliado a uma certa inconsistência que se faz sentir em alturas pontuais do disco não fazem, no entanto, com que fIN deixe de ser um belíssimo disco.

Na hora de escolher aquelas que são, para mim, as melhores faixas deste álbum, a suave e efervescente Destiny, a sombria e contagiante Oro y Sangre, a estrondosa e viciante Last Land, a cerebral e apelativa When the Past Was Present ou a fria e espantosa So Will Be Now… surgiram-me de imediato no pensamento como os pontos mais altos de fIN. Quantos às de que menos gostei, Depak Ine, El Oeste ou H.O.R.S.E. são, a meu ver, as peças que se destacam pela negativa.

Em suma, com um groove viciante e umas melodias cerebrais e irresistíveis, fIN é um belo tratado de música House bem pensada e de muito bom gosto. Com um sentido estético admirável, ambientes calmos e relaxantes e um irresistível apelo para a dança, este LP mostra-nos também um Talabot bastante seguro de si, e digno de todo o hype com que tem sido bombardeado. Pode não ser uma obra perfeita, mas fIN faz com que fiquemos à espera para saber mais deste produtor catalão.

Nota Final: 8,7/10

João Morais

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Música Nova: Opium Club

Eles são quatro, vêm de Setúbal e praticam “Sardine Rock” (seja lá o que isso for). Ró Neubauer, Alex Swag, Bruno Lemmy, Mary Agnes e Agnes Eiffel (tudo nomes artísticos de alto gabarito) são os integrantes dos Opium Club, grupo que cita, entre muitos outros, The Velvet Underground, Best Coast ou Gossip como influências.

O resultado é Hitchcock, primeira canção divulgada pelo grupo (gravada em colaboração com O Cão Da Morte), e que mostra uma sonoridade Indie Pop e Lo-Fi , letras provocadoras e juvenis, vocais lânguidos, uma estética despreocupada e um ambiente trippy e quente. Pode saber a pouco, mas Hitchcock serve como um belo cartão-de-visita dos Opium Club, uma banda à qual vamos querer estar atentos.

Para saberem mais sobre os Opium Club e poderem ouvir/sacar a canção Hitchcock:

terça-feira, 17 de abril de 2012

Mixtape da Semana // Week 15

Depois de uma semana de (merecidas) férias, a Mixtape da Semana está de volta em força, regressando com mais dez das melhores canções que vos vão passar pelos ouvidos durante esta semana. Mais uma vez escolhidas ao acaso, as faixas desta 15ª edição têm como autores nomes tão ilustres como Battles (My Machines), Minutemen (Corona) ou The Brian Jonestown Massacre (Servo).

Esta Mixtape conta com as seguintes faixas:
·         My Machines The Battles (feat. Gary Numan)
·         Trembling Hands Explosions in the Sky
·         We Care a Lot Faith No More
·         Good Days Bad Days Kaiser Chiefs
·         Corona Minutemen
·         Tambourine Girl Ringo Deathstarr
·         Servo The Brian Jonestown Massacre
·         Lazy Eye Silversun Pickups
·         New Slang The Shins
·         No Kind Words The Maccabees


domingo, 15 de abril de 2012

The Horror

Quarteto nova-iorquino nascido em 2008, os Pop. 1280 lançaram em 2010 o seu primeiro EP, The Grid, registo que demonstrava uma interessante mistura de Post-Punk com New Wave. Agora, dois anos depois, os Pop. 1280 chegam até nós com o seu primeiro LP, The Horror, editado a 24 de Janeiro, e que será analisado aqui, no Música Dot Com.

Tirando o facto de estarem na Sacred Bones (uma interessante editora independente, que conta também com The Men e Zola Jesus), de virem de Nova Iorque e de afirmarem como uma banda de Cyber Punk, pouco se sabe acerca do grupo de Ivan Lip, Chris Bug, Zach Ziemann e Pascal Ludet. The Grid, o EP de 2010, conseguiu deixar muito boa gente interessada no grupo, devido à forma como misturava o Post-Punk mais sombrio com uma New Wave esquizofrénica, tendo até laivos, aqui e ali, de Noise Rock.

Porém, e apesar de The Grid já ter o seu quê de negrume e violência, nada me podia preparar para The Horror. Sombrio, caótico e cheio de distorção, o primeiro disco dos Pop. 1280 mostra uma banda de arraiais assentes no Noise Rock e no No Wave na sua forma mais extrema e até macabra. Apesar de não ser, nem de perto nem de longe, uma obra-prima, admito que The Horror conseguiu superar largamente qualquer expectativa que eu tivesse a priori, revelando-se numa bela experiência auditiva.

Indo buscar inspiração a grupos como Rapeman, Grinderman ou Swans, os Pop. 1280 conseguiram criar em The Horror  um álbum desafiante e abrasivo, capaz de chocar os mais sensíveis. Com um som “cheio” e sujo, fruto da mistura das guitarras distorcidas e cortantes, do baixo espesso, dos sintetizadores espectrais e da bateria mecânica e quase militar, The Horror traz, ao longo das suas 10 faixas, uma música ousada e que se encontra sempre no “fio da navalha”, e que demonstra um intento de chocar o ouvinte.

É também na área do chocante, do grotesco e do niilista que situam as letras de The Horror, cuja violência e obscenidade se conjugam de forma perfeita com a instrumentação caótica e com os vocais, compostos por gritos e berros tensos, desconcertantes e perturbadores. Ao nível da produção, assistimos a uma estética centrada na crueza e na abrasividade, o que sublinha bem a aposta clara no “desafio” e na provocação.

Contudo, nem tudo me agradou em The Horror. Um dos maiores problemas deste álbum é, a meu ver, a forma como se torna cansativo ao longo de várias audições, exigindo muito esforço da parte do ouvinte. Isso deve-se, sobretudo, à forma como algumas canções se tornam, ao fim de algum tempo, algo “planas” e repetitivas, o que demonstra uma certa falta de trabalho em alguns pontos do disco. Não digo que seja um grande defeito, mas é certamente um factor que pesa na hora de avaliar o álbum.

Quanto às minhas faixas preferidas de The Horror, a pungente e acelerada Burn the Worm, a agressiva e avassaladora New Electronix, a desoladora e tenebrosa Bodies in the Dunes, a fria e frenética West World ou a suja e viciante Crime Time são todas peças que me conseguiram cativar especialmente. Quanto às canções que, a meu ver, estão menos conseguidas, Nature Boy, Beg Like a Human e Hang’Em High são as minhas escolhas óbvias.

Resumindo, The Horror apresenta-se como um álbum Noise Rock caótico, sujo e difícil, tal como manda a lei do género. Com uma conjugação de elementos muito bem conseguida, e que visa fazer passar um sentimento de tensão, angústia e desolação, este LP dos Pop. 1280 não é, de certo, para toda a gente. Pode não ser um disco perfeito, mas mostra uma atitude ousada , sendo um sólido passo em frente quando comparado com The Grid. Confesso que, depois de The Horror, vou ficar a aguardar ansiosamente o próximo lançamento dos Pop. 1280.

Nota Final: 8,3/10

João Morais

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Something

Projecto Indie Pop fundado em 2005, pelas mãos de Caroline Polachek, Patrick Wimberly e Aaron Pfenning, os Chairlift conseguiram, com Bruises (hit-single do disco de estreia de 2008, Does You Inspire You), entrar na cabeça de muito boa gente. Pois bem, já sem Pfenning, o (agora) duo decidiu lançar o seu segundo LP, Something, disponível nas lojas desde 24 de Janeiro, e que será hoje analisado.

Confesso que, apesar da espectacular e viciante Bruises, não posso dizer que Does You Inspire You me tenha deixado grande impressão. Com uma Indie Pop repetitiva e vulgar, o disco de estreia dos norte-americanos não me deixou com grandes esperanças para um segundo álbum. Contudo, depois de ter visto o hype que este Something estava a ter, decidi dar uma segunda oportunidade aos Chairlift, algo de que não me arrependo nem por um segundo. Apesar de não ser brilhante, Something consegue ser um disco bastante bom, e que demonstra uma banda de cara totalmente renovada.

Apesar de se manterem firmes no território da Indie Pop, os Chairlift mostram, com este segundo disco, uma maior maturidade e ambição. Indo buscar grande parte da inspiração para este álbum aos anos 80, mais propriamente à New Wave e ao Post-Punk anglo-saxónico de nomes como Talking Heads, Brian Eno ou até Devo, Polachek e Wimberly criaram, em Something, um álbum tudo menos banal, que consegue misturar de forma quase perfeita o encanto imediato da Pop com o desafio cerebral da música mais experimental.

Ao nível da produção, a cargo de Dan Carey e Alan Moulder, Something traz uma estética muito próxima da sonoridade dos anos 80; significa isto que, apesar de ser fundamentalmente polida e bem definida, não desdenha de algumas incursões num terreno mais abrasivo e “difícil”. No departamento lírico, dá-se a primazia aos temas introspectivos, surreais, e por vezes abstractos. Apesar de, em raras excepções, os Chairlift acabarem por escrever sobre clichés amorosos (como acontece em I Belong In Your Arms ou Take It Out On Me), não é nada que ponha em causa a qualidade das canções.

Na dinâmica das vozes, o que vemos em Something é um corte com o que foi feito em Does You Inspire You, com o desaparecimento quase total dos duetos entre Caroline e Patrick. Assim, assistimos a Caroline Polachek a assumir uma preponderância muito maior do que vimos em 2008, e notamos uma evolução (positiva) no registo da norte-americana. Mais doce, terna e até, por vezes, sedutora, Polachek consegue, com a sua voz, complementar de forma espantosa as linhas de baixo cheias de groove e os sintetizadores atmosféricos e tresloucados de Something.

Contudo, há alguns senãos neste LP. Apesar de ser um bom disco, Something falha, a meu ver, em manter a consistência ao logo de toda a sua duração, acabando por perder algum do seu apelo a partir da segunda metade. Essa falta de brio, aliada a uma certa homogeneidade que se torna, por vezes, um pouco excessiva, faz com que, apesar do potencial que promete, Something não atinja um patamar de excelência.

Na hora de escolher os pontos altos deste disco, a hipnotizante e enigmática Sidewalk Safari, a cerebral e cativante Wrong Opinion, a viciante e fresca I Belong In Your Arms, a gingona e quente Take It Out On Me ou a contagiante e convidativa Amanaemonesia, todas elas me enchem por completo as medidas. No outro lado do espectro, Cool As A Fire, Frigid Spring ou Turning são, a meu ver, as faixas menos conseguidas de Something.

Resumindo, com Something os norte-americanos Chairlift trazem-nos um disco que demonstra uma evolução notável no que à arte de fazer música diz respeito. Mais maduros, mais experientes e mais ousados, Caroline Polachek e Patrick Wimberly conseguiram assinar, em Something, um álbum de que podem ter orgulho. Pode não ser uma obra-prima, mas a sua audácia, a sua inovação e a sua qualidade no geral fazem com que este seja um belíssimo LP, e que garante entretenimento a todos os que gostam de experimental algo de diferente. Agora só espero que os Chairlift não demorem mais quatro anos a dar seguimento a este belo trabalho.

Nota Final: 8,0/10

João Morais