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domingo, 3 de novembro de 2013

Turbo Lento

Volvidos três anos sobre o lançamento de Casa Ocupada (2010), disco que catapultou o grupo lisboeta para o topo da pirâmide alternativa nacional, eis que nos chega às mãos o terceiro LP dos Linda Martini. Com o título paradoxal de Turbo Lento, o mais recente trabalho do projecto formado por Hélio Morais (bateria/voz), Cláudia Guerreiro (baixo/voz), André Henriques (voz/guitarra) e Pedro Geraldes (guitarra/voz) foi para as lojas a 30 de Setembro, com o selo da Universal.

A crítica completa pode ser lida no Espalha Factos.

domingo, 29 de setembro de 2013

À conversa com os Linda Martini

Foi numa tarde abrasadoramente quente que nos sentámos à conversa com Cláudia Guerreiro e Hélio Morais, baixo e bateria dos Linda Martini, quarteto lisboeta formado em 2003 e que conta também com André Henriques na voz e guitarra e Pedro Geraldes na guitarra. O pretexto para este encontro, que teve lugar numa acolhedora mesa na Casa Independente, em Lisboa, foi o terceiro LP de originais do grupo, Turbo Lento, com lançamento agendado para amanhã, e que marca os dez anos de carreira do grupo.

A entrevista pode ser lida no Espalha Factos.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Entrevista: Linda Martini

Os Linda Martini são um quarteto lisboeta composto por André Henriques, Hélio Morais, Pedro Geraldes e Cláudia Guerreiro. Formados em 2003, produziram o seu primeiro registo em 2005, o EP homónimo Linda Martini, onde nasceram faixas como Este Mar e a célebre Amor Combate.

Desde muito cedo cultivam uma vasta legião de fãs, sempre pronta a prestar-lhes culto, e que só aumentou com a estreia nos LP’s, em 2006, com o sublime Olhos de Mongol. Sempre com uma sonoridade própria, com uma entrega imensa e com os lirismos muito bem conseguidos, foram acumulando notoriedade e  popularidade junto do público através dos lançamentos dos EP’s Marsupial e Intervalo.

Se eram já uma das bandas mais adoradas no panorama alternativo português, Casa Ocupada, lançado em 2010, catapultou-os ainda mais para o topo, quer em termos de fãs quer em termos qualitativos. De promessa, rapidamente se consolidaram como uma das melhores bandas portuguesas de todos os tempos. São os Linda Martini, e o Música Dot Com falou com eles:

Os Linda Martini surgiram depois dos elementos da banda terem andado na estrada com projectos musicais que enveredavam uma vertente mais marcada pelo hardcore e pelo punk. De que modo julgam estarem presentes estes géneros musicais na vossa sonoridade?
Linda Martini: Na maneira como fazemos e encaramos a música, essencialmente. Temos sempre a última palavra nas decisões que afectam a carreira da banda. Não temos um manager omnipotente. Estamos sempre por dentro de todas as decisões, sejam elas de edição, promoção, merchandising, etc. E no gostarmos de tocar alto e sujo, claro.

Na vossa já longa carreira [contam com quase 10 anos de existência] sucederam-se já algumas peripécias relevantes que sentenciaram os Linda Martini tal qual como são hoje. Uma dessas situações foi a saída do Sérgio, membro fundador do grupo, e as razões para esse afastamento nunca foram muito explícitas. Que circunstâncias ditaram a sua saída?
LM: Nenhuma circunstância especial que mereça grandes comentários. A vida é feita de amores e desamores, de vontades simultâneas e de vontades desencontradas. O Sérgio seguiu um caminho, a dada altura, e os restantes membros seguiram outro. Simples, sem grandes dramas. Mantemos contacto.

A vossa música prima pela sua originalidade e criatividade. Notam-se suaves aromas de bandas como Sonic Youth, At The Drive-in, ou até mesmo, e numa dose menos carregada, Nirvana, mas o que é facto é que vocês conseguem fazer do vosso som, um som único. Se vos pedissem para caracterizar o vosso género musical, como o classificariam?
LM: Rock!

Contam, até agora, com uma discografia constituída por três EP’s (Linda Martini, Marsupial e Intervalo) e com dois LP’s (Olhos de Mongol e Casa Ocupada). Nestes 9 anos de Linda Martini qual foi o registo que mais vos deu prazer em trabalhar, e porquê?
LM: Todos eles foram especiais à sua maneira. O Linda Martini foi o início e por isso tem logo uma carga muito forte. O Olhos de Mongol foi um disco em que conseguimos explorar várias coisas que queriamos experimentar. O Marsupial foi um disco mais tranquilo, em que deixámos as canções respirarem um pouco mais e foi um disco em que compusemos bastante já no estúdio. O Intervalo foi o disco em que decidimos convidar aqueles que nos acompanham nos concertos, para fazerem parte desse mesmo registo e foi igualmente o disco que nos fez perceber que gostamos de gravar em registo directo. O Casa Ocupada foi o disco mais directo e intenso que gravámos e foi também em registo directo, pelo que nos fez sentir uma banda mais coesa, logo na gravação. Quando o gravámos, já sabiamos tocar as músicas bem.
São cada vez mais idolatrados no panorama musical português. São constantemente invadidos pelo carinho do público, o que é notório nos vossos concertos ao vivo. Foi neste contexto que decidiram elaborar um registo mais «ao vivo» como Casa Ocupada, criando um ambiente propício a estabelecer-se uma simbiose perfeita entre a banda e o público com momentos como, por exemplo, a faixa Cem Metros Sereia a servir de mote?
LM: Não pensámos muito no Casa Ocupada. Na verdade, as primeiras quatro músicas que fizemos foram a Belarmino Vs., a Ameaça menor, a Queluz menos luz e a S de Jéssica. Portanto poderíamos ter ido num registo mais instrumental ou mais rock, nessa fase. Intuitivamente, acabámos por ir no sentido mais rock do material que tínhamos na altura.

Existe muita gente que vos apelida de “Os Sonic Youth Portugueses”. A faixa Juventude Sónica, de Casa Ocupada, é, de algum modo, uma crítica a essa opinião? Com que atitude encaram essa comparação?
LM: Sempre achámos um pouco redutora a comparação. Quando fizemos a Juventude Sónica, foi a primeira vez que pensámos: “Hey! Isto lembra um pouco Sonic Youth”. E por isso decidimos facilitar o trabalho a quem está sempre à procura de algo para criticar.

Quem é o principal responsável pelas letras das músicas dos Linda Martini?
LM: O André.

As vossas letras apresentam, quase todas elas, um lirismo simples e uma estrutura reduzida. Faixas (de sucesso estrondoso) como Dá-me a tua melhor faca ou Elevador são exemplos máximos disso mesmo. É na premissa de dar alento ao vosso poder instrumental que optam por composições líricas mais pequenas ou existe uma segunda intenção como, por exemplo, criar, através dessas mesmas letras, uma atitude introspectiva no ouvinte?
LM: Há sobretudo uma preocupação de não escrever só por escrever. Se a música pede só um verso, é isso que lhe damos. Se uma frase sozinha fala pela música toda, não vamos estar a inventar mais e com isso retirar força a essa mesma frase. É algo também muito intuitivo.

Qual o concerto que, até hoje, mais tiveram prazer em dar e qual o vosso palco de sonho?
LM: É um pouco complicado escolher um. Já fomos muito felizes em Paredes de Coura (das duas vezes), no Optimus Alive de 2009, no Ritz (este ano), nas Noites Ritual (2011), na ZDB (2011), etc. Palco de sonho, acho que não temos. Até porque às vezes, um palco de sonho pode-se revelar num pesadelo de concerto.

Actuaram, há pouquíssimo tempo, no San Miguel Primavera Sound, em Barcelona. Como foi tocar ao lado de bandas tão icónicas como, por exemplo, Mudhoney ou The Cure? E qual foi a reacção de nuestros hermanos à vossa performance? E quanto à actuação de Paus, alguma coisa a dizer?
LM: Não chegámos a estar sequer em contacto com essas bandas, ainda que tenhamos tocado no mesmo palco que The xx e afins. Somente nos cruzámos com os Friends. Quanto à reacção, foi a esperada; as pessoas estavam-nos a conhecer e ainda que não interagissem durante as músicas como estamos habituados em Portugal, entre elas eram bastante carinhosos e batiam bastantes palmas. PAUS também foi um bom concerto e divertiram-se todos bastante.

Quando pretendem matar a fome dos fãs com um lançamento de mais algum álbum ou de algum EP? Estão previstos, para breve, novos projectos?
LM: Estamos neste momento a fazer o terceiro longa duração. A ideia é gravar lá para o fim do ano e editar em 2013, para comemorar 10 anos de Linda Martini. Mas é acompanhar o nosso Facebook, para se saber de como as coisas estão a correr.

Entrevista realizada por mail por Emanuel Graça
Fotos da autoria de Paulo Segadães, gentilmente cedidas pela banda.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Discos com Graça: Olhos de Mongol

Descomprometidos com o mundo, erguem-se em complexidades instrumentais capazes de nos preencher, centímetro a centímetro, milímetro a milímetro, a alma.

Olhos de Mongol trata-se de um disco extremamente coeso e penetrante, onde a sonoridade ganha asas e não desce dos céus e onde o lirismo, sempre simples e eficaz, funde-se com a complexidade instrumental e penetra-se pela nossa cabeça sem querer retornar à esfera real.

Com músicas absolutamente divinais, o quarteto edificou, indubitavelmente, um álbum [extremamente] rico em sonoridade, poesia e talento.

Olhos de Mongol obriga-nos a voltar a Outubro de 2006 [um ano depois de a banda ter lançado o seu primeiro EP, intitulado Linda Martini], e é constituído por 9 faixas com um total de, aproximadamente, 42 minutos. Tendo como editora a Naked, o álbum conta com:
1.       Sinto a cabeça a cair – Esta é a música mais simples de todo o LP, funcionando como uma introdução ao mesmo. Apesar de toda a sua simplicidade, é a partir do momento que escutamos esta faixa que começamos a ganhar consciência de que este Olhos de Mongol deve ser escutado atentamente, pois trata-se de um escape à esfera real. Começo razoável e intrigante.
2.       Cronófago – A partir da segunda faixa do registo são-nos introduzidas as poderosas guitarras com que o quarteto cessa a sua fome. Edifica-se, ao longo do tema, uma muralha de distorção soberba que, aliada a uma atmosfera potente, prende o ouvinte no verso «São carris que me prendem aqui/ à velha casa onde tudo é igual». Obrigando o ouvinte a deambular-se pelos vocativos empregues, salta-nos o desejo de querer esmiuçar o mesmo. Nesse «passeio» em torno do verso, ergue-se-nos a ideia dos conceitos de rotina, homogenia e igualdade [conceitos, esses, que nos persistirão até ao fim do LP]. Potente.
3.       Dá-me a tua melhor faca – Esta música é, simplesmente, demolidora. Nascendo no seio do poderio instrumental [com ênfase para as guitarras], um personagem aparece-nos abafado pela dor e, por isso, mudo. À medida que o quarteto se alimenta do seu som, a música, inicialmente ultra-violenta, vai desaguando numa sonoridade suave e agradável [fazendo, em muito, lembrar certas paragens do Post-Rock] e o dito personagem vai ganhando alento e coragem para nos relatar a sua dor. A dor que o inquietava, abrupta, teimava em não lhe dar tréguas e o sujeito, amedrontado com o cenário, julgava-se num labirinto rodopiante onde solucionar a sua saída era penetrar desenfreadamente pela sua maior ferida. Angustiado pela cena, mirava uma luz no fundo do túnel. Envolto de um ambiente sonoro agradável e calmo, o personagem [que fala mais do que canta] serve-se de um lirismo simples e repete continuamente o verso «Dá-me a tua melhor faca/ para cortarmos isto em dois/ e amanhã esquecer», num repetir apetrechado de uma réstia de esperança. Basilarmente, estes versos servem de metáfora à dor vivenciada pelo personagem naquele momento. Com a ânsia de aliviar a dor, destila uma solução. Seria mais fácil partir a sua dor em duas fatias, uma dor contada é uma dor acalmada. Naquela efemeridade de tempo em que repete desalmadamente o verso acima referido, o personagem procura alguém para falar, um colete salva-vidas que lhe impeça que a bala lhe penetre o peito. Após cinco pedidos de ajuda sem qualquer tipo de resposta, o ambiente calmo e agradável desta Dá-me a tua melhor faca sofre uma volta de 180 graus e tempera-se, nela, uma agressividade letal. O personagem sucumbe à dor e silencia-se até ao término da música. A dor vence-o e a bala penetrou-se-lhe. É criada uma atmosfera absolutamente divinal, fazendo com que as nossas pernas tremam, com que a nossa cabeça palpite, com que o nosso coração queira explodir. Uma música esquizofrénica, numa mistura de emoções tremenda. Fabulosa.
4.       Partir para ficar – O lirismo desta música deriva da lendária FMI, do célebre José Mário Branco. Depois do quarteto ter pegado numa parte da composição lírica acima referida, foi-lhe conferida uma paisagem reinada pela incerteza e por um ambiente sombrio. Trata-se de um poderio instrumental que é banhado por quantidades extremas de emoção. Obrigando o ouvinte a imaginar-se numa paisagem inóspita, rude, escura, soturna, incerta e atroz, acaba-se por construir um momento singular e saboroso. Excelente momento musical.
5.       Estuque – Provavelmente escrita com influências de Cláudia Guerreiro [licenciada em escultura], Estuque acaba-se por revelar um dos grandes tesouros do registo. Arquitectada com uma letra sublime, a faixa número cinco deste LP aparece-nos estruturada de uma forma visivelmente pensada. Moldada com uma sonoridade agradável, é aqui que André Henriques mostra-nos, inicialmente, a sua capacidade vocal, fazendo soar a sua voz melhor do que nunca. Envolvendo os fãs num ambiente rústico, esconde-se o melhor para o fim e, repentinamente, somos invadidos por um solo extraterrestre. Invasor.
6.       O amor é não haver polícia – Esta faixa retrata, muito possivelmente, a música mais intensa, apaixonante e dolorosa que já ouvi. Inicialmente falando mais do que cantando, gera-se um ambiente intrigante e escuro, cheio de incógnitas, banhado por uma sonoridade rica em conteúdo. Demonstrando toda a sua genialidade instrumental, à medida que a canção vai fluindo, vai ganhando ritmo e as palavras vão sendo debitadas com maior rapidez. Envolta por um ritmo acelerado, a música vai ganhando novos contornos e vai-se transformando numa faixa mais pesada. Agarrando o ouvinte no verso «Eu queria tanto parar aqui», solta-se um berro apaixonante e doloroso, exponenciando a vertente esquizofrénica do álbum para outro patamar. Liricamente trata-se de uma das faixas mais elaboradas do álbum com momentos líricos como, por exemplo, «O mundo é grande e em todo o lado se vive. Diz-lhe para parar aqui, vivemos em caixas de fósforos. Não sopres» a sobressaírem. Estupendo.
7.       Quarto 210 – A meu ver, trata-se da faixa menos conseguida de todo o registo. Apesar da vertente lírica ser simples e deliciosa, não se acha a «explosão» instrumental que se deambula pela nossa mente quando ouvimos Linda Martini. Repleta de soturnidade, este Quarto 210 aparece-nos, instrumentalmente, simples e sem qualquer manobra de distorção, acabando por deixar água na boca aos fãs mais vibrantes da banda. Razoável.
8.       Amor Combate – A faixa número 8 deste LP assinala a música mais conhecida de toda a discografia dos Linda Martini. Recheada por uma componente lírica sublime, este «Amor Combate» aparece-nos condimentada por uma sonoridade exímia. Uma banda que, geralmente, não prima pelos dotes vocais do seu vocalista [André Henriques], acaba por elaborar uma faixa onde André demonstra ser provido de uma agradável capacidade vocal. Também nesta faixa a bateria, com Hélio Morais ao leme, aparece-nos louca [e isto é um elogio]! De facto, Hélio Morais consegue demonstrar, não só nesta faixa mas também ao longo de todo o álbum, que é o melhor baterista português da actualidade. Com uma criatividade extraordinária e com uma energia tremenda, pega nas baquetas e toca como se o amanhã estivesse por um fio. Um arrojo musical extremamente bem conseguido. Formidável.
9.       A Severa (ver de perto)A Severa é o momento alto do registo, o seu clímax. Uma música progressiva, suave, lenta, rápida, agressiva, calma, esquizofrénica. Unem-se todos os vocativos que se empregam na caracterização de Olhos de Mongol, e obtém-se a descrição de A Severa (ver de perto). Abre-se uma guerra num reino de distorções e quatro versos de pura poesia banhado por um mar de talento e obtém-se uma faixa perfeita. Frenética.

Pautado por uma sonoridade única, por um lirismo repleto da alma vazia e por uma atmosfera incrivelmente intensa, Olhos de Mongol acaba por se revelar um dos registos mais intensos e ricos que já ouvi. As suas letras, intrigantes, criam uma fusão fria e escura com a sua instrumentalidade absolutamente esquizofrénica, conferindo vida extraterrestre à sua musicalidade.

Levando o ouvinte a devanear-se por cada canto da sua complexa forma oval e a acelerar o seu ritmo cardíaco a cada palavra soletrada, os Linda Martini, alheios a compromissos, soam-nos maravilhosos num rio de sentimento e intensidade. Num passeio exterior à esfera real, somos constantemente penetrados pela musicalidade arrepiante do quarteto faminto. Um som único e que prima pela sua originalidade.

Arrebatadores, Hélio Morais, Pedro Geraldes, André Henriques e Cláudia Guerreiro, continuam a dar provas de que existe vida para além desta esfera.

Emanuel Graça