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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Pixies no Coliseu: a celebração dos Deuses

No passado sábado o Coliseu dos Recreios foi palco de dois milagres distintos mas, de certa forma, intimamente relacionados. O primeiro foi o regresso dos Pixies a solo nacional, para uma prestação notável e comovente. O segundo foi a enchente do Coliseu em noite de derby lisboeta, num feito que contrariou, por algumas horas, a lei dos três F’s que impera em Portugal.

A reportagem completa pode ser lida no Espalha Factos.

domingo, 3 de novembro de 2013

Turbo Lento

Volvidos três anos sobre o lançamento de Casa Ocupada (2010), disco que catapultou o grupo lisboeta para o topo da pirâmide alternativa nacional, eis que nos chega às mãos o terceiro LP dos Linda Martini. Com o título paradoxal de Turbo Lento, o mais recente trabalho do projecto formado por Hélio Morais (bateria/voz), Cláudia Guerreiro (baixo/voz), André Henriques (voz/guitarra) e Pedro Geraldes (guitarra/voz) foi para as lojas a 30 de Setembro, com o selo da Universal.

A crítica completa pode ser lida no Espalha Factos.

domingo, 29 de setembro de 2013

À conversa com os Linda Martini

Foi numa tarde abrasadoramente quente que nos sentámos à conversa com Cláudia Guerreiro e Hélio Morais, baixo e bateria dos Linda Martini, quarteto lisboeta formado em 2003 e que conta também com André Henriques na voz e guitarra e Pedro Geraldes na guitarra. O pretexto para este encontro, que teve lugar numa acolhedora mesa na Casa Independente, em Lisboa, foi o terceiro LP de originais do grupo, Turbo Lento, com lançamento agendado para amanhã, e que marca os dez anos de carreira do grupo.

A entrevista pode ser lida no Espalha Factos.

sábado, 7 de setembro de 2013

Built to Spill: uma noite de Lux(o)

Apesar de ser a primeira semana de Setembro e de os calores de Verão não serem os mais convidativos para um concerto indoor, os Built to Spill foram capazes de atrair, no passado dia 4, uma quantidade generosa de fãs ao Lux Frágil. A recompensa foi, para os aventureiros, um belíssimo concerto, rico em canções intensas e uma distorção ensurdecedora.

A reportagem completa pode ser lida no Espalha Factos.

terça-feira, 30 de julho de 2013

O requiem dos Feromona @ Musicbox

Foi no passado domingo, perante uma plateia recheada de devotos fãs e amigos, que os Feromona deram o seu último concerto, num espectáculo que teve lugar no já mítico Musicbox, em Lisboa. Fica aqui a reportagem de um “funeral rock & roll” digno de loucos, repleto de suor, moches e muito champanhe.

A reportagem completa pode ser lida no Espalha Factos.

quarta-feira, 6 de março de 2013

O caos e a beleza dos Yo La Tengo

Foi na passada sexta-feira que os norte-americanos Yo La Tengo pisaram o mui nobre palco da Aula Magna. O concerto, que arrancou a tour europeia de apresentação de Fade, o 13º disco de originais do grupo , trouxe a Lisboa duas horas e meia repletas de algumas das melhores canções que o Alternative Rock pariu.

A reportagem completa pode ser lida no Espalha Factos.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Fade

Amados e respeitados pela crítica e objectos de um fervoroso seguimento de culto, os Yo la Tengo são, a par dos Sonic Youth e dos Dinosaur Jr, uma das grandes instituições Indie que ajudaram a moldar, nos anos 80 e 90, aquilo que conhecemos como o Alternative Rock norte-americano. Prolíficos como poucos, Ira Kaplan (guitarra/voz), Georgia Hubley (bateria/voz) e James McNew (baixo/voz) lançaram no início deste ano, a 15 de Janeiro, o seu 13º disco de originais. A obra tem o título de Fade e é sobre ela que vamos hoje falar.

A crítica completa pode ser lida no Espalha Factos.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Open Your Heart

Formados em 2008 em Brooklyn, capital oficiosa da música independente, os The Men são um dos nomes mais promissores da música alternativa norte-americana, algo que se deverá ao facto de terem animado meio mundo com o seu Alternative Rock com laivos de Punk, Noise e Post-Hardcore, entre outros géneros. Depois da tímida estreia com Immaculada (LP de 2010 de tiragem inicial limitada a 500 exemplares) e do seu sucessor, Leave Home (2011), o grupo lançou, a 6 de Março, Open Your Heart, disco de que vamos falar hoje.

Como já tive oportunidade de referir em ocasiões anteriores, uma das minhas (poucas) labels de estimação é, sem dúvida, a Sacred Bones Records, instituição Indie nova-iorquina em que confio quase cegamente e que tem no seu “plantel” um rol de artistas e bandas mui respeitável e interessante. Foi por isso mesmo que, ainda na (já) longínqua Primavera deste ano, tive a felicidade de “descobrir” os The Men e o seu terceiro álbum, uma das mais sólidas obras de 2012.

Para quem teve a oportunidade de ouvir em antemão Immaculada e Leave Home fica aqui o aviso: se estão à espera de encontrar em Open Your Heart o mesmo Noise Rock monolítico e pouco limado e não estão dispostos a conceder ao grupo espaço para variações e mudanças, este disco não é para vocês. Ao terceiro álbum, os The Men dão um passo de gigante na direcção duma sonoridade mais “aberta” e experimental, que junta ao Alternative Rock do quarteto sonoridades e inspirações vindas de géneros como o Surf Rock (no delay e reverb esporadicamente usados), Country (nas guitarras acústicas solarengas e campestres), Blues (em alguns versos de guitarra mais tradicionais e na parca utilização da lap steel guitar) e até Doo-Wop (nos raros coros femininos e nos riffs mais gingões).

A estas alterações estilísticas junta-se também uma mudança clara nas opções estéticas; apesar de os The Men ainda manterem uma forte componente Noise na maioria das suas composições e de estas ainda serem acima de tudo bastante sujas e cruas, a verdade é que também se nota um esforço na produção para fazer com que a sonoridade se torne mais acessível. Isso é notório na forma como o grupo alia a abrasividade da distorção com melodias e estruturas mais pop, algo que faz lembrar de certa forma os trabalhos de grupos como The Replacements, Hüsker Dü ou Yo La Tengo.

Ao nível das vozes, também é notório um “apaziguamento” dos ânimos dos vocalistas Mark Perro e Nick Chiericozzi. Apesar de ainda ser possível sentir algum angst na entrega vocal dos dois artistas, este está muito mais sublimado quando comparado com os gritos e vociferações presentes em muitas das faixas de Immaculada e Leave Home. Este refrear de emoções também é acompanhado no departamento lírico, onde os temas acabam por ser muito mais intimistas, dóceis e despreocupados do que nos discos anteriores.

No entanto, aquelas que são as maiores qualidades de Open Your Heart acabam por ser, de certa forma, os seus maiores defeitos: no “reverso da medalha” da heterogenia em larga escala está uma certa sensação de desalinho e de falta de balanço; a opção por uma via mais experimental e variada acaba por comportar também, infelizmente, uma certa perda de identidade pessoal; e o grande recurso a elementos estilísticos inspirados num revivalismo da sonoridade de outros grupos faz com que, em alguns momentos, os The Men acabem por ser um pouco derivativos demais. No entanto, a verdade é que estas imperfeições, no fim de contas, acabam por não retirar ao grupo o mérito deste belo disco.

Quanto aos destaques individuais deste Open Your Heart, sublinho a encorpada Oscillation, a veloz Please Don’t Go Away, a sincera Open Your Heart, a corrosiva Cube e a desarmante Ex-Dreams como os pontos mais positivos deste álbum. Pelo contrário, já a desinspirada Presence e a descabida Country Song aparecem, a meu ver, como as únicas faixas remotamente dispensáveis de todo este LP.

Em resumo, com este Open Your Heart os norte-americanos The Men demonstram, de forma quase paradoxal, uma maior maturidade na experimentação aliada a uma maior despreocupação com a estrutura e a coesão do disco. Filtrando inspirações de vários nomes já mencionados (e aos quais podemos facilmente juntar outros como Buzzcocks, Sonic Youth ou The Jesus Lizard), o grupo acaba por criar uma “manta de retalhos” bem variada e difícil de categorizar. É certo que este registo também tem as suas falhas e os seus momentos menos positivos, mas uma coisa é certa: Open Your Heart é a prova segura de que os The Men fazem aquilo que lhes dá na real gana. E nós estamos cá para os ouvir.

Nota Final: 8.6/10

João Morais

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Discos com Graça: Olhos de Mongol

Descomprometidos com o mundo, erguem-se em complexidades instrumentais capazes de nos preencher, centímetro a centímetro, milímetro a milímetro, a alma.

Olhos de Mongol trata-se de um disco extremamente coeso e penetrante, onde a sonoridade ganha asas e não desce dos céus e onde o lirismo, sempre simples e eficaz, funde-se com a complexidade instrumental e penetra-se pela nossa cabeça sem querer retornar à esfera real.

Com músicas absolutamente divinais, o quarteto edificou, indubitavelmente, um álbum [extremamente] rico em sonoridade, poesia e talento.

Olhos de Mongol obriga-nos a voltar a Outubro de 2006 [um ano depois de a banda ter lançado o seu primeiro EP, intitulado Linda Martini], e é constituído por 9 faixas com um total de, aproximadamente, 42 minutos. Tendo como editora a Naked, o álbum conta com:
1.       Sinto a cabeça a cair – Esta é a música mais simples de todo o LP, funcionando como uma introdução ao mesmo. Apesar de toda a sua simplicidade, é a partir do momento que escutamos esta faixa que começamos a ganhar consciência de que este Olhos de Mongol deve ser escutado atentamente, pois trata-se de um escape à esfera real. Começo razoável e intrigante.
2.       Cronófago – A partir da segunda faixa do registo são-nos introduzidas as poderosas guitarras com que o quarteto cessa a sua fome. Edifica-se, ao longo do tema, uma muralha de distorção soberba que, aliada a uma atmosfera potente, prende o ouvinte no verso «São carris que me prendem aqui/ à velha casa onde tudo é igual». Obrigando o ouvinte a deambular-se pelos vocativos empregues, salta-nos o desejo de querer esmiuçar o mesmo. Nesse «passeio» em torno do verso, ergue-se-nos a ideia dos conceitos de rotina, homogenia e igualdade [conceitos, esses, que nos persistirão até ao fim do LP]. Potente.
3.       Dá-me a tua melhor faca – Esta música é, simplesmente, demolidora. Nascendo no seio do poderio instrumental [com ênfase para as guitarras], um personagem aparece-nos abafado pela dor e, por isso, mudo. À medida que o quarteto se alimenta do seu som, a música, inicialmente ultra-violenta, vai desaguando numa sonoridade suave e agradável [fazendo, em muito, lembrar certas paragens do Post-Rock] e o dito personagem vai ganhando alento e coragem para nos relatar a sua dor. A dor que o inquietava, abrupta, teimava em não lhe dar tréguas e o sujeito, amedrontado com o cenário, julgava-se num labirinto rodopiante onde solucionar a sua saída era penetrar desenfreadamente pela sua maior ferida. Angustiado pela cena, mirava uma luz no fundo do túnel. Envolto de um ambiente sonoro agradável e calmo, o personagem [que fala mais do que canta] serve-se de um lirismo simples e repete continuamente o verso «Dá-me a tua melhor faca/ para cortarmos isto em dois/ e amanhã esquecer», num repetir apetrechado de uma réstia de esperança. Basilarmente, estes versos servem de metáfora à dor vivenciada pelo personagem naquele momento. Com a ânsia de aliviar a dor, destila uma solução. Seria mais fácil partir a sua dor em duas fatias, uma dor contada é uma dor acalmada. Naquela efemeridade de tempo em que repete desalmadamente o verso acima referido, o personagem procura alguém para falar, um colete salva-vidas que lhe impeça que a bala lhe penetre o peito. Após cinco pedidos de ajuda sem qualquer tipo de resposta, o ambiente calmo e agradável desta Dá-me a tua melhor faca sofre uma volta de 180 graus e tempera-se, nela, uma agressividade letal. O personagem sucumbe à dor e silencia-se até ao término da música. A dor vence-o e a bala penetrou-se-lhe. É criada uma atmosfera absolutamente divinal, fazendo com que as nossas pernas tremam, com que a nossa cabeça palpite, com que o nosso coração queira explodir. Uma música esquizofrénica, numa mistura de emoções tremenda. Fabulosa.
4.       Partir para ficar – O lirismo desta música deriva da lendária FMI, do célebre José Mário Branco. Depois do quarteto ter pegado numa parte da composição lírica acima referida, foi-lhe conferida uma paisagem reinada pela incerteza e por um ambiente sombrio. Trata-se de um poderio instrumental que é banhado por quantidades extremas de emoção. Obrigando o ouvinte a imaginar-se numa paisagem inóspita, rude, escura, soturna, incerta e atroz, acaba-se por construir um momento singular e saboroso. Excelente momento musical.
5.       Estuque – Provavelmente escrita com influências de Cláudia Guerreiro [licenciada em escultura], Estuque acaba-se por revelar um dos grandes tesouros do registo. Arquitectada com uma letra sublime, a faixa número cinco deste LP aparece-nos estruturada de uma forma visivelmente pensada. Moldada com uma sonoridade agradável, é aqui que André Henriques mostra-nos, inicialmente, a sua capacidade vocal, fazendo soar a sua voz melhor do que nunca. Envolvendo os fãs num ambiente rústico, esconde-se o melhor para o fim e, repentinamente, somos invadidos por um solo extraterrestre. Invasor.
6.       O amor é não haver polícia – Esta faixa retrata, muito possivelmente, a música mais intensa, apaixonante e dolorosa que já ouvi. Inicialmente falando mais do que cantando, gera-se um ambiente intrigante e escuro, cheio de incógnitas, banhado por uma sonoridade rica em conteúdo. Demonstrando toda a sua genialidade instrumental, à medida que a canção vai fluindo, vai ganhando ritmo e as palavras vão sendo debitadas com maior rapidez. Envolta por um ritmo acelerado, a música vai ganhando novos contornos e vai-se transformando numa faixa mais pesada. Agarrando o ouvinte no verso «Eu queria tanto parar aqui», solta-se um berro apaixonante e doloroso, exponenciando a vertente esquizofrénica do álbum para outro patamar. Liricamente trata-se de uma das faixas mais elaboradas do álbum com momentos líricos como, por exemplo, «O mundo é grande e em todo o lado se vive. Diz-lhe para parar aqui, vivemos em caixas de fósforos. Não sopres» a sobressaírem. Estupendo.
7.       Quarto 210 – A meu ver, trata-se da faixa menos conseguida de todo o registo. Apesar da vertente lírica ser simples e deliciosa, não se acha a «explosão» instrumental que se deambula pela nossa mente quando ouvimos Linda Martini. Repleta de soturnidade, este Quarto 210 aparece-nos, instrumentalmente, simples e sem qualquer manobra de distorção, acabando por deixar água na boca aos fãs mais vibrantes da banda. Razoável.
8.       Amor Combate – A faixa número 8 deste LP assinala a música mais conhecida de toda a discografia dos Linda Martini. Recheada por uma componente lírica sublime, este «Amor Combate» aparece-nos condimentada por uma sonoridade exímia. Uma banda que, geralmente, não prima pelos dotes vocais do seu vocalista [André Henriques], acaba por elaborar uma faixa onde André demonstra ser provido de uma agradável capacidade vocal. Também nesta faixa a bateria, com Hélio Morais ao leme, aparece-nos louca [e isto é um elogio]! De facto, Hélio Morais consegue demonstrar, não só nesta faixa mas também ao longo de todo o álbum, que é o melhor baterista português da actualidade. Com uma criatividade extraordinária e com uma energia tremenda, pega nas baquetas e toca como se o amanhã estivesse por um fio. Um arrojo musical extremamente bem conseguido. Formidável.
9.       A Severa (ver de perto)A Severa é o momento alto do registo, o seu clímax. Uma música progressiva, suave, lenta, rápida, agressiva, calma, esquizofrénica. Unem-se todos os vocativos que se empregam na caracterização de Olhos de Mongol, e obtém-se a descrição de A Severa (ver de perto). Abre-se uma guerra num reino de distorções e quatro versos de pura poesia banhado por um mar de talento e obtém-se uma faixa perfeita. Frenética.

Pautado por uma sonoridade única, por um lirismo repleto da alma vazia e por uma atmosfera incrivelmente intensa, Olhos de Mongol acaba por se revelar um dos registos mais intensos e ricos que já ouvi. As suas letras, intrigantes, criam uma fusão fria e escura com a sua instrumentalidade absolutamente esquizofrénica, conferindo vida extraterrestre à sua musicalidade.

Levando o ouvinte a devanear-se por cada canto da sua complexa forma oval e a acelerar o seu ritmo cardíaco a cada palavra soletrada, os Linda Martini, alheios a compromissos, soam-nos maravilhosos num rio de sentimento e intensidade. Num passeio exterior à esfera real, somos constantemente penetrados pela musicalidade arrepiante do quarteto faminto. Um som único e que prima pela sua originalidade.

Arrebatadores, Hélio Morais, Pedro Geraldes, André Henriques e Cláudia Guerreiro, continuam a dar provas de que existe vida para além desta esfera.

Emanuel Graça

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Discos com Graça: Grace

Jeff Buckley foi uma gota de cristal num rio imerso de ruídos sentimentalistas.

Na primeira estrofe de Grace, na suave Mojo Pin, Jeff Buckley dá a entender-nos o que canta ao longo do álbum: a sua dor e a sua necessidade de descobrir a essência da vida e do amor. Levando o ouvinte a viajar para outro mundo, este disco aparece-nos sob uma atmosfera intensa e sentimental.

O cantor norte-americano, filho da lenda Folk Tim Buckley, brinda-nos com uma voz absolutamente devastadora e bela, capaz de se deambular por rumos completamente opostos como, por exemplo, a voz explosiva e agressiva patenteada em Eternal Life e o registo suave e encantador em Lilac Wine. Com uma versatilidade fora do normal, o génio de Jeff Buckley emerge, também ele, na guitarra. Com músicas como Grace e So Real, ganhamos consciência de que o seu génio se despedaçava em pequenas parcelas que o cimentavam como um artista completo.

Outro dom notável do californiano era a sua aptidão para a escrita. Banhando as suas composições líricas em sentimento e emoção, Buckley demonstrava expressar-se de uma maneira única e sublime. Maior exemplo deste seu dom será, seguramente, a memorável Lover, You Should've Come Over.

Grace, um álbum imerso de graciosidade:
O disco remonta a Agosto de 1994 e é constituído por 10 faixas, com um total de 51 minutos e 44 segundos. Tendo como editora a Columbia Records, Grace  conta com:
1.       Mojo Pin – A primeira estrofe dá-nos a ideia do que Jeff Buckley pretende fazer ao longo de todo o disco. O álbum começa de uma maneira formidável, dando-nos, de imediato, a ideia de que devemos encará-lo de uma maneira bastante séria. Nesta primeira faixa Buckley aparece-nos demolidor, com uma capacidade vocal tremenda e capaz de aguentar notas longas por uma infinidade de tempo. De facto, é mesmo impressionante a quantidade de tempo que Buckley consegue gritar sem qualquer tipo de desafinação. Começando por ser suave, a música vai-se compondo e tornando robusta até que atinge o clímax. Este clímax dá-se quando a dor do cantor decide começar a gritar desenfreadamente silenciando a suavidade com que o cantor havia cantado até então. É, sem margem para dúvidas, um começo estupendo.
2.       Grace – A música que partilha o seu título com o LP é, indubitavelmente, um dos pontos altos do mesmo. Liricamente, esta música traz-nos a concepção do cantor acerca de diversas temáticas como, por exemplo, a morte. Esta faixa abre com um riff absolutamente estupendo e aparece-nos, novamente, com um personagem que canta de uma maneira triste e escura. Com uma instrumentalidade única, Jeff prepara, ao longo da música, o momento da sua explosão. Levando-nos a divagar no verso «Wait in the fire», Buckley explode, uma vez mais, e solta a dor que há em si. Ao leme do poderio instrumental (com realce para a bateria), solta-se o vazio que existia no cantor e somos invadidos por um grito sobrenatural e que nos leva para outra galáxia. Magnífico.
3.       Last Goodbye – A fatia do génio de Buckley que mais sobressai nesta música é o seu modo de escrever. Com uma linha de baixo agradável, edifica-se uma música que descreve o fim de uma relação como ponto de partida para o entendimento do quão importante uma pessoa pode ser na vida de outra pessoa. Ao invés das primeiras duas músicas, esta faixa não nos aparece marcada por nenhum momento de explosão. A voz de Jeff mantém-se regular desde o início ao fim, sempre afinada e bela. Sentimental.
4.       Lilac Wine - Lilac Wine é a primeira faixa do álbum que não é escrita pelo cantor norte-americano. Esta composição lírica foi escrita por James Sheldon no longínquo ano de 1950, tendo várias interpretações como, por exemplo, a de Nina Simone e a de Elkie Brooks. Com uma instrumentalidade simples, dá-se, uma vez mais, alento à capacidade vocal de Jeff, e constrói-se, a meu ver, uma das melhores covers alguma vez feitas. Penetrante.
5.       So Real – Esta música é, se é que posso afirmar isto, a minha favorita de todo o álbum. E, além disso, foi através desta música que comecei a atentar, música a música, estrofe a estrofe, verso a verso, em Jeff Buckley. Com uma instrumentalidade, uma vez mais, demolidora, a composição lírica é envolta de ouro. No refrão, o verso «Oh that was so real», a bateria e o baixo ganham volume e corpo e a música ganha vida. Num certo momento, Buckley aparece-nos apenas a falar e não a cantar, fala de uma maneira assustadora e cria-se uma atmosfera suja e escura. Nesta faixa assinala-se um ponto de viragem em Grace, passando-se de uma música mais simples para uma música mais complexa e, ainda mais, sentimental. Perfeita.
6.       Hallelujah – A música mais reconhecida de toda a discografia de Jeff Buckley é Hallelujah. Originalmente escrita e interpretada pela lenda Leonard Cohen, esta é a faixa que exponencia o talento incrível de Buckley para a guitarra. Ao longo desta relíquia musical, dá-se uma fusão encantadora e apaixonante entre a guitarra e a voz do cantor. No decorrer de toda a música, Jeff presenteia-nos com momentos em que parece apaixonar-se pelo que canta e quando o faz é simplesmente incrível. Canta com a alma a transbordar amor e paixão, canta de uma maneira sublime e dá uma nova vida à música de Cohen. Esta é a maior música de todo o álbum, tendo 6 minutos e 53 segundos. Sendo uma das pérolas da discografia de Buckley, esta música alargou-se à escala global e transformou-se numa das melhores covers de sempre. A meu ver, esta interpretação de Buckley consegue mesmo ser superior (e em muito) à sua versão original. Um dos momentos de Grace. Apaixonante.
7.       Lover, You Should've Come Over – A faixa número 7 de Grace é, sem margem para dúvidas, a melhor música do álbum [Contudo, não se trata da minha favorita]. Com uma sonoridade exímia, esta música aparece-nos envolta de um lirismo perfeito. Esta é, mesmo, uma das músicas mais emocionantes e sentimentais que já ouvi. A canção assenta numa das temáticas que mais encabeçam o LP, assentando na «perda de alguém», no «amor vazio» … A ânsia desmedida do querer preencher o vazio que ficou no seu coração, notória na sua voz, aliada à tristeza musical que é sentida, criam uma atmosfera intensa e agarram o ouvinte durante os «longos» 6 minutos e 43 segundos. Ouro sobre azul, brilhante.
8.       Corpus Christi CarolCorpus Christi Carol é a outra música do registo em que a letra não conta com a autoria do cantor norte-americano [O autor deste belo poema é desconhecido e remota o século XVI]. É, a meu ver, o ponto baixo de todo o álbum. A voz de Buckley aparece, mais uma vez, deslumbrante, mas não se sente a presença do cantor como se sentia nas outras músicas até aqui analisadas. É uma música que parece um pouco desenquadrada com o panorama de todo o disco e parece-me um pouco desfasada daquele «ponto de viragem» que referi na faixa So Real. Sem muito  por onde explorar, trata-se de uma música com uma sonoridade bastante simples e fina que acaba por funcionar bem. Razoável.
9.       Eternal Life - «This is a song about...it’s an angry song. Life's too short and too complicated for people behind desks and people behind masks to be ruining other people's lives, initiating force against other people's lives on the basis of their income, their color, their class, their religious beliefs, their whatever...» disse Jeff Buckley em Live at Sin-é [disco ao vivo que aconselho vivamente]. De facto, nesta música conhecemos um novo Jeff Buckley, que canta efusivamente a raiva que sente. Fustigado pela necessidade de descobrir a real essência da vida e do amor, o cantor presenteia-nos com a sua versatilidade genial. Aparecendo-nos com uma sonoridade violenta, é uma música que contrasta evidentemente com todo o álbum, dando-lhe uma nova amplitude. Repleta de mensagem e de conselhos e apetrechada de um lirismo simples mas eficaz, a voz de Buckley soa-nos agressiva e encoraja-nos a esquecer tudo porque a vida é demasiado curta, não sendo eterna, e merece, por isso, ser [bem] vivida. Absolutamente genial.
10.   Dream Brother – Esta música revela-nos uma musicalidade misteriosa que remete-nos, em parte, para um estilo indiano. [De facto, Buckley era adepto de música indiana; aliás, chegou mesmo a interpretar a célebre Yeh Jo Halka Saroor Hai, de Nusrat Fateh Ali Khan, em Sin-é] Do ponto de vista lírico, podemos dizer que a música retrata-nos uma introspecção de Buckley acerca da sua infância e acerca do seu pai, Tim Buckley. Notam-se, por isso mesmo, evidências do quão profundo é o sentimento do cantor na escolha do vocabulário a empregar nesta canção. A guitarra e a bateria, uma vez mais predominantes nas músicas do cantor, fundem-se com a sua voz elegante e criam, novamente, uma atmosfera intensa que se vai intensificando ao longo de todo o arrojo musical. Um desenlace muitíssimo bom.

O álbum Grace, de Jeff Buckley, é, muito provavelmente, o LP mais intenso, emocionante, poético e belo que eu alguma vez ouvi. Num disco repleto de sentimento, Buckley consegue produzir um som onde demonstra ter capacidades vocais (quase) sobrenaturais e um talento imenso para a guitarra, isto tudo, aliado à mestria com que o norte-americano escrevia.

Jeff Buckley é um daqueles artistas que tinha tudo para singrar a solo. A aliança entre a sua voz, absolutamente poderosa, a sua enorme capacidade para escrever, a sua versatilidade e o seu dom para a guitarra geram-nos a ideia de que, se hoje fosse vivo, Jeff seria uma daqueles artistas consagrados à escala global.

Gracioso, haverá sempre um cristal cintilante que brilha no fundo de um rio.


Emanuel Graça