quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Slave Ambient


Em 2003, Adam Granduciel Kurt Vile, ambos da cidade de Philadelphia, decidiram juntar-se e criar um grupo de Folk Rock, os The War on Drugs. Após um elogiado disco de estreia, Wagonwheel Blues (2008), Vile saiu da banda, para perseguir uma bem sucedida carreira a solo. Agora, quase três anos depois do primeiro LP, surge o segundo registo do grupo, Slave Ambient, que chegou às lojas no passado dia 15 de Agosto, e que será hoje alvo de crítica.

Ao ouvir Wagonwheel Blues, encontrei uma banda cuja sonoridade se assemelhava à obra a solo de Kurt Vile: uma mistura do Folk e Folk Rock com a distorção e efeitos vindos do Shoegaze de bandas como os My Bloody Valentine ou The Jesus and Mary Chain. Confesso que apreciei, mas não posso dizer que Wagonwheel Blues tenha sido uma obra prima, pois a meu ver sofria de desequilíbrios de qualidade tremendos. Contudo, o mesmo não se passa com Slave Ambient.

À semelhança do primeiro álbum, Slave Ambient também aposta no cruzamento do Folk e do Folk Rock com o Shoegaze e a Dream Pop. Porém, se em Wagonwheel Blues encontrávamos um maior aproximação à Folk e uma instrumentação mais forte, neste segundo disco os The War on Drugs apostaram pelo outro lado do espectro, surgindo com um LP muito mais inclinado para os ambientes etéreos e hipnóticos da Dream Pop.

Contudo, no departamento vocal, Granduciel continua a soar a um meio caminho entre Bob Dylan e Bruce Springsteen, um autêntico regalo para quem, como eu, gosta dessas vozes “carismáticas”. Ao nível da produção, existe um maior cuidado do que no disco de estreia, mas continuamos a ter um clima muito “sonhador” em todo o registo, algo que me agradou bastante. A homogeneidade de Slave Ambient também é, sem dúvida, um factor muito positivo.

Porém, devo dizer que nem tudo esteve do meu agrado neste álbum. Um dos principais problemas é, a meu ver, o facto de existirem alguns “interlúdios” instrumentais entre canções, que destoam do ambiente geral do resto do disco, e que chegam a cortar várias vezes o andamento do LP.

Outro problema é o facto de alguma das canções deste Slave Ambient me soarem um pouco desinspiradas. Não digo que sejam más, mas simplesmente não estão ao nível de outras, e eu falho em sentir uma ligação com elas, o que a meu ver retira algum do brilho deste disco.

Como melhores faixas deste disco, destaco a alegre Brothers, a fervilhante Your Love Is Calling My Name, e a minha preferida do álbum, Baby Missiles, que passa um sentimento de urgência que faz dela uma canção muito forte. As peças menos boas são, a meu ver I Was There, The Animator ou City Reprise #12, que padecem de todas as falhas que enunciei anteriormente.

Em suma, Slave Ambient é um belo disco, que mostra uma franca melhoria em relação ao seu antecessor, Wagonwheel Blues. Apesar de manter alguma da estética do álbum de estreia, este LP mostra uma banda que não tem medo de mudar a sua sonoridade e arriscar, e isso é algo que valorizo muito. Esperemos que essa coragem se mantenha para ver se da próxima vez os The War on Drugs conseguem surpreender ainda mais.

Nota Final: 8,2/10


João Morais


[Este texto foi originalmente publicado no Espalha Factos, podendo ser lido aqui]

sábado, 17 de dezembro de 2011

Curtas 2011 - Série I


Com o final de ano a aproximar-se chega também a altura de olhar para os últimos 12 meses e analisar os discos que “escaparam” das malhas das reviews, para poder ter um panorama mais completo do que foi a música de 2011. Para o MDC esse trabalho é longo e árduo, e por isso inicio aqui uma rubrica que será recorrente nos próximos dias, o Curtas 2011, que visa dar uma breve vista de olhos pelos álbuns que, infelizmente, foram negligenciados aquando do seu lançamento, mas que se vêem agora justiçados.

Father, Son, Holy GhostGirls (Setembro)
- Após o hype de Album (2009), LP de estreia dos Girls que fundia o Lo-fi  tipicamente Indie com um leque vasto de influências como The Beach Boys, Elvis Costello ou Spiritualized, o grupo de Christopher Owens voltou este ano a estúdio para lançar este Father, Son, Holy Ghost, um disco que traz algumas mudanças na sonoridade da banda. Uma produção mais polida e com muito menos Lo-fi, e um som fortemente influenciado pelos anos 60 e 70 (veja-se Die, que “tresanda” a Fleetwood Mac) traduzem-se num disco que é, a meu ver, mais fraco que o seu antecessor, mas que ainda assim consegue ser um belo registo, merecedor de atenção por parte dos melómanos fãs de Indie Rock.
Pontos altos:
- Die
- Vomit
- Jamie Marie
Nota Final: 7,0/10
Gloss Drop – Battles (Junho)
- Reflexo da saída do vocalista e multi-instrumentalista Tyondai Braxton, este Gloss Drop revela-se como um álbum maioritariamente instrumental, se bem que pontualmente polvilhado de (brilhantes) participações especiais de vocalistas convidados (como Gary Numan em My Machines ou Matias Aguayo em Ice Cream). No geral, o Math Rock dos nova-iorquinos Battles surge em Gloss Drop mais fluído e solto do que em Mirrored (2007), traduzindo-se num LP bastante experimental, mas com uma enorme consistência ao nível da qualidade. Fica-se à espera do que estes norte-americanos terão para dizer no próximo disco, mas a verdade é que este Gloss Drop colocou a fasquia num patamar bastante elevado.
Pontos altos:
- Ice Cream
- Wall Street
- White Electric
Nota Final: 8,3/10
James Blake – James Blake (Fevereiro)
- Visto por várias publicações de música como o disco do ano, este primeiro LP do britânico James Blake veio surpreender muita gente com a forma como juntou Electronica e Post-Dubstep com Soul e R&B, cortando com a tendência que tinha vindo a seguir nos EP’s que antecederam este James Blake. Contudo, apesar da inovação ser bastante interessante, não posso dizer que este registo me tenha conquistado por inteiro. É certo que estão aqui presentes canções de grande nível, com uma sensibilidade tocante, mas a verdade é que, a meu ver, algumas das faixas com maior potencial acabaram por ser “esmagadas” pelo experimentalismo cego da sua Electronica e o uso constante do Auto-Tune. Em suma, não é uma má estreia, mas acabou por me parecer apenas uns furos acima do mediano.
Pontos altos:
- The Wilhelm Scream
- Limit to Your Love
- To Care (Like You)
Nota Final: 6,8/10
The Hunter – Mastodon (Setembro)
- Quinto álbum de um dos nomes mais sonantes do Sludge Metal, The Hunter mostra uns Mastodon que decidiram fazer algumas reestruturações na sua fórmula clássica. Mudando um cânone cujas origens remontam a Remission (2002), The Hunter afasta os épicos conceptuais “Prog-escos” de 15 minutos e aposta em 13 canções curtas, fortes e directas. Contudo, existe uma certa continuidade, tanto na sonoridade de base (que se mantém numa fusão entr o Sludge e o Progressive Metal) como nas líricas (que preservam a estética baseada em grandes clássicos da literatura e mitologias ancestrais), que irá de certo agradar à “velha guarda” dos fãs do grupo. Resumindo, The Hunter é um belíssimo disco que veio trazer uma certa frescura a uma fórmula vencedora.
Pontos altos:
- Black Tongue
- Blasteroid
- Dry Bone Valley
Nota Final: 8,0
Metals – Feist (Outubro)
- Que seria difícil suceder ao hiper-aclamado The Reminder (2007), já toda a gente sabia. Infelizmente, eu não estava à espera de ficar tão desiludido com o quarto disco da canadiana Leslie Feist. Apesar de louvar a tentativa de inovação, e da exploração de ambientes mais negros e introspectivos, a verdade é que este Metals não consegue passar da mediocridade, pois acaba por se tornar demasiado monótono e sonolento, devido ao excessivo uso do “piano choradinho”, que falha em complementar bem as canções. Embora estejam também presentes algumas peças de grande qualidade, que de facto mostram o quão talentosa Feist, a verdade é que este Metals acaba por ser, na minha opinião, um grande retrocesso em relação ao trabalho demonstrado em The Reminder.
Pontos altos:
- A Commotion
- Undiscovered First
- Comfort Me
Nota Final: 5,5/10
The Year of HibernationYouth Lagoon (Setembro)
- Projecto nascido da mente de Trevor Powers, Youth Lagoon é um dos nomes que mais hype tem gerado dentro da cena Indie norte-americana. Com uma estética Chillwave bem presente, The Year of Hibernation prima pelo tom intimista e tocante que a mistura da Lo-fi, Synthpop e Dream Pop conferem à sonoridade deste disco. Contudo, esta pequena pérola de 8 faixas não é perfeita, pelo que se nota alguma homogeneidade no registo, que faz com que às vezes pareça que não há quase diferença entre canções. Contudo, esta é uma bela estreia de Powers, que irá fazer as delícias de muito aficionado do Chillwave. Destaque também para 17, um dos grandes temas de 2011.
Pontos altos:
- Afternoon
- 17
- Daydream
Nota Final: 7,7/10
Bon Iver, Bon IverBon Iver (Junho)
- Começando como projecto a solo do norte-americano Justin Vernon, que se tornou num dos grandes nomes do Indie em 2008 com o brilhante For Emma, Forever Ago, Bon Iver (agora em formato banda) regressou este ano com o duplamente homónimo Bon Iver, Bon Iver, um disco que conseguiu surpreender toda a gente, pela inesperada transição directa do Folk para o Baroque Pop, o que acaba por ser, para mim, tanto bom quanto mau. Apesar de apreciar a constante inovação e renovação por parte dos artistas, a verdade é que a ruptura de um intimismo solitário do duo cantautor/guitarra para uma panóplia imensa de sons e instrumentos acaba por, em algumas ocasiões, “encher” o som e matar a “sinceridade” que eu tanto apreciei em For Emma, Forever Ago. Conclusão: Bon Iver, Bon Iver é um bom disco, mas confesso que esperava melhor.
 Pontos altos:
- Perth
- Holocene
- Calgary
Nota Final: 7,3/10
GoblinTyler, The Creator (Maio)
- Um dos principais membros dos Odd Future (ou OFWGKTA), grupo de rappers e produtores de Alternative Hip-Hop californianos, Tyler, The Creator é, provavelmente, o artista mais polémico de 2011, quer pelas acusações de misoginia e homofobia de que é alvo, que pelos polémicos videoclips que imagina para as suas canções. Este ano, lançou o sucessor de Bastard (2009), Goblin, o seu segundo disco a solo, e cuja sonoridade se mantém bem assente em letras provocantes e em ritmos electrónicos gélidos, mas que acaba por falhar em suceder condignamente ao “primogénito”, devido à sua gritante irregularidade ao nível da qualidade. É certo que algumas canções são bastante boas, mas no geral confesso-me desiludido com este Goblin.
Pontos altos:
- Yonkers
- She
- Sandwitches
Nota Final: 5,3/10
Era Extraña – Neon Indian (Setembro)
- Para quem não conhece, os Neon Indian são um dos grandes nomes do movimento Chillwave (a par de projectos como Toro Y Moi ou Washed Out), criado pelas mãos de Alan Palomo, e que se estreou em 2009, com o mui badalado Psychic Chasms. Agora, em 2011, surge o segundo disco da banda, Era Extraña, que continua na linha de fusão do Indie Pop com a Lo-fi que imperava em Psychic Chasms, mas de forma mais sólida e consistente, algo que me agradou imenso. Os vocais etéreos, as batidas frenéticas, as distorções hipnóticas,os samples de antigos jogos de arcada (oiça-se Arcade Blues), tudo se conjuga muito bem neste belíssimo Era Extraña.
Pontos altos:
- Polish Girl
- Hex Girlfrend
- Halogen (I Could Be A Shadow)
Nota Final: 8,0/10
Ceremonials – Florence + the Machine (Outubro)
- Confesso que não morri de amores por Lungs (2009), álbum de estreia da britânica Florence Welch e da sua máquina que conseguiu arrebatar os corações de muito boa gente. Por isso, não é de estranhar que não tenha ficado propriamente entusiasmado com o lançamento do seu sucessor, Ceremonials, mas ainda assim decidi dar-lhe uma chance e ouvi-lo. O resultado; apesar de ainda não me ter convertido ao culto de seguidores da ruiva que reina no mundo da Indie Pop, a verdade é que este segundo LP mostra uma sonoridade mais madura, com uma produção mais aprumada e com instrumentações mais bem conseguidas. É preciso dar crédito aonde ele é merecido, e a verdade é que Ceremonials conseguiu subir a fasquia para os Florence +  the Machine, mesmo que o som do grupo continue a soar-me bastante mediano. Talvez para a próxima eu me deixe conquistar, mas até lá, continuamos assim.
Pontos altos:
- Shake It Out
- No Light, No Light
- Spectrum
Nota Final: 5,8/10

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Ritual Union


Vindos da Suécia, os Little Dragon são um quarteto de Trip Hop Electronica que começou a sua carreira em 1996. Os seus primeiros dois discos, Little Dragon (2007) e Machine Dreams (2009), foram muito bem recebidos pela crítica, que elogiou a forma como os vocais delicados de Yukimi Nagano e a mistura de géneros tão díspares como aSoul, o Downtempo ou a Synthpop se fundiam para criar uma sonoridade única. Hoje, em análise, temos o terceiro LP da banda, Ritual Union, saído a 25 de Julho.

Confesso, apenas recentemente comecei a “mergulhar” no catálogo desta banda sueca. No entanto, após algumas audições, percebi porque é que este grupo é tido em tão grande conta, tanto pela crítica como por outros artistas (prova disso é a colaboração com os Gorillaz em Plastic Beach). Ao ouvir os primeiros dois álbuns, confesso que o som dosLittle Dragon me deixou num estado absoluto de relaxamento e despreocupação, e isso é algo que felizmente transita para este Ritual Union.

A voz de Yukumi Nagano, apesar de manter a delicadeza dos discos anteriores, surge aqui mais incisiva, mostrando uma faceta menos conhecida da cantora. As letras também acompanham essa evolução. Apesar de ainda haver espaço para o intimismo e gentileza de Little Dragon Machine Dreams, aqui vemos mais angústia e amargura na escrita dos temas, uma maturidade que me agradou.

Contudo, o maior trunfo deste Ritual Union é sem dúvida o som propriamente dito. As batidas que caracterizaram os anteriores lançamentos dos Little Dragon ainda estão bem presentes, continuando a trazer à memória uns Massive Attack (particularmente da era Mezzanine). Porém, a sonoridade no seu todo vem carregada de mais sintetizadores e com um ambiente que encontra clara inspiração na New Wave britânica dos anos 80. Isto, aliado a uma produção bem equilibrada, resulta num disco que me agradou bastante.

No entanto, Ritual Union não escapa sem alguns defeitos, a começar pela falta de consistência, que  a meu ver mina a potencialidade que este disco tinha de ser uma obra brilhante. Se é verdade que neste álbum estão presentes peças extraordinárias, também não estarei a mentir quando digo que estão aqui presentes canções que não me agradaram nem um bocadinho.

Outro problema é a maneira como essas canções, para mim inferiores, estão todas concentradas no final do disco, o que faz com que estas “matem” o andamento esplendidamente construído até aí, encerrando mal o disco. Aliás, Seconds foi, na minha opinião, a pior escolha para fechar o LP, pois deixou-me a sensação de que este Ritual Union não ficou bem resolvido.

Como canções obrigatórias, indico a vibrante Please Turn, a faixa-título Ritual Union, que abre o disco muito bem, com uma evolução que desemboca num clímax sonoro incrível, ou aquela que é, a meu ver, a melhor faixa deste álbum, Shuffle A Dream, uma espectacular  música, em que o sintetizador ritmado consegue contagiar qualquer um. As piores do LP são, para mim, NightlightWhen I Go Out ou Seconds, músicas muito inferiores àquilo que já vi este grupo sueco fazer.

Concluindo, Ritual Union é uma bela obra, que mantém o nível de qualidade a que os Little Dragon nos têm habituado. Preservando a identidade musical que os distinguiu, este disco irá com certeza trazer mais fãs à banda, ao mesmo tempo que deixa os antigos seguidores felizes. Contudo, está longe de ser perfeito, tendo defeitos que o impedem de vôos mais altos. No entanto, não deixa de ser um agradável álbum de Trip Hop e Electronica, muito relaxante, que recomendo vivamente.

Nota Final: 7,8/10

João Morais

(Este texto foi originalmente publicado no Espalha Factos e pode ser visto aqui)

domingo, 16 de outubro de 2011

Here Before


Formados em 1975 na cidade norte-americana de New Jersey, os The Feelies são um dos grupos mais influentes do Alternative Rock americano dos anos 80, tendo inspirado o som de bandas como os R.E.M., Sebadoh ou Pavement. Depois de ter lançado o seu quarto disco de originais (Time For a Witness, de 1991), a banda entrou em hiato em 1992, tendo regressado ao activo em 2008. Em Abril deste ano voltaram à edição de álbuns, com Here Before, registo que será hoje analisado pelo MDC.

Para quem não conhece os The Feelies, a fórmula da sua música não é muito complicada; Alternative Rock com uma estética Lo-Fi típica dos anos 80, aliada a influências de grandes grupos e artistas norte-americanos como os The Byrds, The Velvet Underground ou Neil Young. Era assim no disco de estreia, o brilhante Crazy Rythms (1980), e felizmente continua a sê-lo neste Here Before, um LP que surpreende pela positiva, com uma qualidade que não se esperava de um grupo que já não fazia música junto há 20 anos. Um regresso muito bem conseguido.

Como já tive oportunidade de dizer, a sonoridade dos The Feelies assenta num Alternative Rock bastante empolgante e inventivo, que aposta numa abordagem simples e directa. Contudo, neste Here Before conseguimos denotar uma forte influência acústica no som da banda, inspirado em alguns dos trabalhos de Neil Young ou John Fogerty. Porém, desengane-se quem pensa que este é um trabalho “levezinho”. Apesar de haver uma atmosfera mais “calma” em certos pontos, os The Feelies continuam a mostrar um Alternative Rock muito forte e seguro, bem na linha do que já fizeram anteriormente.

Ao nível das vozes, Bill Million e Glenn Mercer continuam com o seu estilo muito próprio, algo que vejo com muito bons olhos. Nas letras, mais uma vez, a dupla Million/Mercer continua a dar cartas, trazendo uma lírica que só pode agradar aos fãs da banda, falando de temas como o reencontro e o recomeço, tal como o próprio título do disco, Here Before, sugere. Na produção, também entregue a Million e a Mercer, assistimos a uma estética que também segue o cânone traçado pelos The Feelies; um som abrasivo e certeiro, que me agradou bastante.

No entanto, apesar das grandes qualidades deste LP, Here Before não é um álbum perfeito, tendo a meu ver alguns defeitos que o impedem de ser melhor. Começo pelo facto de, na minha opinião,  algumas das canções não estarem tão trabalhadas quanto poderiam, o que me leva a notar alguma inconsistência no disco, que em alguns momentos “mata” o ímpeto do registo.

Outro defeito deste registo prende-se com uma certa falta de originalidade em relação àquilo que os The Feelies já desenvolveram anteriormente. Apesar de apreciar (e muito) a identidade sonora que a banda foi criando ao longo dos anos, a verdade é que Here Before não traz nada de novo, algo que facilmente os torna num alvo de críticas neste departamento. Mesmo que as falhas deste LP não sejam gritantes, não deixam de ser, a meu ver, pontos menos fortes e que se repercutem na apreciação final do álbum.

Entre as minhas canções favoritas deste disco, contam-se a sonhadora Change Your Mind, a acelerada When You Know, e a minha preferida de todas, a electrizante e fervilhante Time Is Right. Entre as de que menos gostei estão Again Today, Later On e Bluer Skies, peças que a meu ver pecam por não terem um “brilho” que polvilha as faixas mais cativantes deste álbum.

Resumindo, Here Before faz parecer que nem passaram 20 anos desde Time For a Witness, e mostra uns The Feelies ao mais alto nível. Apesar de este não ser o melhor trabalho do grupo até à data, este LP é algo de especial, pelo regresso aos discos por parte do quinteto e pela qualidade que é visível nestes 45 minutos de música. Resta esperar que este retorno não tenha apenas um filho único, e que da ninhada de Here Before saiam mais álbuns de qualidade.

Nota Final: 8,5/10

João Morais

sábado, 8 de outubro de 2011

Deus, Pátria e Família


Aqui no MDC, B Fachada é um artista que dispensa apresentações. Com três LP’s e seis EP’s lançados em nome próprio, Fachada já cimentou bem o seu nome na “cena”, sendo uma das figuras grandes da “Nova Música Portuguesa”. Hoje, em dia de aniversário do Música Dot Com, vamos falar do seu mais recente trabalho, Deus, Pátria e Família, EP distribuído gratuitamente na internet em Junho deste ano.

Não é a primeira vez que escrevo sobre um trabalho de Fachada, como alguns de vós devem saber. Por isso, não deve ser nenhuma surpresa a minha admiração pela obra deste verdadeiro “bardo suburbano”, que é, a meu ver, um dos melhores artistas nacionais da actualidade. Por isso, peço desculpa pela minha abordagem de fanboy, mas a verdade é que Deus, Pátria e Família conseguiu conquistar-me por completo.

Para quem se lembra, o disco anterior de B Fachada foi B Fachada É Pra Meninos, lançado em Dezembro do ano passado, e contava com um rol de canções falsamente infantis, que sob a “capa” de uma sonoridade Indie Pop mais acessível, escondia letras maduras e reflexivas. Em Deus, Pátria e Família, porém, Fachada mostra-nos apenas uma canção, de 20 minutos, que preenche todo o EP, com uma Pop mais adulta e agarrada ao piano, e com letras que fazem lembrar FMI (1982), de José Mário Branco, com letras bem amargas, directas e interventivas.

Dividida em quatro partes (duas das quais se repetem, formando uma espécie de ciclo), Deus, Pátria e Família vai alternando, ao longo dos seus 20 minutos, entre ritmos mais efusivos e mexidos, partes mais “sonhadoras” e contemplativas e fases mais lentas, baladeiras e intimistas, dando ao registo uma dinâmica que impede que a faixa se torne repetitiva, ou aborrecida.

Ao nível das letras, prato forte de B Fachada, assistimos, como já referi, a temas bastante directos e interventivos, que podem ser interpretados com um olhar mais “político”, especialmente quando se tem em conta a crise que o nosso país atravessa. Também no campo lírico se sente uma certa alternância, aqui entre um lado mais crítico e “bruto” contra Portugal, e uma faceta mais esperançosa e terna.

Ao nível da produção, cujos créditos são divididos entre Fachada e Eduardo Vinhas , ouve-se um tratamento mais cru do que em B Fachada É Pra Meninos, o que condiz com o sentimento geral do EP, algo que me agrada muito. Confesso que isto, aliado a tudo o que já referi anteriormente, faz com que este Deus, Pátria e Família seja, para mim, uma obra imaculada, e talvez o melhor EP que eu ouvi este ano.

Resumindo, Deus, Pátria e Família é um EP de excepção, com uma canção de 20 minutos que prima pela falta de falhas. Com letras duras e incisivas habilmente criadas, B Fachada envereda por um caminho diferente de tudo o que fez anteriormente, mostrando que este é um artista que se reinventa constantemente, atributo muito raro nos dias que correm. Agora, resta aos fãs de Fachada aguardar que o seu quarto longa-duração seja lançado, algo que deve acontecer ainda este ano. Até lá, ficamos com este belíssimo EP.

Nota Final: 5/5 (para os EP’s, o sistema de notas é diferente)

(Para fazerem o download deste EP, cliquem aqui e baixem a pasta)

João Morais

Parabéns, Música Dot Com!


Pois é, o Música Dot Com está de parabéns; foi há exactamente dois anos, no dia 8 de Outubro de 2009, que esta “aventura” começou, com uma review do quinto disco dos Muse, The Resistance (um texto bastante parco em qualidade, devo admiti-lo).

Desde esse dia, o MDC cresceu, melhorou, “entrou” no Facebook e no Twitter, ganhou seguidores e ultrapassou as 10.000 visitas (já vamos nas 14.000). Tudo isto para um blog que começou como um hobby, e se tornou em algo mais, graças à dedicação de amigos e desconhecidos, que lêem e apoiam este nosso “cantinho” na Internet.

A todos vocês, um grande “Obrigado”, e “Parabéns”, porque este aniversário também é vosso!

João Morais

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Take Care, Take Care, Take Care

Criados em 1999, os Explosions in the Sky são um dos nomes mais conhecidos do Post Rock instrumental, contando com uma carreira que incluí seis discos de originais. A mais recente obra do grupo, Take Care, Take Care, Take Care, saiu em Abril deste ano, sucedendo ao bem recebido All of a Sudden I Miss Everyone (2007), e será hoje analisado pelo Música Dot Com.

Confesso que fiquei fã dos Explosions in the Sky desde o momento em que escutei The Earth Is Not a Cold Dead Place (2003), uma autêntica obra-prima com um valor gigantesco para mim. E apesar de considerar que os EitS ainda não conseguiram ombrear com a qualidade desse majestoso disco de 2003, devo admitir que são uma banda que já conseguiu, desde então, criar álbuns muito belos, daí que tenha ficado com uma enorme expectativa por este Take Care, Take Care, Take Care, expectativa essa que felizmente não foi defraudada.

Quem conhece os Explosions in the Sky, sabe o que deve esperar em Take Care, Take Care, Take Care; Post Rock instrumental, com ritmos que vão intercalando entre calmas pacíficas, crescendos galopante e clímaxes poderosos e estonteantes. Nesse aspecto, os EitS seguem os cânones estabelecidos desde o primeiro disco da banda, How Strange, Innocence (2000).

No entanto, há diferenças entre este LP e o seu antecessor, All of a Sudden I Miss Everyone, que a meu ver elevam a fasquia de qualidade do grupo em comparação com o disco de 2007. A começar, a banda soa mais coesa, com os instrumentos a soarem ainda melhor. Depois, as canções estão ainda mais “urgentes”, conseguindo fazer passar um sentimento de expectativa que me agradou imenso.

Ao nível da produção, entregue a John Congleton, há também um corte com o som mais polido e cuidado de All of a Sudden I Miss Everyone. Em Take Care, Take Care, Take Care, as guitarras estão mais abrasivas e directas, a bateria mais agressiva, e o som do grupo é mais avassalador. Consigo dizer que, apesar de estar a anos-luz de The Earth Is Not a Cold Dead Place, este sexto álbum do grupo é dos melhores que os Explosions in the Sky já assinaram.

Contudo, este LP não está, a meu ver, perfeito. O principal defeito é, para mim, a falta de consistência que está presente em duas extensas canções do disco, Human Qualities e Be Comfortable, Creature, que para mim “morrem” a meio e falham em cativar-me totalmente. Apesar desta falha não fazer deste um mau álbum, a verdade é que tira-lhe o brilho, e impede-o de se afirmar como potencial “disco do ano”.

Das seis canções que compõem este disco, as de que gostei mais foram a hipnótica Let Me Back In, a dinâmica Last Known Surroundings, ou a minha preferida, a apressada e viciante Trembling Hands. As de que menos gostei, como já referi, são Human Qualities e Be Comfortable, Creature, que não sendo más faixas, não estão a meu ver ao nível das restantes peças.

Em suma, Take Care, Take Care, Take Care é um belíssimo disco, carregado de “mini-sinfonias” Post Rock, com a qualidade que só os Explosions in the Sky conseguem imprimir num LP. Apesar de não ser perfeito, este sexto registo do grupo é um claro avanço em relação ao seu antecessor, e deixou-me a pedir por mais deste quarteto norte-americano. Esperemos pelo próximo álbum.

Nota Final: 8,6/10

João Morais 

domingo, 2 de outubro de 2011

Watch the Throne



Os The Throne são um duo norte-americano de Hip-Hop formado por Kanye West e Jay-Z, dois artistas que dispensam apresentações. Com provas dadas nas suas carreiras, e com os seus mais recentes discos a terem sido bem recebidos pela crítica (Jay-Z com The Blueprint 3 e West com o maravilhoso My Beautiful Dark Twisted Fantasy), esta dupla decidiu juntar-se para um projecto conjunto, o disco Watch the Throne, que será hoje falado aqui.

Confesso-me fã, tanto de Kanye como de Jay-Z, que vêm ambos de LP’s muito bem sucedidos, tanto a nível comercial como crítico: My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010) é, discutivelmente, um dos melhores álbuns do ano passado, e The Blueprint 3 (2009) é um claro regresso à “forma” de outros tempos de Jay-Z, depois de um período de discos menos bons. As expectativas para este Watch the Throne estavam, por isso, bem elevadas.

Contudo, quando ouvi este longa-duração, confesso que não pude deixar de me sentir um pouco desiludido. Apesar de oHip-Hop de “alta-costura” de ambos os artistas ainda estar lá, a verdade é que o disco, no geral, não me impressionou. Não posso dizer que é um mau álbum, mas verdade é que Watch the Throne, para mim, não passa da barreira do aceitável.

Ao nível da sonoridade, continuamos a ter aquele Hip-Hop fortemente produzido, com grande recurso a samples e batidas Dance Pop a que estes dois artistas já nos habituaram. Contudo, se na segunda metade do disco essa produção é de grande qualidade e consegue ser cativante, na primeira o som soa-me desinspirado e de nível bastante inferior, chegando a ser um horror de se ouvir em algumas canções.

Outro aspecto que notei neste Watch the Throne foi o uso do Auto-Tune, que está presente em muitos momentos do LP. E se bem que em canções como That’s My Bitch ou Murder to Excellence esse efeito fique bem, também é verdade que a meu ver “estraga” faixas com potencialidade, como a faixa de abertura No Church in the Wild ou Gotta Have It.

No que toca às letras, o mesmo problema que verifiquei na produção volta a surgir: se em algumas das canções estas são fortes e bem pensadas, noutras peças a escrita soa-me forçada, desinspirada e pouco sincera. Em grande parte do álbum,West e Jay-Z não passam de “gabarolas” que fazem questão de nos descrever a sua vida luxuosa, algo que chega a ser excessivo. Contudo, quando falam de temas como a paranóia que surge quando se está no topo (Why I Love You) ou de criminalidade violenta dentro da comunidade negra (Murder to Excellence), os rappers parecem honestos e sérios, algo que me agradou.

Entre as minhas faixas favoritas do disco encontram-se Why I Love You, que encerra muito bem o LP, That’s My Bitch, que consegue fazer passar um ambiente obscuro muito interessante, e aquela que é a meu ver a melhor de Watch the ThroneMurder to Excellence, onde as letras de cariz social e a sonoridade acelerada fundem-se criando uma canção excelente. Infelizmente, a qualidade destas (e doutras) boas canções vê-se diluída em peças a meu ver inferiores, como Lift OffOtis ou Who Gon Stop Me.

Concluindo, Watch the Throne não seria um mau disco de estreia caso Kanye West Jay-Z fossem completos desconhecidos. Contudo, o peso do legado que ambos carregam faz-se sentir, e este LP torna-se quase inadmissível para artistas deste nível. Se por acaso os The Throne continuarem, fico à espera de muito melhor, pois este álbum não me deixou convencido.

Nota Final: 5,7/10

João Morais



(Este texto foi originalmente publicado no Espalha Factos e pode ser visto aqui)

sábado, 10 de setembro de 2011

Festivais de Verão: resultados da votação


Depois de meses de votações, chegou ao fim a poll que o Música Dot Com fez acerca dos Festivais de Verão (nacionais e não só), no passado dia 5 deste mês, tendo contado com a participação de 25 orgulhosos votantes desta nossa sondagem.


E após o “fecho das urnas”, verificou-se aquilo que o MDC já antecipava; o grande vencedor é o Super Bock Super Rock, considerado pelo blog como o evento que reunia o melhor cartaz do ano (vejam aqui a reportagem que o Música Dot Com fez do evento), e que foi escolhido por 48% dos “eleitores” (12 votos).

Seguiram-se “outros” festivais (entre os quais suponho que se incluam o Avante ou o Milhões de Festa, não esquecendo possíveis “festivaleiros internacionais”), que reuniram 8 votos, perfazendo 32% do total.

No terceiro lugar, e encerrando o pódio, ficou o Optimus Alive! e a sua quinta edição, que contou com nomes como Coldplay  ou Foo Fighters, e que levou ao passeio marítimo de Algés 5 leitores do MDC (20% dos inquiridos).

No final da lista ficaram as opções “Nenhum”, com 3 votos (12%), Paredes de Coura, com 2 votos (8%) e o Sudoeste TMN, com apenas um voto (4%).


Reflectindo acerca da sondagem em si, notei uma maior participação por parte do público (um aumento de 9 pessoas em relação à última sondagem do MDC), o que se prende sobretudo ao tempo em que a sondagem esteve aberta, e ao assunto abordado, muito mais aberto à população em geral. Agora, resta aguardar pelo próximo inquérito, e esperar que haja mais participantes.

João Morais

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Hot Sauce Committee Part Two


Desde 1979 que Mike D, MCA e Ad-Rock, os Beastie Boys, estão juntos, tendo atingido com o passar dos tempos o estatuto de “decanos do Hip-Hop”, pelo seu contributo para o género, com uma discografia que chega aos oito discos de originais. Após um registo instrumental pouco acolhido pela crítica, The Mix-Up (2007), o grupo de Brooklyn chega agora com Hot Sauce Committee Part Two, que saiu a 27 de Abril, e que o MDC irá analisar hoje.

Sou fã de Beastie Boys, confesso. Canções como No Sleep till Brooklyn, Sabotage, ou Ch-Check It Out são referências óbvias para muitos fãs de Hip-Hop, e este trio é certamente uma das grandes figuras do género. Daí que muitos tenham ficado surpreendidos com The Mix-Up, o disco que sucedeu ao brilhante To the 5 Boroughs(2004), e que chocou com a sua abordagem instrumental, chegando a “roçar”, por vezes, géneros como o Funk ou até o Post-Punk, algo inédito para o trio.

Contudo, neste Hot Sauce Committee Part Two, os Beastie Boys regressaram ao Hip-Hop, com uma abordagem um pouco mais electrónica, mas com as rimas “afiadas” de sempre. Apesar de continuar a preferir To the 5 Boroughs, este  disco, mais cerebral e menos imediato, é uma bela incursão por um género tão variado como o Hip Hop, estilo esse em que os Beastie Boys sempre se mostraram mestres.

Como disse, este álbum claramente mostra uma vertente mais electrónica dos Beastie Boys, havendo aqui pouco espaço para o crossover com o Rock que é tão habitual na banda. Ao contrário do que estamos habituados, aqui não há riffs a rasgar, mas sim batidas computadorizadas, que remontam para uma Electronica de ritmo rápido e pesado, muito agradável ao ouvido. A produção mais “suja” também ajuda a dar um clima mais “negro” a este Hot Sauce Committee Part Two, que só lhe fica bem.

Contudo, este disco não está isento de falhas. A mais gritante será a inconsistência, que faz com que faixas bastante boas sejam intercaladas por canções que, a meu ver, não fazem falta nenhuma ao álbum.  Isso é também aliado ao facto de haver alguns “interlúdios” que por vezes cortam o ritmo ao LP, algo que não me agradou por completo.

Outro defeito está, a meu ver, na Electronica de algumas das faixas de Hot Sauce Committee Part Two, que chega por vezes a ser repetitiva e cansativa. Apesar deste problema não se ter revelado das primeiras vezes que ouvi o álbum, a verdade é que a audição continuada fez-me perder muitas vezes o vagar de ouvi-lo de novo, ou pelo menos de escutá-lo inteiramente, algo que certamente não ajudou no veredicto final.

Entre as canções do álbum, destaco a vibrante OK, a relaxada Don’t Play No Game That I Can’t Win (com uma bela participação de Santigold) e a minha favorita, a rápida e frenética Lee Majors Come Again, a única faixa que puxa para o lado mais “tradicional” dos Beastie Boys, e que me trouxe alguma nostalgia. Entre as de que menos gostei estão Nonstop Disco Powerpack, Tadlock’s Glasses e The Lisa Lisa/Full Force Routine (que a meu ver, fecha mal o álbum).

Em suma, Hot Sauce Committee Part Two mostra uns Beastie Boys que continuam a querer inovar e experimentar, algo que acho muito salutar e que prezo muito nos artistas e bandas. Contudo, apesar de ser um álbum muito bom, não está livre de falhas, e mesmo sendo uma melhoria em relação a The Mix-Up, falha em ultrapassar To the 5 Boroughs, um disco de excepção. Porém, se ouvirem este oitavo LP do trio, não irão ficar nada mal servidos.

Nota Final: 8,1/10

João Morais