quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Três EPês #2


a-nimal [EP] a-nimal (17 Mai)
- Primeiro lançamento de estúdio deste trio formado por João Sousa (guitarra/voz), Zé Santos (baixo) e André Calvário (bateria), a-nimal [EP] traz-nos três canções que servem de cartão-de-visita para a sonoridade do grupo: Alternative Rock insidioso e negro, misturado com a abrasividade do Punk e do Hardcore e com alguns “cheiros” de Metal e afins que lhe conferem uma violência e uma velocidade avassaladoras. A complementar esta paisagem estão as letras (em português) que João Sousa vai “cuspindo” e que, devido ao seu teor político e filosófico extremamente carregado, ajudam a compor um quadro sombrio e avassalador que me agradou bastante. O único defeito digno de nota acaba por ser a curteza do EP, com as três canções a saberem-me a pouco. No entanto, posso dizer que esta “amostra” serve bem para aguçar a curiosidade, e demonstra bem que os a-nimal são um dos nomes a ter em conta no panorama alternativo nacional. É esperar por mais.
Pontos altos:
- Homem-Sangue
- Insomnia
Nota Final: 4.0/5

Under the Quiet Sky Plane Ticket (23 Abr)
- Vindos de Torres Vedras, os Plane Ticket são um quarteto Indie Rock composto por Leonel Nunes, Pedro Manuel Silva, João Matias e Filipe Damil Vicente, e que lançou na primeira metade deste ano o seu primeiro EP, Under the Quiet Sky. O registo, editado com o selo da Cakes & Tapes, mostra-nos um belo conjunto de 5 peças bem próximas do Post-Punk Revival de nomes como Interpol ou Motorama, e traz consigo uma aura de grande afinidade com o Post-Punk britânico de finais dos anos 70. Com uma sonoridade cinzenta, tensa e claustrofóbica, uma estética de garagem e uns vocais graves e solenes, Under the Quiet Sky consegue facilmente evocar uma atmosfera reminiscente da Manchester da Factory Records dos Joy Division ou dos The Durutti Column. Apesar de alguma homogenia, que o impede de ser perfeito, este EP é uma obra sólida e consistente, e que mostra uns Plane Ticket em grande forma. Arrisco-me a dizer que este é capaz de ser um dos meus extended plays favoritos de 2012; no entanto, fico à espera da estreia em longa-duração, para poder tirar teimas.
Pontos altos:
- Under the Quiet Sky
- Trench Line
Nota Final: 4.6/5

TNGHT TNGHT (23 Jul)
- Duo formado este ano pelos produtores Hudson Mohawke e Lunice, TNGHT é um projecto de Electronica que combina Hip-Hop instrumental com elementos de música de dança. O primeiro resultado dessa mistura é o homónimo TNGHT, um EP com cinco canções repletas de beats possantes, samples animados e tons coloridos, vívidos e que apelam fortemente à dança. Porém, apesar da originalidade que o grupo demonstra e da energia que as músicas passam, confesso que achei este TNGHT um bocadinho homogéneo, repetitivo e inconsistente demais para o meu gosto. Aguardo por mais lançamentos por parte da dupla, para ver se conseguem desenvolver as boas ideias que demonstram neste EP, e para ver se conseguem justificar todo o hype que têm gerado à sua volta.
Pontos altos:
- Goooo
- Easy Easy
Nota Final: 2.7/5

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Mixtape da Semana // Week 25

Depois de terminada a “hibernação” estival, o MDC regressou em grande, e na bagagem volta também a Mixtape da Semana. A edição de hoje, a 25ª, é dedicada ao Shoegaze e às suas texturas etéreas e aos seus efeitos e feedbacks perfurantes.

Qualquer purista ortodoxo denunciaria esta compilação como uma farsa, mas aqui no MDC não somos picuinhas e decidimos misturar no mesmo pote percursores do género (como The Jesus and Mary Chain ou My Bloody Valentine) com figuras-chave (Ride ou Slowdive) e grupos que vieram revitalizar ou inspirar-se no Shoegaze (Ringo Deathstarr, Weekend ou The Pains of Being Pure at Heart). O resultado é um conjunto de 10 canções que promete fazer as delícias de quem gosta da sua música bem agridoce e abrasiva. Enjoy!

Esta Mixtape conta com as seguintes faixas:
·         Seagull Ride
·         40 Days Slowdive
·         Never Understand The Jesus and Mary Chain
·         Coma Summer Weekend
·         Contender The Pains of Being Pure at Heart
·         My Dreaming HillFlying Saucer Attack
·         Feel So Real Swervedriver
·         Breather Chapterhouse
·         Kaleidoscope Ringo Deathstarr
·         Soon My Bloody Valentine

domingo, 5 de agosto de 2012

Django Django

Formados em 2009, na fria e inóspita Escócia, por David Maclean, Vincent Neff, Jimmy Dixon e Tommy Grace, os Django Django são um dos grupos que mais hype tem gerado na cena alternativa britânica nos últimos tempos. O disco de estreia do quarteto, o homónimo Django Django, viu a luz do dia a 30 de Janeiro, e é dele e da sua música psicadélica e viciante que vamos falar hoje.

Não é fácil “etiquetar” condignamente a música dos Django Django sem cair numa de duas tentações: engavetá-los em “géneros” vastos e quase vazios de significado (ver: Indie Rock ou Art Rock), ou enfiá-los num subgénero tão infinitamente pequeno, estanque e simplista que acaba por não fazer jus ao melting pot de influências que este disco demonstra. Mas, dilemas à parte, a verdade é que o Art Rock (sim, escolhi a primeira opção por ser um preguiçoso) do grupo é tão rico e tão delicioso que Django Django é capaz de ser um dos meus discos favoritos de 2012.

Imaginem o Lawrence da Arábia em plena trip de cogumelos a jogar, no meio do deserto, um jogo de arcada. Se conseguirem visualizar mentalmente esta caricata e tresloucada imagem, talvez consigam perceber qual foi a experiência que retirei deste LP. Experimental e exótico a rodos, Django Django esforça-se por misturar uma Indie Pop psicadélica e ocidental com tons, toques e cheiros africanos e Worldbeat, numa combinação capaz de nos deixar de olhos arregalados.

A todo exotismo e tropicalismo junta-se, também, uma espessa camada de efeitos e sintetizadores que, quando misturados com as guitarras (eléctricas e acústicas), conferem ao álbum uma aura muito “retro-futurista”. Para além disso, temos também em Django Django um toque de Surf Rock vindo do tom borbulhante e lânguido do reverb, e que ajuda a que a mistura criada pelo quarteto se vá tornando cada vez mais sórdida, invulgar e única à medida que o disco avança.

Na produção, a cargo do baterista David Maclean, assistimos a uma estética que, apesar de nítida, mostra sempre um bocadinho de “grão” e que demonstra o porquê dos Django Django receberem muitas vezes o epíteto de “bedroom band”. No departamento lírico encontramos, tal como na sonoridade, um psicadelismo bem vincado, onde passagens sobre encontros imediatos de 3º grau, sonhos, praias e os céus do Cairo se juntam a tiradas completamente abstractas. Ao nível da voz, Vincent Neff traz-nos um registo suave e sincero que, juntamente com algumas harmonias vocais à lá The Beach Boys, “embrulha” de uma forma sublime este disco.

No que toca a defeitos, não posso dizer que Django Django me dê muitas “munições” para atirar. É certo que alguns pontos menos bons fazem com que tenha sentido, esporadicamente, alguma inconsistência, e que na segunda metade do disco se notam algumas canções menos inspiradas e mais insípidas; no entanto, a verdade é que esta é uma estreia fulgurante por parte dos Django Django, devido à criatividade e solidez demonstradas neste LP.

Quanto a peças individuais, devo destacar pela positiva a fervilhante Hail Bop, a inquietante Default, a contagiante WOR, a hipnótica Storm ou a doce Silver Rays. Quanto às faixas que, a meu ver, não se encaixam tão bem neste disco, assinalo as desinspiradas Hand of Man, Life’s a Beach e Skies Over Cairo. No entanto, não se pode dizer que estas pequenas “nódoas” afectem significativamente a performance geral de Django Django.

Em suma, Django Django é uma belíssima obra que, apesar das falhas, se revela num magnífico tratado sobre como criar experimentalismos inovadores a partir de referências completamente distintas e impensáveis. Essa combinação de arrojo com uma sensibilidade Pop bastante apurada faz com que o apaixonante Art Rock dos Django Django faça lembrar, vagamente, uns distantes Talking Heads. Fico, por isso, à espera de mais vindo desta banda, mas por agora contento-me em ouvir de novo esta maravilhosa lufada de ar fresco.

Nota Final: 8.9/10

João Morais 

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Mixtape da Semana // Week 24

Na sua 24ª edição, a Mixtape da Semana traz-vos, como sempre, mais uma playlist repleta de grandes temas e artistas. Hoje, em formato “aleatório”, destacam-se as canções de Beirut, St. Vincent ou Arcade Fire, em mais uma compilação que não vão querer perder!

Esta Mixtape conta com as seguintes faixas:
·         Nantes Beirut
·         Two Against OneDanger Mouse & Daniele Luppi with Jack White
·         Somebody to Love Jefferson Airplane
·         I Can’t Stopof Montreal
·         Surgeon St. Vincent
·         Ritual UnionLittle Dragon
·         I Have Been Floated The Olivia Tremor Control with Jeff Mangum
·         Twilight OmensFranz Ferdinand
·         Haiti Arcade Fire
·         Rocket ManElton John

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Mixtape da Semana // Week 23 [Optimus Alive]

A poucas horas do início do sexto Optimus Alive, que terá mais uma vez lugar no Passeio Marítimo de Algés, fica aqui uma Mixtape da Semana com alguns dos concertos que o Música Dot Com não irá perder!

Entre os nomes que mais ansiosamente esperamos estão os Refused (New Noise), os retornados The Stone Roses (I Wanna Be Adored) e, como é óbvio, os grandes Radiohead (Morning Mr Magpie). Porém, as actuações dos The Parkinsons (Bad Girl), Tricky (Black Steel), The Cure (In Between Days) e The Kills (Last Day of Magic) também prometem ser mágicas (no pun intended)!

Esta Mixtape conta com as seguintes faixas:
·         I Wanna Be Adored The Stone Roses
·         Genesis Justice
·         Bad GirlThe Parkinsons
·         New Noise Refused
·         Black Steel Tricky
·         Undertow Warpaint
·         Morning Mr Magpie Radiohead
·         Sylvia The Antlers
·         Last Day of Magic The Kills
·         In Between Days The Cure 


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Reportagem: Optimus Primavera Sound 2012


Depois de uma magnífica estadia na bela cidade do Porto, e de alguns dias um mês para digerir as experiências e aclarar as ideias, aqui estou eu a apresentar-vos a reportagem MDC da primeira edição do Optimus Primavera Sound, versão nacional do mítico festival alternativo catalão, e que decorreu nos passados dias 7, 8, 9 e 10 de Junho, no Parque da Cidade.

Antes de me atirar à escrita sobre os concertos propriamente ditos, há que destacar dois aspectos essenciais, e que fizeram deste um festival único: o magnífico cenário, com a espectacular simbiose entre os três maiores palcos e a natureza que os rodeava (especial destaque para o All Tomorrow’s Parties), e o caloroso ambiente que se vivia ali, e que transformou o Parque da Cidade, por três dias, numa autêntica capital internacional da melomania.

Arrumado isto, falemos dos concertos propriamente ditos.

DIA 7

Palco Primavera Atlas Sound (19.00)
- Depois de uma gigantesca fila para levantar as pulseiras (faço aqui o mea culpa pela confusão que fiz) e de pedir informações ao Noiserv (que grande história que isto dá), o MDC chegou ao Parque da Cidade, ainda a tempo de apanhar parte da actuação de Bradford Cox. Porém, não se pode dizer que tenha sido um concerto muito inspirado; com um público bastante apagado e com Cox um bocado desligado de tudo e de todos, o show de Atlas Sound não deu sequer para aquecer, com muita pena minha.

Palco OptimusYann Tiersen (20.15)
- Deixando de lado o sr. Cox e as suas experimentações masturbatórias, decidi ir logo para o palco onde iria actuar Yann Tiersen. Num concerto repleto de canções viciantes e afiadas, e uma Pop dançável e extremamente enérgica, o francês só terá desiludido quem ainda tinha esperanças de ouvir pedaços das bandas-sonoras de Amélie ou Goodbye Lenin. Apesar da chuva, que fez questão de marcar a sua presença a meio da setlist, o espectáculo de Yann Tiersen foi, para mim, o ponto alto do primeiro dia.

Palco Primavera - The Drums (21.30)
- Já a lua fazia questão de aparecer quando subiu ao palco este grupo oriundo de Brooklyn. Apesar de muita gente já ter “cuspido” na actuação dos The Drums, eu não posso dizer que tenha saído dali desiludido. Com a sua Indie Pop alegre, catchy e a puxar os pés para a dança, o grupo liderado por Jonathan Pierce conseguiu assinar uma actuação sólida e imaculada, onde só ficou a faltar a Forever and Ever, Amen.

Palco OptimusSuede (22.45)
- Apesar de apreciar bastante os dois primeiros discos dos Suede (o homónimo de 1993 e Dog Man Star de 1994), não posso dizer que seja um grande fã da banda, nem que esperava ansiosamente este concerto. Porém, não há como nega-lo: hinos como Animal Nitrate, We Are the Pigs ou Beautiful Ones parecem ter sido talhados para as grandes audiências, e não há como escapar ao sing-along. Em suma, durante cerca de uma hora e meia o Parque da Cidade regressou aos anos 90.

Palco Primavera Mercury Rev (0.30)
- Não consigo colocar por palavras a desilusão que senti com a actuação dos Mercury Rev no Optimus Primavera Sound. Colado à grade, esperava a delicadeza e a doçura Dream Pop dos seus grandes êxitos, mas o que me saiu foi um Rock de bordel rasca e barato, regado com vinhaça reles. Tirando um ou outro momento em que conseguiram escapar deste ambiente desolador, não houve nada que me interessasse no concerto do grupo de Jonathan Donahue.

Palco OptimusThe Rapture (2.00)
- Confesso que fui para o concerto de The Rapture a medo e sem saber bem o que me esperava, isto porque “decidi” passar ao lado de In the Grace of Your Love, o disco de 2011 da banda norte-americana. Porém, só tenho a dizer que fiquei rendido aos nova-iorquinos depois do show que deram. Numa hora repleta de energia, groove e música extremamente catchy, o Dance Punk dos The Rapture conseguiu pôr toda a gente a dançar. E How Deep is Your Love, o “hino” do festival, foi cantado a plenos pulmões no Parque da Cidade.

DIA 8

Palco Primavera Linda Martini (17.00)
- Uma das bandas mais acarinhadas do panorama musical nacional, os Linda Martini são um daqueles nomes que brilha seja em que cartaz for, e o concerto no Optimus Primavera Sound foi mais uma prova disso. Trazendo no bolso um Alternative Rock carregado de energia, catarse e rebeldia, o quarteto lisboeta fez com que, durante 45 minutos, o Parque da Cidade se transformasse num cenário de combate. A guitarra partida, o crowdsurfing a rodos e o pó levantado dos moshpits foram a prova disso.

Palco OptimusWe Trust (18.00)
- These New Countries, o álbum de estreia de We Trust, o projecto do (também realizador) André Tentugal, foi considerado aqui pelo MDC como um dos melhores 20 discos de 2011 (ficou em 19º), e isso deveu-se à sua frescura e à beleza e delicadeza das suas composições. Porém, na transposição das músicas para o palco, confesso que não fiquei propriamente entusiasmado. Um concerto morno, com uma audiência mortiça, traduziu-se na minha migração para o Palco Club. Fica para a próxima.

Palco ClubOther Lives (18.15)
- Apanhei a actuação dos norte-americanos Other Lives já a meio, e apenas tive tempo para assistir a um par de canções, pelo que não há muito que eu possa dizer acerca deste concerto. Porém, uma coisa é certa: a Folk meio experimental e psicadélica do grupo liderado por Jesse Tabish não foi, de todo, talhada para um palco tão “urbano” quanto o Club.

Palco Primavera Yo La Tengo (19.00)
- Estaria a mentir se dissesse que sou um die-hard fan dos Yo La Tengo, mas a verdade é que este era um dos nomes do festival que eu mais ansiava por ver, tanto pela relevância histórica que a banda teve no Alternative Rock norte-americano dos anos 80 e 90 como pela qualidade das canções que lhes conheço. E não posso dizer que tenha ficado desiludido; num concerto recheado tanto de feedback e distorção abrasiva como de canções deliciosamente Pop e catchy, Ira Kaplan, Georgia Hubley e James McNew conquistaram-me por completo, assim como às pessoas que se deslocaram ao Palco Primavera para os ver. Ouvi dizer por lá que “não se tendo Sonic Youth, tem-se Yo La Tengo”, mas a verdade é que este trio joga num campeonato só deles.

Palco ClubChairlift (20.45)
- Para fugir a Rufus Wainwright fui-me abrigar para o Palco Club, desta vez para ver se apanhava um bocadinho da actuação dos Chairlift. O duo, composto por Caroline Polachek e Patrick Wimberly (a quem se juntam, em palco, mais três músicos), veio a Portugal mostrar Something, um disco cheio de deliciosa Indie Pop que tem feito as maravilhas da crítica (incluindo aqui o MDC). Apesar de não ter estado muito tempo a ver o concerto, posso dizer que não fiquei desiludido com a música viciante e dançável dos Chairlift. Fico à espera de mais oportunidades para os ver, de preferência por inteiro.

Palco Primavera The Flaming Lips (21.30)
- Para coroar um dia que já estava a ser bastante incrível vieram os The Flaming Lips, e o seu reputado espectáculo de psicadelismo e fantasia. Sendo eu um grande fã da música do grupo, posso dizer que este era, sem dúvida, um dos concertos que eu mais esperava de todo o festival, tanto pela (magnífica) componente musical como pelo show visual que a banda de Wayne Coyne faz questão de dar ao público. E mais uma vez, Coyne e companhia excederam-se e deram a quem se deslocou ao Palco Primavera a “noite das suas vidas”. Bolas de espelhos, confettis, mãos gigantes que disparam lasers, dançarinas “tirolesas” a saltarem nas laterais do palco, crowdsurfing dentro de uma bolha de plástico, todas estes ingredientes juntaram-se à proficiência musical dos The Flaming Lips e ao delírio do público para fazer com que este fosse, sem dúvida, um dos pontos altos de todo o festival. Apesar de ter ficado triste por ter perdido os Black Lips, que ao mesmo tempo faziam a revolução Rock no Palco Club, a verdade é que Worm Mountain, Yoshimi Battles the Pink Robots, Pt. 1, Race for the Prize ou Do You Realize?? conseguiram levar-me aos céus. Um concerto de outro mundo, e um dos melhores a que já tive o prazer de assistir.

Palco All Tomorrow’s PartiesShellac (23.30)
- No que toca à produção de discos lo-fi, as coisas passam-se do seguinte modo: Steve Albini no céu, Steve Albini na terra, e deus não é perdido nem achado no assunto. Por isso, e porque sou um gigantesco fã dos projectos musicais do norte-americano (especialmente dos Big Black, seminal banda Noise dos anos 80), não podia perder a chance de o ver em palco a malhar forte e feio numa guitarra eléctrica, acompanhado Bob Weston (baixo) e Todd Trainer (bateria). Prayer To God, Squirrel Song, Steady as She Goes ou My Black Ass foram algumas das munições disparadas de rajada por um Albini frio, distante mas sempre muito, muito poderoso. Destaque também para The End of Radio (polvilhada com Transmission, dos Joy Division), que conseguiu mostrar-me algo que nunca pensava ser possível; como deixar uma plateia inteira em suspense apenas com um simples riff de baixo, umas estocadas na tarola e um magnífico discorrer de spoken word. Simplesmente espectacular.

Palco ClubBeach House (1.00)
- Novamente, a dor de fazer escolhas difíceis, desta vez entre The Walkmen no Palco Primavera ou Beach House no Palco Club. Tendo já visto o grupo de Hamilton Leithauser ao vivo, no SBSR do ano passado, decidi optar pela novidade e fui ver o grupo de Victoria Legrand e Alex Scally, que lançou há pouco tempo o mui belo Bloom (cuja review está para sair, “trust me”). E, apesar da má escolha de palco e do ambiente meio manhoso que se sentia no público, não posso dizer que me tenha sentido defraudado com a minha decisão. Numa hora absolutamente mágica, a música etérea e hipnotizante dos Beach House e o jogo de luzes sedutor deixou-me totalmente inebriado. É verdade que com outras condições teria sido um concerto ainda melhor, mas mesmo assim o espectáculo foi bastante especial.

Palco OptimusM83 (2.15)
- Cansado, ensonado e esfaimado, fiz ainda assim o esforço e fui ver os franceses M83 ao palco principal, como forma de encerrar a noite em grande. Contudo, não posso dizer que tenha ficado totalmente encantado (se bem que a culpa também pode ter sido do meu estado de espírito). Num concerto que me pareceu um pouco morno e demasiado curto, salvaram-se alguns pontos altos que aqueceram o público na noite fresca. E obviamente que Midnight City, com presença de um saxofonista, fez as maravilhas de muitos festivaleiros.

DIA 9
Palco Primavera Gala Drop (17.00)
- Depois da bem-sucedida “luta” por um bilhete para os concertos na Casa da Música do dia seguinte, seguiu-se um pulinho bem pequenino pelo Palco Primavera para ver os portugueses Gala Drop. Apresentando o psicadélico Broda, o mais recente EP do grupo e que foi gravado em conjunto com o guitarrista norte-americano Ben Chasny (Six Organs of Admittance), o grupo teve de lutar contra a chuva, que teimava em flagelar quem se encontrava no Parque da Cidade. Porém, daquilo que ouvi (e que não foi muito), posso dizer que fiquei agradado. Fico à espera de uma próxima oportunidade de os apanhar ao vivo.

Palco ClubVeronica Falls (18.15)
- Para alguma coisa havia de servir o amaldiçoado Palco Club, e serviu à justa para abrigar da chuva aqueles que se recusavam a enfrentar a mansa enxurrada que flagelava o Parque da Cidade. E para servir de banda-sonora perfeita para o cenário cinzento que se desenhava no recinto vieram os Veronica Falls, com a sua Indie Pop penumbrenta e sombria. Num concerto que animou as hostes q.b. (especialmente quando se tem em conta que mais de metade das pessoas presentes apenas estavam à espera que a chuva passasse), Found Love in a Graveyard e Beachy Head foram definitivamente pontos altos.

Palco Primavera Spiritualized (19.00)
- Um dos nomes mais esperados do 3º dia do festival, os Spiritualized do britânico Jason Pierce conseguiram chamar ao Palco Primavera uma enchente de pessoas que, temerárias, decidiram enfrentar a chuva que se recusava a ir embora. Em troca, a multidão recebeu da parte dos Spiritualized um concerto curto mas extremamente sólido, e que para além da apresentação do mais recente Sweet Heart Sweet Light (cuja review também está para sair) trouxe também alguns temas mais “clássicos”, como a (apropriada) Lord Let It Rain on Me, Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space, Come Together ou a cover dos saudosos Spacemen 3, Walkin’ With Jesus.

Palco OptimusKings of Convenience (23.00)
- Depois da desilusão do cancelamento de Death Cab for Cutie (que se deu, em parte, por culpa da organização) e de um pulinho pelo palco ao lado para ver os retornados The Afghan Whigs, lá fui eu de novo para o palco principal para ver outro nome “grande” do dia: os Kings of Convenience, que vieram substituir a islandesa Björk. E cá para nós, que ninguém nos ouve, acho que ficámos mais bem servidos com este duo sueco que trouxe, para além das cantigas de amigo e das melodias agridoces, muita boa disposição e animação ao Parque da Cidade. Homesick, Misread ou I’d Rather Dance with You foram, sem dúvida, pontos incontornáveis de um concerto maravilhoso.

Palco Primavera Saint Etienne (0.35)
- Tendo já perdido os Wavves e os Dirty Three nos palcos secundários, deixei-me ficar pela zona dos palcos principais para apanhar um bocado do concerto dos Saint Etienne. Apresentando o seu oitavo disco de estúdio, Words and Music by Saint Etienne, o trio britânico de Electronica trouxe um show rico em dança e euforia, onde só ficou a faltar a bola de espelhos. Destaque também para o glamour de um grupo de espanhóis a snifar coca mesmo ao meu lado. Priceless.

Palco OptimusThe xx (1.50)
- E foi com os The xx, um dos nomes mais esperados do festival, que se encerraram os concertos nos  palcos principais do Parque da Cidade. Num concerto intimista, etéreo e melancólico, o grupo trouxe na bagagem algumas das canções que irão integrar Coexist, o segundo disco do trio britânico e que tem data de lançamento marcada para 10 de Setembro. Porém, e isto é indiscutível, foram as canções de xx, o álbum de estreia de 2009, que fizeram com que a numerosa plateia se rendesse a Romy Croft, Oliver Sim e Jamie Smith. Para além disso, fica também registada a (na minha opinião) terrível interpretação de Crystalised, mas que não chegou para meter mácula num concerto onde Heart Skipped a Beat, Basic Space e VCR se fizeram ouvir pelos pulmões de milhares de pessoas.

DIA 10

Sala SuggiaThe Olivia Tremor Control (20.30)
- E foi em modo gourmet, no salão “nobre” da Casa da Música do Porto que teve lugar o último dia do Optimus Primavera Sound. Em palco, o grupo The Olivia Tremor Control (que é como quem diz “os The Beatles underground americanos dos anos 90”) trouxeram um show cheio de psicadelismo, energia e loucura. Misturando a acidez Rock com uma instrumentação deveras peculiar para uma banda Pop (violinos e flautas incluídas), o retornado grupo mostrou que, mesmo com a prolongada pausa, os anos mal passaram por eles. Destaque especialmente para I Have Been Floated, do (maravilhoso) Black Foliage: Animation Music Volume One, de 1999, e que contou com a participação especial de Jeff Mangum, que pouco tempo depois pisaria ele próprio, pela segunda vez, aquele palco.

Sala Suggia Jeff Mangum (22.00)
- Não escondo que, de todo o cartaz, este era o concerto que mais aguardava. Devoto incondicional dos Neutral Milk Hotel e fanboy assumido de In the Aeroplane Over the Sea (1998), admito que me senti como uma miúda de 12 anos quando vi o “regresso dos mortos” de Jeff Mangum e a sua posterior confirmação para este festival. E quando chegou o momento do cantautor em palco, notava-se que não era o único a sentir-se assim. Com um público totalmente rendido e em completa comunhão com o artista (que convidou a plateia a aproximar-se dele e a sentar-se no chão), Mangum trouxe uma setlist inspirada primariamente em ITAOTS; Two-Headed Boy (partes 1 e 2 back-to-back), Holland, 1945, ou Ghost fizeram com que toda a Sala Suggia cantasse a plenos pulmões, mais do que tinham cantado nos três dias anteriores. No entanto, houve mais canções para além das do icónico segundo álbum dos Neutral Milk Hotel. Servindo como “brindes” para uma audiência que esperou mais do que uma vida por este concerto, Song Against Sex, Little Birds ou Gardenhead/Leave Me Alone caíram que nem ginjas aos ouvidos dos fãs mais ferrenhos do artista (entre os quais eu, modestamente, me incluo). Para terminar uma actuação brilhante veio a delicada e tocante Oh Comely, numa interpretação capaz de levar muitos às lágrimas. Para mim (e apesar de terem havido outros concertos no Hard Club), o Optimus Primavera Sound não podia ter acabado de melhor forma. Porra, podia ter ali acabado o mundo que eu sairia de lá com um sorriso nos lábios.
Setlist

João Morais

PS:Todas as (difusas e escassas) fotos foram tiradas em colaboração com a Diana Carvalho <3

terça-feira, 26 de junho de 2012

Mixtape da Semana // Week 22

Como forma de regressar a um ritmo de publicação decente após a “ressaca” do Optimus Primavera Sound, o MDC decide trazer-vos de volta a Mixtape da Semana, a rubrica destinada a saciar os vossos ouvidos melómanos com músicas escolhidas pelo blog (ou não), e que já vai na sua 22ª edição.

Hoje, e como forma de dar as boas-vindas à silly season, à praia e ao bom tempo, o MDC compilou uma Mixtape dedicada ao Verão, com 10 canções incrivelmente quentes. Desde o Surf Rock dos The Beach Boys ao Stoner Rock dos Kyuss, passando pela Dream Pop dos The Pains of Beeing Pure at Heart, esta é mais uma playlist que não vão querer perder!

Esta Mixtape conta com as seguintes faixas:
·         Summertime ClothesAnimal Collective
·         Surfin’ USA The Beach Boys
·         Eyeoneye Andrew Bird
·         King of the Beach Wavves
·         N.O. Kyuss
·         Long Hot Summer Night The Jimi Hendrix Experience
·         It’s Summertime The Flaming Lips
·         Once at a Time We Trust
·         This Love is Fucking RightThe Pains of Being Pure at Heart
·         Summer Babe (Winter Version) - Pavement


terça-feira, 5 de junho de 2012

Mixtape da Semana // Week 21 [Optimus Primavera Sound]


Como forma de antecipar aquele que será, sem dúvida, um dos maiores eventos de música de 2012, o MDC decidiu dedicar a 21ª edição da Mixtape da Semana ao festival Optimus Primavera Sound, que se irá realizar no Porto nos dias 7, 8, 9 e 10 de Junho.
Assim, a playlist de hoje irá contar com alguns temas de 10 dos nomes que mais anseio por ver no festival. As actuações de Shellac (Prayer to God), Jeff Mangum dos Neutral Milk Hotel (Holland 1945) ou Beach House (Lazuli) são alguns dos concertos que não poderei perder por nada deste mundo!

Esta Mixtape conta com as seguintes faixas:
·         Holland 1945Neutral Milk Hotel
·         SugarcubeYo La Tengo
·         Do You Realize?? - The Flaming Lips
·         Prayer to GodShellac
·         The RatThe Walkmen
·         Crystalised The xx
·         Misread Kings of Convenience
·         LazuliBeach House
·         Come Together Spiritualized
·         Tiny VesselsDeath Cab for Cutie


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Capicua

Rapper oriunda da cidade do Porto, Capicua (nome artístico de Ana Fernandes) é vista por muitos como uma das grandes apostas para o futuro do Hip-Hop nacional, mesmo que já ande a trilhar o circuito underground há vários anos, com colaborações em EP’s e Mixtapes (mais ou menos) obscuras. O seu primeiro LP a solo, o homónimo Capicua, foi lançado pela Optimus Discos no dia 13 de Fevereiro, e é dele que vamos falar hoje.

Antes de começar a falar deste disco devo confessar que Capicua era para mim, até há bem pouco tempo, um nome totalmente desconhecido, e que do trabalho anterior a este LP pouco ou nada ouvi. No entanto, posso dizer que fiquei muito interessado neste projecto mal ouvi falar nele, e isso deve-se à lista de “superestrelas” da música nacional que estiveram envolvidas na sua produção: Sam the Kid, Makoto Yagyu (If Lucy Fell, Riding Pânico e PAUS) ou Pedro Geraldes (Linda Martini), entre outros. Só por isso, o meu entusiasmo subiu a níveis bem elevados, e depois de ouvir Capicua, o meu veredicto é de que fui totalmente recompensado.

Apesar de ser uma obra lançada em pleno ano de 2012, Capicua é um disco que impressiona pela forma como fala mais aos “clássicos” do Hip Hop do que aos seus contemporâneos. Não se pense, porém, que esta é uma obra saudosista, nostálgica ou a cheirar a mofo; pelo contrário, este LP aparece como um registo fresco e entusiasmante. A inspiração para os beats e samples é claramente retirada da Soul e do R&B mais clássico, e que confere a Capicua uma beleza tremenda.

Quanto à “entrega” da jovem rapper portuense, pode-se dizer que o flow de Capicua apresenta, nitidamente, uma inspiração naquilo que de melhor se faz no Hip Hop nacional. Ouvem-se, aqui e ali, influências vindas de Mind Da Gap, Sam the Kid ou Valete, e que atestam que Capicua é uma MC atenta e com bom gosto. A voz, uns tons abaixo do que é usual para uma mulher, consegue ainda assim reter bastante feminilidade, num traço muito sui generis faz com que Ana Fernandes seja bem única no panorama nacional.

Quanto aos temas abordados, uma das maiores armas de Capicua é, sem dúvida, a versatilidade. Escrevendo com facilidade sobre as mais variadas coisas, Ana Fernandes tanto mostra um lado mais interventivo e político (Os Heróis, Medo do Medo ou Terapia de Grupo) como uma faceta mais introspectiva e pessoal (Maria Capaz, Sagitário, Casa no Campo). Essa capacidade de se metamorfosear, aliada às rimas inteligentes e bem estruturadas, fazem com que Capicua tenha muito mais sumo e conteúdo do que a maioria do Hip Hop que vemos por aí nos dias que correm.

Na produção, para além dos artistas já citados, há que creditar também o belíssimo trabalho de nomes como D-one, Ghuna X ou Nelassassin, que através de belíssimos arranjos, beats e sequências conseguiram criar um grandioso pano de fundo para os versos de Ana Fernandes. Quanto a defeitos em Capicua, para além de algumas canções de que gostei menos e que quebram um pouco o ritmo do álbum, não posso dizer que haja muito por onde pegar para atacar o disco.

Quanto aos pontos altos deste LP, canções como a fresca e contagiante 1º Dia, a forte e carregada Hora Certa, a inteligente e bem-pensada Os Heróis, a sublime e descontraída A Volta e a groovy e contagiante A Última são, para mim, escolhas óbvias. Na hora de apontar as faixas que estão, a meu ver, menos conseguidas, as peças que me saltam logo da mente são Medo do Medo, Judas & Dalilas e Casa no Campo.

Resumindo, Capicua é uma excelente obra, e mostra que Ana Fernandes se arrisca a ser, ao invés de uma mera promessa, um valor mais do que seguro do Hip Hop nacional. Misturando um talento puro e um rap escorreito e bem conseguido com uma capacidade incrível de se rodear com músicos, técnicos e produtores capazes de levar a tarefa a bom porto, Capicua é um dos grandes discos nacionais do ano. Ficamos à espera de mais, muito mais, vindo desta menina.

Nota Final: 8,7/10

João Morais

PS: o link para o download (legal) do álbum é este:
http://optimusdiscos.com/discos/artistoptimusdiscos/capicua

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Mixtape da Semana // Week 20


Depois de uma semana de interregno, a Mixtape da Semana volta para dar cor às vossas Segundas-Feiras. Hoje, e como forma de celebrar a sua 20ª edição, as escolhas da playlist estarão subordinadas à temática dos anos 80. Com nomes como Pixies (Nimrod’s Son), Spacemen 3 (Take Me to the Other Side) ou Devo (Whip It), esta é mais uma colecção de canções que não vão querer perder!

Esta Mixtape conta com as seguintes faixas:
·         This Charming ManThe Smiths
·         Nimrod’s SonPixies
·         ‘Cross the BreezeSonic Youth
·         Isolation Joy Division
·         Freak Scene Dinosaur Jr.
·         Made of StoneThe Stone Roses
·         Express YourselfN.W.A.
·         Take Me to the Other Side Spacemen 3
·         Just Can’t Get Enough Depeche Mode
·         Whip It - Devo